Se não Énois, quem vai ser?

Amanda Rahra ensina aos adolescentes que o jornalismo pode ir além do modelo tradicional

Por Monique Souza

“Somos uma agência escola de jornalismo para jovens de 14 a 21 anos que, a partir da sua produção independente, se transformam e impactam o mundo”. Assim se define o Énois, projeto social em que, durante dez meses, um grupo de jovens é orientado sobre como utilizar técnicas jornalísticas para a criação de produtos de comunicação, campanhas, metodologias, estratégias de distribuição de conteúdo e mobilização jovem.

Mas, ao mesmo tempo, é mais que isso. Tornou-se uma maneira de mostrar que existe vida além do jornalismo tradicional. De entender os jovens, torná-los o centro do processo e formá-los para exercer uma comunicação diferente.

A jornalista Amanda Rahra, em uma parceria com a colega de profissão Nina Weingrill, foi quem deu o pontapé inicial no Énois. Quando conheceu a Casa do Zezinho, ONG que oferece oportunidades de desenvolvimento para crianças e jovens em situação de vulnerabilidade social, foram eles que lhe apresentaram o lugar. Ela e Nina tiveram a iniciativa de produzir com essas crianças uma revista, e em 2009 surgiu a ideia de tocar o projeto.

No começo, seriam apenas cinco encontros. Hoje, sete anos depois, um trabalho conjunto cujos resultados se veem nos estudos: 70% dos jovens haviam aumentado suas notas na escola; 30% aumentaram suas médias de 5 para 10 na disciplina de Língua Portuguesa; 50% foram aprovados no Programa Universidade Para Todos (PROUNI) e cursam hoje uma faculdade.

Na seção #jáganhamos, do site do projeto, o orgulho em enumerar os prêmios conquistados pelas alunas e alunos do Énois: vencedor do prêmio Empreendedor Sustentável 2015; selecionado pela revista americana GOOD como uma das 100 iniciativas globais que ajuda a empurrar o mundo pra frente; citado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) como uma das 16 startups mais inovadoras da América Latina; membro do programa Visão de Sucesso, da empresa de empreendedorismo Endeavor; alavancada pela Edge Foundation, fundo internacional de apoio a startups de educação.

De uma oficina de cinco encontros, surgiu um curso de dez meses e uma nova ideia de jornalismo. Créditos: Reprodução / Facebook. #PraCegoVer: os alunos do projeto estão sentados no chão, sorrindo para a foto. Ao fundo, uma parede amarela cheia de fotos e o nome do projeto. Énois, em letras roxas

Um novo modo de fazer

“Para os estudantes de Jornalismo, em especial, é ‘persistam’. Se você quiser ser jornalista pela democracia, pela profissão, existe outro lugar, que requer uma persistência maior”. Esse é o conselho de Amanda Rahra para quem quer romper com as amarras do jornalismo tradicional.

Amanda é formada em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e pós-graduada em Gestão da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da USP. Créditos: Ana Cristina Machado / XV Semana Acadêmica do Jornalismo. #PraCegoVer: Amanda está sentada na grama. Ela sorri e olha para algo fora da foto. Usa uma camiseta preta, de mangas longas, com uma estampa colorida na frente.

O entendimento de Amanda a respeito do modelo tradicional de jornalismo passa pelos bastidores, pelas relações com a publicidade e com os circuitos de poder. A elite que pensa, produz e distribui: o conceito claro de concentração de mídia, tão facilmente encontrado no modo de produção jornalístico do Brasil.

Além da concentração vertical citada por ela — um único grupo que integra em sua cadeia todas as fases de produção e distribuição –, a comunicação brasileira sofre com os monopólios, oligopólios, os grandes conglomerados de mídia e a propriedade cruzada. Um reflexo da falta de representatividade causada (não apenas, mas também) pelo mercado tradicional de notícias.

“Tem muito trabalho, pouco tempo, pouca profundidade. Pouca possibilidade de opinar, de falar de discutir, pouca diversidade. Pouca grana para pagar os freelas, mas o suficiente para que todos os editores tenham celulares com contas ilimitadas”. Os jornalistas antigos, segundo Amanda, não querem abrir mão dos privilégios, e os alunos — futuros profissionais — não foram ensinados a questionar isso, a pensar de outras maneiras.

Ela aponta o simbolismo das palavras “disciplina”, para designar a divisão dos conteúdos aprendidos em sala de aula, e “grade”, significando o percurso de formação percorrido pelo estudante. São formas de enclausurar os jovens, de condicioná-los a acreditar que aquele é o único caminho para se fazer jornalismo.

“É caro, mas não precisa ser caro”, afirma Amanda. “Você não precisa ficar no Hilton. Pode ficar no Airbnb pra fazer uma investigação. Você não precisa seguir a madeira que está sendo desmatada no Rio Vermelho. Pode cruzar dados”. Ela acredita que o glamour em torno da mídia tradicional pode ser reequilibrado para que ele seja mais democrático. Como fazer isso?

Esse foi o princípio em que ela e Nina se basearam para entender quem eram os jovens de periferias — no plural, enfatiza Amanda, porque não existe uma periferia só. Chamá-los para fazer jornalismo e fazer junto, respeitar o espaço que é deles. E ensiná-los que, “se o mercado tradicional está assim, a gente vai mudar porque foi a gente que criou”.

O método de ensino aplicado por elas difere daquele utilizado nas graduações principalmente pelo formato. O tempo de duração do curso que os jovens recebem não permite que todo o conteúdo ensinado numa graduação em Jornalismo seja repassado a eles, então há uma seleção de conhecimentos. Uma edição, nas palavras de Amanda, exatamente como é feita em qualquer matéria jornalística.

Ela buscou referências em seus tempos de universidade, nas aulas dos professores que traziam o fazer, a “mão na massa”, a ideia de copiar formatos inovadores até se entender o mecanismo e fazer do próprio jeito. E, para colocar em prática essa nova forma de produzir jornalismo:

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