Renda não dá renda: arte de ilhéu pode estar em sua última geração

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Jun 1, 2015 · 6 min read

Peças que levam até um mês para ficarem prontas são vendidas por apenas R$ 150

Reportagem de Elva Gladis e Guilherme Pereira

Imagine um céu azulado, decorado apenas por uma revoada de pássaros e coloridos parapentes; uma lagoa com barcos pesqueiros ao fundo que parecem estar em posição ideal para um cartão postal, e do outro lado da rua, um som único, uma melodia feita com contínuas e suaves batidas de madeira. O lugar é a avenida das Rendeiras na Lagoa da Conceição, e a melodia é o entrelaçar dos bilros feito habilmente pelas senhoras artesãs para criar as tramas de renda. Antigamente, a rua era coberta de canto a canto por barraquinhas dessas artesãs, hoje não são mais de dez que trabalham com a arte dos fios entrelaçados.

Entre 1746 e 1756, a coroa de Portugal promoveu a vinda de imigrantes da Ilha dos Açores e da Ilha da Madeira para povoar o litoral de Santa Catarina. Os açorianos desembarcaram em Florianópolis e, junto com as promessas de propriedades de terra e ajuda de custos feitas pelo governo português, trouxeram suas tradições e costumes. Começou assim a construção da açorianidade catarinense: a pesca artesanal, as lendas e mitos envolvendo o místico das bruxas, sereias e lobisomens, a culinária, as danças, o pau-de-fita, e, principalmente, a renda de almofada, mais conhecida como a renda de bilro.

Toalha de mesa feita de renda de bilro pela artesã Eliane Enedina Vieira. Foto: Elva Gladis

Florianópolis é uma das cidades que reúnem as maiores concentrações de rendeiras do país, a maioria senhoras mais velhas e que não passaram a técnica da renda adiante. No início do artesanato eram aproximadamente três mil mulheres que se dedicavam à atividade, era a forma de contribuir com a economia doméstica. A mulher cuidava da casa, dos filhos e da comida,enquanto o homem saía para pescar. Quando a pesca não era suficiente, o artesanato conseguia suprir as necessidades da família por um tempo. “A minha mãe falava que a família impunha esse conhecimento mesmo elas não querendo. Era até uma forma delas conseguirem ter um dinheirinho para fazer o enxoval do casamento’’, comenta Maria Homem, 52, filha de rendeira que não aprendeu a fazer a renda, mas trabalha com o artesanato na Lagoa.

Uma das artesãs que entrelaça seus bilros na Avenida das Rendeiras há 30 anos é Elaine Enedina Vieira, 54, neta e filha de rendeiras. Com sua almofada colorida e o nome bordado em uma das extremidades, Elaine cria peças para vender e presentear suas filhas. “As minhas filhas gostam muito de renda, usam muito renda, mas elas não tem paciência, nem tempo e vocação”. Essa relação das jovens com a renda não é exclusiva da família de Elaine: o desinteresse em aprender a técnica é comum na maioria das filhas e filhos das rendeiras de hoje.

Eliane Enedina conta um pouco da sua história e como é o processo de produção da renda
Hoje as rendeiras usam xerox das tramas para fazer o artesanato. Foto: Elva Gladis

A falta de interesse dos jovens vem também da desvalorização trabalho que as artesãs têm para criar suas peças. A rendeira Dulce Luiza dos Santos, 66, aprendeu o artesanato aos seis anos de idade com sua mãe para ajudar em casa, mas aos 14 anos deixou de fazer renda por não ter o retorno que gostaria. “Você fica uma mês em uma peça para vender por 150 reais. Um mês de serviço por 150 reais, o que você vai fazer com 150? E ainda as pessoas reclamam para pagar esse valor”, questiona a rendeira.

Existem alguns programas de incentivo a cultura organizados pela prefeitura da cidade com a Fundação Franklin Cascaes. O Centro de Referência da Renda de Bilro, também conhecido como Casarão das Rendeiras na Lagoa da Conceição é um exemplo. Nas quartas e sextas-feiras, as rendeiras do bairro e de outros lugares se reúnem para trocar pontos, técnicas, e até mesmo ensinar pessoas que não tem nenhum conhecimento sobre a renda. Até o começo do ano, a prefeitura pagava para uma das senhoras ser a professora, mas hoje tudo é organizado pelos responsáveis do Casarão e as artesãs que não querem deixar de ter esse espaço.

Norma Barcelos, 70, é a rendeira mais antiga da Avenida das Rendeiras Foto: Guilherme Pereira

Entre as cinco rendeiras mais antigas que frequentam o Casarão está Maria Locurdes, 63, criando uma peça que mistura dois tipos de renda: a tradicional e a maria morena. Há 19 anos trabalhando no Casarão, suas mãos intercalam os bilros com suavidade e agilidade, e seu olhar por de trás dos óculos é concentrado, não deixa nenhum ponto passar. Mas uma pergunta faz Maria interromper a dança de bilros: “Maria, você acredita que esta é a última geração de rendeiras?”. Deixa as pequenas peças em madeira no seu colo, e tirando os óculos responde: “Última geração? Pode ser. Mas eu torço para essa geração durar muitos e muitos anos. Espero que muitos jovens, assim como você, venham interessados em conhecer, ouvir nossas histórias e, que gostem da nossa renda”. Volta o olhar para a sua peça e recomeça a dança.

A renda para a maioria das artesãs é, principalmente, uma terapia de corpo e mente. Foto: Elva Gladis

Estilista cria novo conceito para tradição

Designer moderniza renda de bilro com cores e materiais inovadores

A renda de bilro em toalhas de mesa, mantas, tapetes é algo tradicional e comum nas feirinhas feitas pelas senhoras artesãs da Ilha, mas a neta de rendeira e designer de moda, Talyta Bastos, 22, propõe uma alternativa de inovar e aproximar esse artefato tão antigo da nossa realidade contemporânea. A ideia é trabalhar a renda como matéria-prima de roupas e não como peças adicionais. Com influência familiar, sua avó sendo rendeira e seu avô um dos poucos homens a trabalhar com o artesanato, Talyta juntou sua visão de designer, as experiências dos seus antepassados e de outras rendeiras para construir uma coleção de 25 peças, das quais três foram produzidas para um desfile, a partir da renda.

As roupas são resultado do Trabalho de Conclusão de Curso de Moda da UDESC, e trazem um estilo diferente e uma renovação para a tradicional renda de bilro. “Construí um vestuário que trouxe um novo significado à renda, uma modelagem para as pessoas que pudesse cair bem no corpo. Não queria juntar vários pedaços de renda ou cortar peças prontas, a proposta era trabalhar a renda já pensando no corpo de quem a iria vesti-la”, conta Talyta.

Além do novo conceito, o trabalho também trouxe inovação nas cores. Normalmente, a renda de bilro é feita apenas com cores leves e um tipo de fio, já os modelos propostos pela designer são compostos por cores mais escuras, como o bordô, e há uma variação de fios. Mas de acordo com Talyta, a inovação só vai acontecer quando os mais jovens derem valor à renda e deixarem isso claro para as artesãs. “Elas são muito simples, elas criam aquilo que foi passado pelas avós delas. Então, você precisa sentar e propôr ideias diferentes, explicar que elas não precisam ficar sentadas no meio da rua vendendo peças já pouco usadas e sem o devido valor”.

A renda ainda não é muito explorada no mercado da moda pelo pouco conhecimento das pessoas e também pela dificuldade e falta de informação das rendeiras. Mas apesar disso, nomes como dos estilistas Ronaldo Fraga e Martha Medeiros, e trabalhos como a de Talyta Bastos tentam resgatar a renda no cenário cultural e aproximá-la dos novos consumidores através da moda. “A renda pode ser utilizada de diversas formas, é só uma questão de interlocução entre quem a produz e a moda”, acredita Talyta.

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Jornal-laboratório do curso de Jornalismo da UFSC

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