UFSC não enviará atletas à Copa Unisinos

Universidades do Mercosul participam do campeonato, considerado o principal pelas equipes

Texto e fotos: Bruna Ritscher e Leise Silva

Duas noites por semana um grupo de meninas se junta para treinar handebol. Quase sempre está chovendo e não demora para uma delas escorregar nas poças de água que se formam na quadra do Ginásio I do Centro de Desportos da Universidade Federal Santa Catarina (UFSC). Os meninos, que já vão começando a chegar para o treino tático masculino que vem em seguida, brincam de campo minado nas arquibancadas até achar um lugar seco para sentarem — é um ginásio coberto. Essa é uma parte da realidade dos atletas da UFSC que treinam para representar a instituição em competições como os Jogos Universitários Catarinenses (JUCs) e a Copa Unisinos. O clima de desânimo fica ainda maior com a notícia que acaba de chegar: não poderão participar da competição para a qual eles treinaram o ano inteiro.

O Campeonato

A Copa Unisinos acontece todos os anos desde 1986, é organizada pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos e reúne instituições de ensino superior de todo o Mercosul para competir em mais de 10 modalidades. São quatro dias de evento nos quais as universidades competem no Campus da própria Unisinos, em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul. Na edição de 2014, o campeonato contou com a presença de delegações dos estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, e também participantes do Uruguai. Em outras edições, já houve participação de delegações do Chile e da Argentina.

A intenção é incentivar o esporte universitário e a organização esportiva no ensino superior já que poucas dessas equipes têm a oportunidade de jogar em competições de caráter nacional ou internacional. Para jogarem os Jogos Universitários Brasileiros (JUBs), por exemplo, os times precisam vencer os jogos estaduais, JUCs (Jogos Universitá- rios Catarinenses), no caso das equipes da UFSC. Os vencedores dos JUBs competem depois no Universíade, o campeonato internacional organizado pela Federação Internacional do Desporto Universitário (FISU).

A Copa Unisinos é a competição mais esperada por muitos times do Clube Universitário da UFSC, pois é a única do ano para muitos deles e por isso costumam se preparar apenas para este evento. Em 2015, a delegação da UFSC, que costuma ser uma das maiores do evento, não recebeu todas as condições financeiras necessárias para levar seus atletas e a universidade não terá representação em nenhuma das modalidades. As universidades federais do Paraná (UFPR), do Rio Grande do Sul (UFRGS), de Santa Maria (UFSM) e do Rio de Janeiro (UFRJ) competirão na Unisinos 2015 normalmente.

Verba

A Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (PRAE) afirma que recebeu um pedido de R$ 72.585,00 para bancar os custos de toda essa viagem, e que antes de haver uma resposta por parte da Administração Central, os professores treinadores das equipes decidiram por não participar da competição.

Segundo o Professor Michel Saad, Chefe da Divisão de Esportes e Lazer e professor do Centro de Desportos, não foi bem assim. Um e-mail enviado pelo Diretor do Departamento de Assuntos Estudantis, Sergio Luis Schlatter Junior, confirmava que, em virtude de dificuldades financeiras da UFSC, a PRAE arcaria com os custos da inscrição e do transporte e que o restante dos gastos seria pago pelos atletas, que seriam ressarcidos posteriormente. As equipes que quisessem competir teriam que pagar do próprio bolso a hospedagem e a alimentação nesses quatro dias de jogos — algo em torno de R$ 600 por atleta — e esperar o reembolso.

De acordo com o professor Paulo Macedo, responsável pelas equipes de basquete, a situação do reembolso não ficou bem clara e não se sabia se os alunos seriam ressarcidos integralmente e nem quando esse dinheiro seria devolvido.

“Eles não dizem nem que vão ajudar com certeza e nem que não vão ajudar, fica tudo nebuloso e depois, quando os professores decidem não ir, fica como se nós é que tivéssemos desistido por vontade própria.”

O professor Valmir Oleias, vice-presidente da Apufsc e professor do CDS, conta que foi a um congresso em São Paulo no mês de março e gastou mais ou menos R$ 800 em diárias. Segundo ele, a UFSC demorou três meses para o ressarcir e recebeu apenas R$ 500. Para ele, “fazer isso em um evento no qual são professores da universidade que viajam é uma coisa, submeter uma quantidade enorme de alunos à isso é outro esquema”.

Diante dessa situação, os professores responsáveis pelas equipes fizeram uma reunião e concordaram que dessa maneira ficaria inviável viajar para participar da competição.

Outros anos

Em 2013, os atletas ficaram alojados no campus da própria Unisinos, mas com o acidente da Boate Kiss, a fiscalização do corpo de bombeiros restringiu o número de alunos que poderiam usar este espaço para se alojar e no ano seguinte os alunos da UFSC já ficaram em um hotel. Em 2014, os 138 atletas que viajaram foram com tudo pago pela universidade: inscrição, alimentação, transporte e hospedagem. Para isso, houve a parceria entre PRAE e CDS e a liberação de mais de R$ 50.000,00 para garantir a representação.

“Eu acredito que possa ter modificações nos procedimentos burocráticos, mas deve haver soluções! Resta saber — daí eu não sei, não estou dando minha opinião sobre isso — se as pessoas querem ou não querem achar as soluções. Elas existem porque continua tendo tudo na universidade: coquetéis, formaturas, visitas de professores para palestras… De alguma forma estão pagando todas essas coisas” diz o professor Paulo Macedo

O caso Emcatur

A empresa de turismo Emcatur presta serviços à universidade e facilitou a questão de hospedagem e alimentação dos atletas na viagem de 2014. Ao serem perguntados sobre os serviços dessa empresa, todos os professores entrevistados afirmaram que foram informados que esta não prestava mais serviços à UFSC.

Segundo o Professor Luciano Lazzaris Fernandes, responsável pelas equipes de Handebol, sem os serviços da empresa, para viajar seria necessário que os próprios professores fizessem uma pesquisa de preços para apresentar à universidade e, caso os gastos passassem de oito mil reais (que seria o caso), seria necessária a abertura de um processo licitatório para a prestação desses serviços, o que complicaria ainda mais a ida dos times à competição.

Nossa equipe entrou em contato com a Emcatur e a resposta foi que o contrato da mesma com a UFSC, feito através de uma licitação para passagens terrestres, hospedagem e alimentação está vigente até fevereiro de 2016.

A resposta da PRAE quando perguntada sobre o assunto foi a de que o contrato com empresas terceirizadas não teve influência na participação da UFSC na Copa Unisinos e que os contratos que viabilizariam a participação das equipes estão em vigor.

Decepção

O capitão do time masculino de handebol, Leonardo Dalri, de 26 anos, afirma que o time estava treinando sério desde o começo do ano, fazendo treinamento físico pesado fora do horário de treino tático só para competir na Copa Unisinos. “Esses dois últimos anos a gente já não viajou para competir no JUCs com a desculpa de que iríamos ter que escolher entre um dos dois campeonatos, mas treinar por treinar não vale a pena. Essa falta de competição desmotiva o pessoal, grande parte do elenco parou de treinar e a tendência é só piorar.” Depois que os atletas souberam que não teriam apoio para viajar e que estariam fora da competição, mais da metade parou de ir aos treinos. Mateus Steiner Scaini, subcapitão do time, se pergunta:

“A gente ta treinando pra que? Se for só pra bater bola, a gente pode vir, jogar e ir embora, mas não, a gente se dedica e vem pra cá pra praticar o esporte de maneira competitiva.”

No primeiro semestre, devido ao corte de gastos, os coordenadores das modalidades optaram por não disputar o JUCs por diversos fatores: a distância da viagem, a data (era no meio das férias de inverno da UFSC, quando parte dos alunos normalmente não se encontra em Florianópolis) e o alto nível das equipes envolvidas. “Fizemos a opção pela Unisinos e, no meu entender, ao escolher entre as duas, a segunda estaria garantida” conta o professor Mário Barroso, treinador do time feminino de voleibol. “A minha equipe foi dividida e as atletas universitárias deixaram de viajar para uma outra competição em Curitiba na expectativa de ir para a Unisinos. Essa foi uma promessa que fiz para o meu grupo e eu não posso cumprir por motivos alheios a nossa vontade, agora eu tenho 12 atletas decepcionadas.”

A atleta Maria Eduarda Vieira Delgado treina handebol pela equipe feminina desde o segundo semestre de 2012, quando entrou no curso de Engenharia Sanitária e Ambiental, e ainda não conseguiu competir na Copa Unisinos. Na primeira vez lesionou-se um dia antes da viagem e na segunda vez eu não foi inscrita. “Essa era a primeira vez que eu estava treinando desde o início do ano e esperando ir. No início do ano a gente não tem nenhuma competição, a gente treinou o ano todo só pra essa e chegou agora e foi cortada. Mas é assim mesmo, é tudo meio desorganizado com o esporte aqui na UFSC, a gente treina mesmo só porque ama treinar”.

A capitã do time, Thamara Berto de Oliveira complementa: “Estávamos treinando bem forte desde o início do ano, estávamos bem preparadas e pensávamos seriamente que iríamos. Com essa greve dos servidores, já estávamos vendo o nosso sonho ir para mais longe e agora veio o baque que a universidade realmente não vai nos proporcionar a viagem. Queria deixar claro que não é por falta de vontade do handebol feminino e masculino que a gente não vai, é realmente por causa dos fundos que eles não conseguiram ou que dizem que não tem”.

Futuro

O professor Michel Saad, Chefe da Divisão de Esportes e Lazer (DEL) do Departamento de Assuntos Estudantis (DAE), argumenta que toda essa situa- ção serviu para mostrar as dificuldades que o Clube Universitário vem enfrentando para montar e treinar suas equipes. “O que falta é uma política para o esporte e é o que eu estou tentando começar lá na DEL. Primeiro a gente precisa arrumar a casa”. Esta política é necessária para que se tenha um valor financeiro disponível para a DEL tentar impulsionar as equipes e enviá-las para esse tipo de evento. “Tendo um orçamento fixo, por menor que seja, a gente sabe o que pode e o que não pode fazer. Precisamos de estrutura para melhorar a qualidade e a competitividade dos nossos times nesses eventos”, explica.

O professor Renato Moro, responsável pelas equipes de Xadrez, conta que é a primeira vez, depois de um tempo no qual se estava sendo investido dinheiro para criar uma base nos esportes, que não foi delegado recurso para isso. Segundo o professor, o esporte é um meio de socialização, de integração com outras pessoas, de adquirir disciplina e qualidade de vida e está sendo mais uma vítima de um processo no qual há muito dinheiro e pouca gestão e falta de vontade envolvidos. “É só observar a questão do espaço físico mesmo. Essas quadras do CDS, por exemplo, estão uma vergonha, qualquer um que passa por ali vê que as quadras estão abandonadas”, afirma.

Esse pensamento é coletivo: há desorganização e descaso com o esporte na UFSC e o espaço físico é um reflexo visível disso. Em dias de muita chuva, comum em Florianópolis, parte da quadra e da arquibancada do ginásio 1 ficam alagadas e impossibilitam os treinos. As bolas destinadas aos esportes já estão velhas e desgastadas, os coletes estão na mesma situação.

“Não é de hoje que a UFSC é uma vergonha tanto no gerenciamento, quanto na parte de financiamento. Tudo bem que estamos no meio de um processo de vacas magras, crise, falta de recurso, falta de políticas, falta de um monte de coisa… Mas tem que se dar prioridade à coisas essenciais, gastar dinheiro com esporte universitário não é gasto, é um investimento que se faz na qualidade de vida das pessoas, num novo foco para a vida delas e nós envolvemos muita gente nesse nosso projeto”.

Propostas das chapas que concorrem à reitoria para o esporte

A UFSC Pode Mais — Cancellier e Alacoque

Propõem criar uma Secretaria de Esportes com autonomia financeira e administrativa que resolverá todas essas demandas não contempladas por falta de recursos e pela burocracia que impede o orçamento de hospedagem e alimentação, antes realizada pela empresa Emcatur. Além disso, outras propostas de fortalecimento do esporte universitário estão desenhadas. Entre elas estão: o apoio às Atléticas; oferta de bolsa atleta; recuperação dos ambientes esporti- vos do CDS e construção de ginásios esportivos nos campi.

UFSC Mais — De Pieri e Bebeto

A chapa afirma que sua posição é de total apoio às atividades esportivas, que a PRAE deve tratar os atletas que competem e re- presentam a UFSC da mesma maneira que apoia os alunos quando participam de congressos, simpósios e viagens de estudos. Propõem, também, que haja um planejamento anual e um orçamento reser- vado para isso. Afirmam que existe uma mudança estrutural que precisa ser feita: deve-se viabilizar uma forma de recebimento de patrocínios para constituir um fundo de participação em eventos es- portivos, artísticos e culturais, e que hoje a UFSC não tem nenhum mecanismo que permita o recebimento de patrocínios ou doações. A constituição desse fundo poderá ser alimentada, inclusive, com recursos provenientes de cursos extracurriculares pagos.

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