Fontes renováveis como moeda de troca

Método da geração distribuída permite que consumidores produzam eletricidade em casa

Por Fabio Tarnapolsky

Fontes de energia estão entre os temas mais debatidos quando o assunto é sustentabilidade pelo seu alto movimento de mercado. Nas conversas, surgem novas formas de produção e comercialização, uma delas é a geração distribuída (GD), o método que dá autonomia aos consumidores de eletricidade para que produzam a própria energia. Nela, as fontes mais presentes são as renováveis e a mais viável é a solar, criada através de painéis fotovoltaicos.

#PraCegoVer: uma tabela mostra como é dividida a geração distribuída em Santa Catarina. A fotovoltaica tem potência instalada de 42.890 quilowatts, a eólica possui 159 quilowatts, a biomassa atinge 6.000 quilowatts e o biogás chega a 3.367 quilowatts.

Na geração distribuída, quem consome energia pode gerá-la em sua residência e vender o excedente da produção para as empresas distribuidoras. Em Santa Catarina, foi criado pela Celesc um projeto que incentiva o uso desse método. É o programa Bônus Fotovoltaico, que tem como objetivo custear 60% da instalação dos painéis de energia solar nas casas dos moradores interessados em participar. Esses dispositivos são os necessários para o uso da geração distribuída. Compostos por células que captam a luz do sol e a convertem em eletricidade, costumam ser usados por empresas e organizações que buscam as fontes renováveis para geração de energia. Os pré-requisitos para inscrição são: estar em dia financeiramente com a Celesc e ter um consumo médio superior a 350 quilowatts nos últimos 12 meses.

Mas por que a divulgação desse programa? É que ele vai seguir à risca o conceito do método de produção em casa. As pessoas vão usar os painéis, produzir sua própria energia ao longo do ano e o que sobrar de excedente será injetado no sistema elétrico catarinense, uma parceria consumidor-instituição. “A gente acompanha mensalmente a quantidade de sistemas e vemos que está aumentando. Atualmente temos 350 unidades e a expectativa é que esse número passe para mil. As pessoas já estão aceitando os preços iniciais para arriscarem no projeto”, explica Márcio Lautert, um dos coordenadores do projeto.

O custo inicial, sem descontos, vai de aproximadamente R$ 1 mil em um painel, até R$ 50 mil em um gerador solar completo. O preço dos equipamentos para geração de energia solar vem diminuindo com o crescimento no número de fabricantes de painéis fotovoltaicos. O incentivo e a criação de projetos do tipo foram permitidos pela Resolução Normativa nº 482/2012 da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), que estabeleceu o Sistema de Compensação de Energia Elétrica para acesso de micro e minigeração distribuída no Brasil.

A potência instalada pela GD em Santa Catarina é de 5842 quilowatts e a região tem o maior índice per capita de uso de energia solar, além de ser um dos cinco estados que vão oferecer desconto no Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), para incentivar os moradores a usarem os sistemas alternativos de eletricidade.

Roberto Francisco Coelho, é formado em engenharia elétrica e foi um dos pesquisadores do Centro de Energias Renováveis (CES), da fundação CERTI e atualmente desenvolve trabalhos de pesquisa junto ao Instituto de Eletrônica de Potência (INEP), onde trabalha com o processamento de energia fotovoltaica desde 1994. O especialista comenta que a resolução normativa 482/2012 possibilitou uma mudança na produção do país. “Nós costumamos desenvolver sistemas que processam energia geradas por fontes renováveis, fazemos isso antes da 482, mas a partir dela que passamos a trabalhar mais fortemente com os inversores, que são dispositivos para fazer interface entre a fonte renovável e a rede elétrica. O Brasil recentemente começou a ter empresas que produzem esse tipo de equipamento, embora nós já dominássemos a tecnologia em laboratório”.

A microgeração, segundo Coelho, é aquela que se baseia na compensação de energia, isso funciona quando o consumidor instala na sua casa uma fonte, para se tornar autônomo e não consumir mais da concessionária. É nesses casos que entram os painéis fotovoltaicos, que agora são vendidos para o público e despontam no mercado. Para o pesquisador, o investimento se paga entre seis a oito anos, pela economia das faturas de energia elétrica.

Debate antigo

Entre os dias 26 de agosto e 4 de setembro de 2002 foi realizada no Rio de Janeiro a conferência Rio +10, ou Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável, conhecida como Earth Summit em países de língua inglesa. O objetivo principal do encontro foi discutir soluções propostas na Agenda 21 (Rio 92) e aplicá-las, de forma coerente, pelos governos e cidadãos. Dentre os assuntos debatidos, um deles era a energia, mas as conversas não avançaram. A problemática era sobre o esgotamento das reservas de combustível fóssil e o uso de fontes renováveis para substituí-las. Devido às dificuldades dos países emergentes em usarem esse método, a discussão parou em apenas citações de exemplos. Foi a primeira vez em que isso foi debatido no país. A matriz energética brasileira é baseada nas hidrelétricas, tipo de fonte que gera polêmica pelos problemas causados nas construções de usinas, como Belo Monte. O Brasil tem potencial para a produção de outras fontes renováveis, mas o território é pouco explorado, o que se busca é a diversificação das matrizes energéticas.

“A microgeração funciona por meio da compensação de energia, quando o consumidor instala uma fonte em casa”

A energia eólica é um dos tipos pouco usados no país que se encaixam no método da geração distribuída e que podem variar o cenário das fontes renováveis do país. Ela consiste em gerar eletricidade através da força dos ventos, muito comum na Europa. Segundo o Roberto Francisco Coelho, a eólica “é pouco utilizada, o país tem grandes regiões com ventos intensos que dão condições para produzir essa energia e dela extrair uma boa potência. Temos que tomar cuidado também com o tipo de ambiente onde ela será instalada, ventos turbulentos geralmente acontecem nas grandes cidades, nesse caso o uso de ventiladores eólicos não se torna favorável”. Apesar da possibilidade de se construir microgeradores, esse tipo de fonte ainda não é o principal tema da Geração Distribuída, já que se encaixam mais em produtores de maior potência, como grandes empresas. O potencial da GD é, de fato, concentrado na energia solar e nos painéis fotovoltaicos.

As fontes renováveis e sustentáveis fazem parte dos temas debatidos mundialmente para um desenvolvimento sustentável. A utilização da Geração Distribuída é um dos principais incentivos para que o Brasil, país tão atuante na matriz alternativa, avance cada vez nas pesquisas e descobertas de métodos, para que as energias sejam utilizadas de forma inteligente. Por quem as consome, produz, ou os dois ao mesmo tempo.

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