Líder não, representante. Luíza Fernandes, estudante de Psicologia, fala que chapa tenta aplicar gestão horizontal (Foto: Betina Ramos/Zero)

Quatro anos depois, a vez da esquerda

Nova gestão do DCE corre contra o tempo para dar resposta aos estudantes da UFSC

Por Betina Ramos e Eduarda Hillebrandt

Após quatro anos de tentativa, a esquerda retomou a instância máxima de representação estudantil, eleita com 44,57% dos votos. A chapa “Ainda há tempo”, eleita para o próximo ano de gestão, procura devolver ao Diretório Central Estudantil (DCE) os matizes revolucionários dos tempos de Novembrada (1979) — manifestação organizada pelos movimento estudantil durante a passagem do general João Figueiredo por Florianópolis.

Talvez a coalizão entre movimentos antes segmentados explique a retomada. Compõem a formação: a tríade União da Juventude Comunista (UJC), Juventude Comunista Avançando (JCA), União da Juventude Rebelião (UJR); as Brigadas Populares; o MAIS — desmembramento do PSTU, agora alinhado ao PSOL — e a própria juventude psolista. Sob o mesmo guarda-chuva, diversos coletivos feministas e negros da universidade. Ao todo, 174 estudantes assinaram a candidatura.

Fomos recebidos na sede do DCE pela porta-voz Luiza da Silva Fernandes, acadêmica de Psicologia, acompanhada por dois assessores. Quando questionada sobre a Ouvidos Moucos, Luiza pausou a entrevista para consultar a opinião do grupo. Embora os planos para o próximo ano de gestão estejam definidos, a execução não está clara. Pretendem “pautar” as propostas “através de eventos”. O risco maior em se dispor a ouvir todas as vozes, no entanto, é que a gestão acabe enrolada nas próprias discussões internas.

Zero: Qual a visão da gestão sobre a função do DCE na conjuntura da UFSC?

DCE: Há estudantes sem saber se vão receber a bolsa no mês que vem, porque a gente já não tem mais certeza de nada. Isso torna muita clara a função do DCE enquanto uma entidade máxima dos estudantes. O DCE tem que estar no cotidiano dos estudantes, tem que saber o que o estudante precisa, tem que saber como pode ajudar e correr atrás de dialogar, de estar junto no que for necessário.

Z: Como a gestão entende a necessidade de um posicionamento político em questões nacionais por parte do DCE?

DCE: Se a gente não sabe se vai receber bolsa mês que vem, é porque tem algo acontecendo a nível nacional impactando a universidade. Não dá pra não se posicionar vendo todo o tipo de sucateamento da educação chegando ao nosso lado e dizer “somos neutros, não vamos falar nada porque queremos representar todos os estudantes”. Não falando nada a gente não representa nenhum.

Z: Quais são os projetos prioritários? Como vocês têm se organizado?

DCE: Precisamos pensar políticas para todo o ano de gestão. Nos dividimos em eixos de permanência, de cultura e integração, de ensino, pesquisa e extensão. Criamos dez comissões para planejamentos mais táticos. A partir desse planejamento, vamos pautar através de eventos a necessidade de café da manhã no RU, saúde mental, práticas corporais e a questão das atléticas. Também pensar numa articulação com os campi, as necessidades desses estudantes. Há muita coisa a ser feita, o que não falta é necessidade batendo na nossa porta.

Z: Quais serão os projetos pensados a longo prazo?

DCE: As questões de permanência na universidade. É gritante o cenário em que o estudante consegue entrar na universidade a duras penas e não consegue permanecer. Não consegue terminar o curso porque não tem RU de qualidade, porque vai ficar uma hora na fila e não consegue ir pro trabalho, ou não consegue um estágio. Nesse sentido, a prioridade do DCE a longo prazo é conseguir mudanças reais pros estudantes permanecerem na universidade.

Z: Qual o ambiente que vocês esperam para o CUn? Quais as estratégias preparadas?

DCE: É difícil dizer o que a espera do Conselho Universitário, há um clima diferente assim, a gente não sabe muito bem o que esperar. O que a gente pensou em reunião: precisamos nos reunir com os estudantes para pensar juntos. O cenário do CUn agora é um pouco nebuloso, nesse sentido a nossa estratégia é sempre tentar dialogar.

Z: Qual o posicionamento da gestão em relação às investigações da Polícia Federal na universidade?

DCE: Há problemáticas envolvendo essa investigação. Mais do que defender a autonomia universitária, precisamos pensar no que está de fundo nessa investigação, que não é só sobre o reitor, mas principalmente sobre a questão das fundações na universidade. Fundações essas que sempre aprovaram as contas de maneira apressada, por debaixo dos panos. Para manter a autonomia universitária, precisamos ter clareza de onde estão indo os recursos, em que tipo de pesquisa, até mesmo por uma questão de transparência. A universidade tem uma função social que precisa ser cumprida por todos os órgãos que compõem a estrutura da universidade.

Z: Essa é uma chapa de unidade que traz o desafio de pessoas com visões políticas diferentes. Como vocês pretendem manter uma coesão?

DCE: Isso foi algo que foi construído desde a formação de chapa, então não ignoramos que haja divergências políticas dentro das organizações, dos estudantes que compõem a chapa. Tiramos princípios básicos que norteiam toda a gestão e esses princípios são consenso entre os estudantes que compuseram esse processo. Então ainda que haja outras divergências, a gente resolve elas em reunião geral, a gente debate. E isso vale inclusive pra quem não é da nossa chapa que pode não concordar com algum princípio, mas vindo para a reunião geral e colocando as suas divergências a gente pode discutir. Nos nossos princípios não voltamos atrás, foi com eles que fomos eleitos e é nosso compromisso com os estudantes que votaram na gente. Outras divergências políticas de como tocar as tarefas, de conjuntura política isso tudo é debatido. É assim que a gente mantém a nossa coesão, sempre debatendo, sempre deixando claro as divergências e fazendo uma síntese que abarque ao máximo os diferentes posicionamentos.

Z: Vocês estudam fazer ocupações similares às de 2016?

DCE: Muitas das pessoas que ocupam a chapa também participaram dos movimentos de ocupação em 2016. Entendemos que as ocupações são maneiras legítimas de fazer reivindicações de pautas importantes. Ano passado, nas mobilizações de ocupação ou de vigília que aconteceram em alguns centros, havia uma conjuntura que estava vindo pra cima das universidades, para cima dos estudantes como Reforma do Ensino Médio, a PEC do Fim do Mundo. Essas ocupações foram construídas amplamente, a gente teve a primeira assembleia estudantil na UFSC em muitos anos. Enquanto gestão, apoiamos esse tipo de mobilização, desde que os estudantes vejam necessidade da uma mobilização.

Z: Vocês citam a necessidade de uma greve geral entre servidores, professores e estudantes. Há alguma articulação em andamento?

DCE: Muitos estudantes que compõem a nossa chapa compuseram as mobilizações de greve geral que já aconteceram esse ano. Como temos compreensão da importância da mobilização, da greve geral para conseguir barras coisas que vão muito além da UFSC, é importante trazer esses debates.

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