UFSC precisa buscar outras estratégias para combater o racismo na universidade

Casos de intolerância dentro da instituição tem se tornado mais frequentes

Por Renato Botteon e Francielle Cecília

Em outubro, a sala Quilombo, utilizada por estudantes negros no Centro de Convivência para a realização de atividades étnico-culturais, apareceu pichada com ameaças racistas, homofóbicas e nazistas. #PraCegoVer: Uma parede branca com os dizeres “Zumbi vive! Vaza nazi se não te pegamos!”

Quando Francielle Cecília prestou o vestibular da UFSC em 2015, ela imaginava que as situações de racismo e humilhação que vivenciou na universidade onde estudava no interior do estado diminuiriam de forma significativa. Acreditava que o ambiente de uma instituição pública seria muito mais acolhedor e que, por isso, os preconceitos que ela testemunhava e sentia não estariam mais presentes no seu dia a dia. Não foi isso que aconteceu. Na fila do restaurante universitário ouviu “piadas” sobre seu cabelo crespo e “brincadeiras” vindas de um grupo de meninos amigos do seu namorado, um deles até perguntou se ela frequentava a roda de capoeira do bloco do Centro de Comunicação e Expressão (CCE), porque para ele todo mundo que é negro joga capoeira.

Francielle não fez denúncia na ouvidoria e talvez não tenha nem chamado a atenção do amigo do seu namorado. Ela também não deu risada da “piada”. Sofreu calada. Assim como o relato dela, a maioria das ocorrências de racismo na universidade ainda são subnotificadas, seja por medo da exposição, de sofrer assédio ou represálias ou ainda receio de gerar alguma indisposição com algum colega.

Esse tipo de comportamento de hostilidade a outra pessoa é chamado de intolerância. A psicóloga Francine Beiro explica que a pessoa intolerante tenta impor seu pensamento através da utilização da agressividade e da raiva, humilhando e coagindo o outro.

A exposição a esse tipo de preconceito traz consequências psicológicas e emocionais para quem é vítima. Ao internalizar as ofensas e hostilidades, o alvo da agressão pode desenvolver sentimentos de auto-rejeição, insatisfação com o próprio corpo, baixa autoestima, inferioridade e insegurança, por exemplo, que favorecem o comportamento de isolamento, além da ansiedade, depressão, o aparecimento de fobias e, em casos mais graves, pode até levar a estresse pós-traumático e ataques de pânico.

Para tentar combater casos de intolerância dentro da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em maio, foi criada a Secretaria de Ações Afirmativas e Diversidades (SAAD), responsável por definir e executar políticas afirmativas, focadas em questões étnico-raciais, gênero, orientação sexual, e de acessibilidade e equidade.

Racismo na universidade

Neste ano três casos de racismo ocorridos na UFSC ganharam repercussão. Em outubro, a sala Quilombo, utilizada por estudantes negros no Centro de Convivência para a realização de atividades étnico-culturais, apareceu pichada com ameaças racistas, homofóbicas e nazistas. A universidade encaminhou informações à Polícia Federal que investigou o caso, mas até a publicação desta reportagem, ninguém havia sido responsabilizado pelo ato.

Uma nova ocorrência aconteceu em novembro, mês em que se celebra o Dia da Consciência Negra. Como forma de protesto e de chamar a atenção para as pichações, um grupo de estudantes negros organizou uma manifestação batizada de virada anti-racista, evento que traria oficinas, mesas de debate e aula pública para a comunidade acadêmica. Começou com uma intervenção no Restaurante Universitário (RU) e, durante o ato, um desentendimento entre duas manifestantes e um rapaz acusado de agressão física deu início a uma confusão que só foi terminar na delegacia. Houve gritaria, ameaça, empurra-empurra, agressão. Os três envolvidos foram levados pelo Deseg para a Polícia Civil onde registraram Boletim de Ocorrência. As estudantes foram dissuadidas pela polícia a não prestarem queixa de racismo.

Um outro caso aconteceu em janeiro. Ao “questionar” a existência de um curso de licenciatura indígena em um grupo do Facebook um estudante deu início a uma enxurrada de comentários racistas. Os acadêmicos indígenas denunciaram o caso em março. Meses depois perceberam que o processo não estava no sistema e fizeram uma nova denúncia na ouvidoria, após a posse da nova gestão da Reitoria. Foi aberto um procedimento administrativo e, em pouco mais de um mês, o processo chegou nas mãos das coordenadorias dos cursos nos quais os alunos denunciados estão matriculados. Dos sete identificados e denunciados apenas um foi punido.

De acordo com as normas da UFSC, é o Colegiado do curso o responsável por decidir se abre um processo disciplinar contra o estudante ou não. “Ouvido os alunos, o Colegiado do curso entendeu que não havia nenhuma materialidade para que implicasse em ofensa grave e devolveu o processo pra mim, o outro, colegiado entendeu que o comentário que a aluna fez foi genérico, e o outro resolveu que o aluno será suspenso por 30 dias pelos comentários de cunho racista e agressivos”, explica o chefe de gabinete da Reitoria, Aureo Moraes.

“É uma questão da universidade de se colocar enquanto protagonista dessas ações e não uma mera espectadora que só atende quando a gente berra”

Francis Tourinho, responsável pela coordenação da SAAD, quer que sejam criadas políticas específicas na universidade para que assuntos de interesse do departamento possam ser tratados e resolvidos dentro da própria secretaria. Segundo ela, a resolução que regulamenta as penas disciplinares ao estudante não trata de situações que envolvam crimes cometidos dentro da universidade, como o racismo e a discriminação, por exemplo.

O objetivo é desenvolver ações para combater também o racismo institucionalizado, conceito definido pela ONG Geledés, como a incapacidade de uma instituição em prover um serviço adequado às pessoas em virtude de sua origem racial ou étnica, resultado de uma combinação de ações que mesclam estereótipos racistas, falta de atenção ou até mesmo ignorância em lidar com determinados contextos. Trata-se de um problema nacional que não afeta só a universidade. “A gente combate o racismo institucional na UFSC com políticas específicas, para minimizar ou punir o racismo. Estamos pensando em uma política de enfrentamento ao racismo, além de trabalhar com a educação e a conscientização”, explica a secretária da SAAD Francis Tourinho.

Longo percurso

Mesmo com a criação de uma secretaria específica para tratar as demandas dos movimentos negro, indígena e LGBT, a SAAD vem sofrendo diversas críticas sobre seu modo de atuação. Para Roberta Lira, ativista do coletivo Kurima — estudantes negros e negras da UFSC, a Secretaria acaba inviabilizando a luta do movimento negro na medida em que não abre espaços para o diálogo e não leva em conta o que foi construído anteriormente pelos coletivos durante as gestões passadas. “O mínimo que a secretaria deveria fazer é chamar os coletivos e movimentos negros para saber como nós queremos construir uma melhor estrutura para nós”. Guilherme dos Santos, integrante do coletivo 4P (Poder para o Povo Preto), acredita que a UFSC não tem sido cuidadosa com as questões raciais nos últimos anos e mesmo com a criação de uma secretaria específica as coisas não mudarão porque “ela atua de forma sobrecarregada”. Segundo ele, “a questão é de responsabilidade da universidade como um todo e não de uma secretaria única, só porque ela recebeu o nome de diversidade”, afirma.

Francis Tourinho diz que, sempre que procurada, recebe as demandas de coletivos internos e externos à universidade e de pessoas da comunidade acadêmica que não estão organizados em grupos. Quanto a crítica em relação a sobrecarga, justifica: “estamos criando a SAAD, instituindo normas, treinando pessoal, aprendendo as situações em que a SAAD tem que trabalhar e ainda recebendo casos de denúncia e trabalhando nos que precisam”. Francis ressalta ainda que “existe uma demanda reprimida dentro da universidade. As pessoas não sentiam que poderiam denunciar e que podiam pedir ajuda”.

José Ribeiro, presidente do Conselho Estadual das Populações Afrodescendentes (CEPA), acredita que a Reitoria deveria agir de outra forma para combater o racismo dentro da universidade. “O racismo deve estar pautado dia-a-dia”. Para ele, “todo o corpo técnico deveria estar sensibilizado, passar periodicamente por formação nas discussões das leis que envolvem crimes de racismo e estudo da cultura indígena e afro-brasileira’’. Roberta Lira concorda, e aponta que um dos caminhos é a construção coletiva de políticas afirmativas entre universidade e estudantes, pois eles “ têm um manancial de informações para acrescentar”. Para Guilherme dos Santos, “é uma questão da universidade de se colocar enquanto protagonista dessas ações e não uma mera espectadora que só atende quando a gente berra”, conclui.

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