Tensões políticas e midiáticas dão espaço aos veículos independentes

Repórter Rafael Vilela, da Mídia Ninja, discute a atual situação do jornalismo no Brasil

Por Fernanda Struecker e Luíza Giombelli

Rafael é fotógrafo da Mídia Ninja desde a criação do grupo e cobre as manifestações políticas que acontecem no país, assim como pautas relacionadas à questões sociais como o movimento dos Sem-Teto, resistência indígena e a legalização das drogas. #PraCegoVer: Rafael Vilela está sentado, olhando para a direita. Usa uma camiseta branca escrita “grito”.

Rafael Vilela, 27 anos, é formado em Design pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), mas foram as experiências que teve além do curso que o direcionaram para seu trabalho como fotógrafo da Mídia Ninja, um dos principais veículos independentes de informação do Brasil. “Sempre fui muito próximo do jornalismo; estudei fotografia por conta própria. Então, minha compreensão do jornalismo vem um pouco da fotografia, do fotojornalismo”, diz.

Participou de grupos e movimentos sociais durante a graduação, como o Diretório Central dos Estudantes da UFSC e o Coletivo Cardume, nos quais sempre buscou dinamizar a comunicação. Até chegou a trabalhar em uma agência de publicidade, mas lembra desse período como “um mês horrível” em sua vida. Foi morar em uma casa da rede de coletivos Fora do Eixo, em São Paulo, e nunca mais saiu de lá. “Fui me envolvendo. Era um momento que já estavam pensando na proposta de uma rede de comunicação independente. E foi lá que, enfim, a gente construiu a Mídia Ninja”.

Em um país no qual a comunicação e o jornalismo são vistos com desconfiança, as fontes independente se tornam uma alternativa para quem busca informações. Jornalistas de grandes empresas se posicionarem politicamente se tornou motivo de demissão: Barbara Gancia foi demitida da Band News, por se recusar a pegar leve com Eduardo Cunha, e José Trajano demitido da ESPN, por se mostrar contrário ao impeachment da ex-presidente da República Dilma Rousseff.

Além disso, uma onda de aversão ao jornalismo parece vir de quase todos os ângulos. Jornalistas são agredidos em manifestações — perdem equipamentos, e até a visão. Em relatório da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), foram registradas 206 agressões intencionais contra jornalistas desde as manifestações de 2013, sendo 145 por parte de agentes de segurança e o restante por manifestantes.

Em uma conversa com a equipe do Zero, Rafael Vilela falou sobre a crise política, o comportamento da mídia brasileira, a participação das redes sociais nesse cenário e como é o trabalho dos Ninjas.

Pelas lentes de Rafael Vilela, a Mídia Ninja oferece a proposta de ser um contraponto e mostrar a realidade das ruas brasileiras que a mídia tradicional não está mostrando, ou muitas vezes, desmoralizando e distorcendo movimentos sociais. #PraCegoVer: várias pessoas vestindo vermelho e preto estão de braços dados em uma manifestação, formando uma corrente. Ao fundo, estão várias bandeiras vermelhas e brancas.

Zero: Como funciona a Mídia Ninja?

Rafael Vilela: A Mídia Ninja se confirma essencialmente como um veículo de base colaborativa, distribuído tanto no território quanto na gestão. Não tem a ideia de um editor-chefe. Tem editorias ligadas aos temas que importam para a nossa geração e são invisibilizados ou distorcidos pela mídia tradicional: o genocídio da juventude negra, a questão ambiental, as ondas do movimento LGBT, a legalização das drogas. Temos editores e uma galera mais orgânica, que está nas casas coletivas. Nessas casas, a o pessoal trabalha 24 horas por dia, a partir de uma dinâmica comunitária onde ninguém tem salário; todo mundo vive com um caixa coletivo. A ideia é que o colaborador possa se sentir parte do processo e que o trabalho faça sentido pra ele. Para isso, ele precisa de uma gestão muito sólida e que existam pessoas dedicadas a organizar, estimular e inspirar.

Z: Você já tinha como objetivo seguir na mídia independente?

RV: Sim, sempre tive um tesão grande por comunicação. Não tinha essa ideia do jornalismo independente porque não era uma realidade, mas tinha o sonho. A gente até brinca, todo mundo quando era mais novo na fotografia sonhava em trabalhar na National Geographic, mas nem imaginava o quão corporativo, o quão ligado ao século 20, é a estrutura de uma revista como aquela; uma mega corporação. E hoje a gente descobre que o nosso sonho é trabalhar na Mídia Ninja, é criar o nosso próprio sonho. Se você ficar esperando alguém vir te contratar para fazer o trabalho que você quer, você pode passar a vida inteira esperando. Mas você pode juntar amigos que tem um interesse comum e amanhã mesmo fazer o que sonha, independente se isso dá dinheiro ou não. Você tem um ecossistema de mídias independentes hoje no Brasil que é reflexo de um dos países com a maior concentração midiática de poder. São sete famílias que controlam praticamente tudo. Mas, e não é nem a gente que fala isso, e sim o jornalista Glen Greenwald, que falou com a gente esses dias, que o Brasil, por ter essa concentração, acabou gerando também a mídia independente mais potente do mundo.

Manifestação em Belo Horizonte em junho de 2013, contra a realização da Copa das Confederações daquele ano no Brasil. Vilela considera o protesto um dos mais violentos que já presenciou. #PraCegoVer: pessoas encapuzadas estão agachadas na rua, com um pedaço de madeira na frente e uma placa escrita “tarifa zero”.

Z: Que dificuldades a Mídia Ninja enfrenta enquanto fonte de informação independente?

RV: Acaba sempre sendo a primeira pergunta: “como que vocês vivem disso, como é que vocês pagam a conta?”. Não que isso seja uma dificuldade, porque criamos um sistema baseado em caixa coletivo. Mas é esse o desafio, como criar uma metodologia que te permite fazer aquilo na sua totalidade. Isso está muito ligado à ideia de que mídia alternativa também tem que falar para milhões de pessoas, não só para quem tem acesso ou entende. A gente entende que o grande financiador do processo é a nossa própria força de trabalho. Você coloca 20, 30 pessoas numa casa coletiva para trabalhar naquilo e elas abdicam de ter um salário em prol de um processo coletivo e de um objetivo comum. Cada um está investindo sua vida naquilo ali e isso não tem preço. O mercado nunca vai conseguir absorver esse tipo de desejo e disposição das pessoas. E no lado do crescimento eu acho que é um pouco isso de romper a bolha e falar com o desorganizado. O objetivo é chegar até a vó de alguém, que não está envolvida naquilo, mas viu e falou “poxa, tem um contraponto essa informação, não é só essa fonte”, para gerar esse questionamento nas pessoas em relação a de onde vem a informação.

Z: Como você acha que a mídia tem cumprido seu papel nesse momento politicamente instável do país? Como ela tem influenciado a população?

RV: O golpe é institucional, jurídico e midiático. A mídia é corresponsável no processo de quebra democrática que a gente viveu nesse último ciclo. Como sempre, foi um componente de desestabilização dos movimentos sociais e das pautas progressistas. O que a gente tem que dimensionar é o novo: hoje podemos criar uma rota paralela a isso. A gente teve um processo de dez, 15 anos no Brasil, onde, mesmo com um governo de intenções populares, a política de comunicação avançou muito pouco, o que fez com que a mídia tivesse o poder de derrubar um governo. É uma coisa impensável, atuação de partido político. Você tem nomes que são extremamente midiáticos, como o [João] Dória, que acaba de ser eleito em São Paulo e é conhecido como apresentador de TV, ou parte do movimento evangélico, que conseguiu crescer e se estabelecer quando entendeu que precisava de mídia e comprou a Record. Então, a ideia de que a mídia é um partido nunca foi tão concreta — a mídia está no centro do debate sobre poder, sobre direitos, sobre sociedade civil, sobre o próprio processo democrático.

A foto acima foi tirada por Vilela em 2015 durante a pior cheia da história do Acre, atingindo o rio de mesmo nome, e que deixou milhares de pessoas desabrigadas. #PraCegoVer: a foto mostra uma casa alagada com água quase até o teto. Um poste está ao lado e algumas árvores estão atrás.

Z: A Mídia Ninja sempre se posiciona politicamente. Para você, qual a importância desse posicionamento por parte dos veículos?

RV: Acho que se assumir politicamente é uma questão central para a gente e deveria ser para todos os veículos. A questão não é você ser parcial ou não: você tem que deixar nítido o seu lugar de fala, da onde vem sua opinião. A gente tem um mito da imparcialidade no Brasil, perpetuado principalmente porque a academia prepara as pessoas para o mercado de trabalho. Esse conceito isenta os veículos de serem identificados quanto grupos políticos; eles saem desse radar e as pessoas entendem o que eles publicam como realidade, têm dificuldade de interpretar. A gente não acredita de maneira nenhuma na imparcialidade. Toda opinião emitida tem um conhecimento prévio.

Z: Considerando esse posicionamento, como é a participação das pessoas nas suas páginas?

RV: Não temos medo de enfrentar, de comprar desgaste. Se temos uma opinião política formada, nós vamos defendê-la. Não somos refém do nosso público, nesse sentido. Ao mesmo tempo, nosso processo de produção de conteúdo é extremamente conectado com o público. E público entre aspas, porque acho que a dinâmica das novas mídias supera essa história de emissor e receptor. Tem momentos que o Ninja tem 40 mensagens por minuto chegando por mensagem privada no Facebook e pessoas da equipe que ficam o tempo todo atendendo esses que estão lendo o nosso trabalho. A era das redes está trazendo coisas novas e a gente tem que aproveitar isso.

O fotógrafo também realizou um ensaio em Cubatão, São Paulo, conhecida como a região mais poluída do país, retratando a realidade e a relação dos habitantes com a natureza da cidade. #PraCegoVer: a foto mostra os pés sujos de uma pessoa, em cima de uma pedra. Um dos braços está entre os pés, como se a pessoa estivesse agachada.

Z: Temos visto jornalistas sendo criticados, tanto pelos veículos em que trabalham, quanto pelo público, por assumirem suas posições políticas. Como os colaboradores da Mídia Ninja são instruídos em relação a isso?

RV: Não tem nenhum problema. O Ninja nasce dessa posição política assumida, de uma mídia que está mostrando o que ninguém está. Cada pessoa que trabalha ali tem uma opinião própria e está disputando o espaço da sua opinião, tentando convencer mais gente de que aquilo é importante. Boa parte das nossas pautas são construídas em diálogos diretos com os próprios movimentos sociais. Eles são os atores do processo; então, é deles que a gente vai escutar a opinião. Essa proximidade com os movimentos nos dá tranquilidade de entender que não estamos defendo posições do Ninja enquanto indivíduos, mas sim posições coletivas.

Z: Como você avalia a relevância da internet e das redes sociais no contexto político atual? O quanto elas ajudam ou prejudicam a cobertura?

RV: A Mídia Ninja e qualquer outro veículo de comunicação independente não existiria se não fossem as redes sociais, mesmo com todas as críticas que possamos ter em relação ao Facebook. Não tem como negar que foi a partir dessas plataformas que foi possível existir um trabalho como o que a gente faz. O que tem é a contradição, mas quem vive em um sistema capitalista e quer transformar ele numa coisa diferente tem que lidar com isso. Então, eu discordo dessa leitura de que as redes sociais emburrecem as pessoas. A questão da educação no Brasil é séria; a educação pública é muito defasada. Você acha que ela vai gerar pessoas que estão conscientes do seu tempo? Não necessariamente. E a mídia, de fato, emburrece as pessoas porque interessa a ela, aliada ao status quo político, que ninguém consiga ser questionador, crítico. Então, acho que essa questão não é das redes sociais: é uma questão da sociedade.

Z: Como você avalia a mídia brasileira no que diz respeito à cobertura de movimentos políticos?

RV: Desastrosa. Essa comunicação que eles fazem dos movimentos é sempre na tentativa de criminalizar, desmoralizar, tirar visibilidade. Por exemplo, teve uma manifestação em São Paulo contra a PEC 55 e isso apareceu muito pouco. Se fosse um ato a favor do impeachment, teria 20 minutos no Fantástico. A gente tem que ter essa dimensão de que a mídia corporativa é inteligente. Ela não deixa muitas vezes de fazer a cobertura, mas no grau de relevância que ela dá pra cada notícia é que você entende. É nos detalhes que está a manipulação da mídia. É na omissão. Não é só uma questão de “eu acho que a mídia manipula”. Não, você pode calcular o tempo, a prioridade que ela dá para cada pauta. Nas redes é a mesma coisa: quando é uma denúncia contra o Lula, fica três dias na capa. Quando é contra Aécio, Serra ou Cunha, aí não é corrupção, não é um escândalo.

Rafael Vilela fez a cobertura do Levante Popular da Juventude, em 2015. #PraCegoVer: jovens vestindo as camisetas do “Levante Popular da Juventude” gritam e pulam durante uma manifestação. Ao fundo, é possível ver uma fumaça preta.

Z: Em manifestações, como é a reação dos participantes e da polícia com a mídia?

RV: A gente é recebido de forma muito interessante nas manifestações progressistas. No nosso campo político, de defesa da democracia e dos direitos, a Mídia Ninja tem uma aceitação muito grande. As pessoas participam, querem gerar conteúdo. Já em uma manifestação de direita, falar que é da Mídia Ninja é quase uma ofensa. A esquerda tem muitas posições e o Ninja opera no sentido de dar visibilidade para a diversidade de pensamentos que existem na sociedade, entendendo que a soma deles é que vai conseguir superar a crise e começar a reconfigurar um processo político no Brasil. Sobre a polícia, várias pessoas da Mídia Ninja já foram presas por estarem transmitindo ao vivo. Em 2013 isso foi muito forte e continua acontecendo. Mas a gente entende que a visibilidade é a nossa maior defesa. Vamos nos posicionar cada vez mais e criar uma situação em que mexer com a mídia independente também seja um problema para eles.

Z: Qual momento foi o mais marcante para você fazendo coberturas para a Mídia Ninja?

RV: Tem coisas muito emocionantes, como você acompanhar um acampamento de sem-teto. Eles ocupando um terreno, montando suas próprias casas, seus barracos de lona, na esperança de que aquilo vá possibilitar ter uma casa própria e conseguir sair da ditadura do aluguel. A pauta indígena também; estar em contato com os povos originários, seja nas aldeias, na resistência deles ou na linha de frente contra os fazendeiros, aquela coisa tensa que tem cheiro de morte. Pra mim, um momento especialmente tenso que foi a cobertura da queda do Mohamed Morsi, no Egito. Em agosto de 2013, o país começou a explodir nas ruas, estimavam que quase 30 milhões de pessoas estavam nos protestos. Passei uns sete dias cobrindo as ruas do Cairo no meio de uma revolução, da derrubada de um presidente eleito, pelo próprio povo que o elegeu. Aquilo foi tenso, algo que eu nunca tinha vivenciado, noites com 50 mortos. O Egito passando por um processo de rompimento democrático; talvez, possa-se dizer que nunca teve uma democracia de fato. Lá, é terrível a perseguição às mídias. Tirar foto de polícia em uma manifestação pode significar ser preso. Além de só falar inglês, em um país que todo mundo fala árabe, eu tinha muita cara de gringo, então rolava muito preconceito. Essa cobertura foi uma coisa muito marcante pra mim.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Zero’s story.