Quando desejo vira obsessão, o cotidiano é prejudicado

Filmes eróticos dominam internet e têm maior potencial para viciar

Ilustração: Matheus Faisting

Trinta por cento de todo o tráfego de dados da internet é pornografia, segundo dado revelado pelo Extreme Tech, um popular site estadunidense de tecnologia, em 2012. O estudo A Billion Wicked Thoughts, escrito pelo neurocientista Ogi Ogas, indica que este tipo de conteúdo corresponde a 13% das pesquisas feitas nos principais buscadores e 4% de todos os sites disponíveis na web. Além disso, a pesquisa Predicting Compulsive Internet Use, feita em 2006 pelo Addiction Research Institute, na Holanda, afirma que “de todas as atividades feitas pela internet, consumir pornografia é a que tem maior potencial para viciar”. Apesar de alguns desses dados serem contestados, casos de pessoas que se consideram viciadas em conteúdo erótico têm se tornado cada vez mais comuns.

Mesmo consumindo pornografia de uma a três vezes por dia, Paulo* (20) não se considera dependente. O estudante de ciências biológicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro acredita que seu hábito não seja prejudicial e até o compara com o uso do Facebook: “não é porque acesso diariamente, que eu sou viciado”. Ele conta que sempre que se vê sozinho, acaba procurando este tipo de conteúdo. Além disso, ainda menciona casos em que precisou sair de perto de colegas para saciar seu desejo. “Sempre tem um lugar para ir. Vou rápido no banheiro e pego o celular. Em festa, o jeito é fazer isso”.

Paulo esclarece que seu hábito nem sempre é acompanhado pela masturbação e revela que já passou horas vendo pornô na web. “Assisto porque me dá adrenalina. Nunca tentei ficar muito tempo sem pornografia, mesmo porque não consigo”. O garoto acredita que a falta de sexo foi o que desencadeou sua rotina, que se mantém constante há 3 anos. “Prefiro me satisfazer sozinho a ter outra pessoa para fazer isso”, confessa.

O psiquiatra e sexólogo Kayo Gheno explica que o consumo de pornografia pode ser resultado da relação entre instinto humano e diversidade de conteúdo disponível na rede. Segundo ele, a possibilidade de “vivenciar” cenas protagonizadas por pessoas diferentes engana nosso cérebro, que as entende como situações variadas e reais de procriação. “É um sistema de recompensa que libera endorfina e dopamina, como no sexo mesmo”. Para Kayo, o consumo de pornografia passa a ser prejudicial a partir do momento que as atividades cotidianas de quem consome começam a ser afetadas. “O vício surge quando a pessoa organiza a vida dela em torno daquilo. Quando, por exemplo, a pessoa está na aula e fica pensando qual site pornográfico ela vai acessar”, explica.

“Eu prefiro me satisfazer quando estou sozinho a ter outra pessoa para fazer isso”

E foi justamente essa a situação que levou José Trigueiro (19) a iniciar tratamento psicológico ainda na infância para tratar o que ele mesmo chama de vício. O estudante de Publicidade e Propaganda conta que, aos 12 anos, saía da aula para se masturbar pelo menos cinco vezes ao dia, comportamento esse que acabou chamando a atenção de sua professora. “Um dia ela me chamou e pediu para contar o que tanto eu fazia no banheiro. Ela conversou com minha mãe e fomos juntos a uma psicóloga”, conta. Ele ainda revela que, por causa da frequência com que se masturbava, tinha dificuldades inclusive para sentir prazer. “Meu corpo entendia que aquilo era comum”.

Sobre as consequências do vício, o jovem se lembra da queda de rendimento escolar e da dificuldade de convívio com as pessoas. “Eu não brincava, fazia as coisas rápido em casa para poder voltar para os vídeos. Via pornografia até onde não tinha”. Depois do início do tratamento, José ainda demorou cerca de sete meses para “parar de ver sexo em tudo”. Hoje, ele não tem o hábito de consumir muito conteúdo erótico e afirma ter uma vida sexual comum e ativa. “Não tenho vergonha em expor que passei por isso pelo simples fato que mais gente pode passar pelo mesmo, ou as vezes já passa, e não sabe”.

Apesar de casos como o de José, existem muitos defensores da ideia de que o vício em pornografia seja um mito. Essa opinião, compartilhada por parte da comunidade acadêmica psiquiátrica, se apoia na ausência do distúrbio no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, elaborado pela Associação Americana de Psiquiatria e principal referência para pesquisas sobre saúde mental no mundo todo. Os críticos da categoria “vício em pornografia” costumam apontá-la como uma criação baseada na moral cristã. Joshua Grubbs, pesquisador e doutorando em psicologia pela Case Western Reserve Univerity, publicou um estudo em 2014 indicando que havia uma influência maior da religião e da reprovação moral à pornografia do que de impactos negativos reais na vida dos que se consideravam viciados em pornô.

A psicóloga Maria Eduarda Ramos, cuja tese de doutorado teve a pornografia como objeto de estudo, acredita que encarar como viciante o consumo de conteúdos eróticos sem uma leitura crítica pode ser algo problemático. “A pornografia esbarra em questões morais porque a própria sexualidade passa por essas questões. Por conta disso, assistir, ver ou ler pornografia pode ser considerado um comportamento patológico para algumas pessoas”, esclarece. Apesar disso, ela reconhece que a partir do momento em que o comportamento começa a trazer prejuízos para o cotidiano da pessoa, a busca por ajuda torna-se necessária. “Há diversas formas de tratamentos para compulsões, seja medicamentoso e/ou psicoterápico. As psicoterapias são feitas em diferentes abordagens, então, para cada abordagem há uma forma de se fazer o tratamento”.

  • O nome do entrevistado foi alterado para preservar sua identidade

Texto: Matheus Faisting, Vinicius Bressan