Websérie pensada por mulheres para mulheres na UFSC

SUPER foi criada por estudantes do Curso de Cinema e conta a história de quatro meninas que descobrem ter superpoderes

Por Ana Luisa Nascentes, Daniel Bonfim e Isadora Vicente

Maria Fernanda Bin e Lara Koer foram convidadas para apresentar SUPER em Berlim. #PraCegoVer: Maria Fernanda e Lara estão em pé, abraçadas.

Cláudia, Renata, Super e Olívia são mulheres que descobrem ter super-poderes e, juntas, tentam entender melhor suas novas habilidades. É sobre elas e suas trajetórias que a micro-websérie SUPER trata. Criada por Caroline Mariga, Lara Koer, Maria Fernanda Bin e Viviane Mayumi, a produção foi lançada no Youtube no dia 21 de março e terá, ao todo, sete episódios. A ideia surgiu como Trabalho de Conclusão do Curso de Cinema da UFSC e começou a ser produzida em 2015. Com 80% da equipe formada por mulheres, a série aborda feminismo e empoderamento. Além da indicação para melhor roteiro de ação no Festival Rio WebFest, a equipe concorrerá no Festival Berlim WebFest em categoria a ser divulgada. Carol, Lara e Bin conversaram com a equipe do Zero e contaram sobre como é ser mulher no mundo do cinema e os desafios de uma produção independente.


Zero: Super é uma menina comum que acorda e descobre que tem a capacidade de se teletransportar sempre que espirra. De onde veio essa ideia?

Lara: Cara, a ideia de um espirro teletransportar surgiu porque alguém fez uma piada dizendo que às vezes a gente espirra e parece que vamos abrir o olho e estar em outro lugar. Eu achei isso muito engraçado e comecei a imaginar as situações esquisitas em que isso podia acontecer.

Bin: Era quase o primeiro episódio já.

Lara: É, eu fiquei com isso guardado e eu pensava “tá mas o que que eu vou fazer com isso? Pra onde vai essa história?”. Até que a gente se aproximou muito e a gente tava começando a se envolver com o movimento feminista e eu mostrei o roteiro para Bin e falei: “Cara, eu acho que essa descoberta de poder, que é um poder completamente aleatório, é um pouco isso que a gente tá passando, de descobrir nossos poderes no feminismo”. Inclusive, uma coisa que a gente se apropriou para criar a narrativa foi a Jornada do Herói, que é uma estrutura de roteiro para criar histórias usada desde o épico grego. A gente pensou que seria muito interessante se apropriar dessa ferramenta para fazer a “jornada da heroína”. Que não tem nada de novo nesse sentido (narrativo) mas é completamente revolucionário porque…

Bin: Porque tá tratando da história de uma mulher.


Z: Isso quanto a Super, né? E as outras personagens? Como vocês foram criando as personalidades e o super poder que cada uma ia ter dentro da trama?

Lara: Então, a ideia é discutir esses poderes de forma alegórica, em nenhum momento a gente fala exatamente o que está acontecendo, mas a gente planta uma sementinha.

Bin: É, aí é que tá, todos esses poderes e situações são coisas que as mulheres têm dentro de si e às vezes a gente se esquece, né?

Lara: É, o negócio de ler mentes está muito relacionado a ser empática com outras mulheres. É você estar no meio da rua a noite e…

Bin: …e você olhar pra trás e ver uma menina, olhar no olho dela e saber que ela ta pensando a mesma coisa que você.

Lara: Que ela também tá com medo…

Bin: Sim.

Lara: E a invisibilidade a gente acabou relacionando muito com a questão da objetificação do corpo, de você ser vista pelo seu corpo, então se você desaparecer…

Bin: Aí você pode ser vista pelas suas ideias.

Lara: Pelas suas ideias, pela sua fala…

Bin: É sobre essa vontade que a gente acaba tendo de sumir às vezes. Por causa desse olhar que muitas vezes é violento, né?

Lara: E também tem a super força da Claudia, que é uma força física. Uma mulher nunca é vista pela sua força física. E ela é a personificação disso, esse é o poder dela.


Z: A música-tema da série fala que “pra quem é menina não se ensina um super-poder”. Que super poder seria esse?

Lara: É no sentido de que você nem sabe que você pode ter um super poder, você é ensinada que você é fraca, que as únicas coisas que você vai fazer é cuidar e ficar quieta.

Bin: Meninos, desde pequenos, são influenciados a descobrir, a explorar, a se superar, e as mulheres acabam sendo superadas. Os heróis sempre são eles. É muito difícil para as mulheres se verem como super heroínas.


Z: E as super-heroínas do cinema geralmente são interpretadas por mulheres consideradas padrão de beleza e sensualidade, né? Como tomaram a decisão de não seguir esse padrão?

Lara: Super heroínas são sempre vistas como mulheres sensuais porque elas sempre são escritas por homens.

Bin: Escritas por homens, filmadas por homens e para homens.

Carol: … fotografadas por homens.

Lara: As super heroínas dos filmes que a gente vê normalmente estão alí para o prazer do olhar masculino. Super é feito de mulheres e para mulheres. Isso vai desde a forma com que elas falam, da postura que elas têm, da personalidade de cada uma, até o figurino e o enquadramento. (Em Super) A gente não vê uma escolha de enquadramento que aparece a bunda da mulher, enquanto se você vai ver um filme da Marvel tá lá a Scarlet Johanson sempre enquadrada do joelho pra cima.

Bin: Tivemos que ter um pensamento ativo para não reproduzir essas coisas também. Como enquadrar a mulher de uma forma que não seja o olhar masculino? Até a Carol pode falar melhor disso…

Carol: Por mais que sejamos mulheres, quando a gente vai tentar fazer alguma coisa diferente, a gente ainda tem o olhar muito viciado porque todo o audiovisual que a gente consumiu até hoje foi feito por homens. Então, a cada segundo, a gente tem que perceber: “ó, isso aqui que eu to fazendo eu to reproduzindo o machismo de novo”. Era cada minuto, era realmente um pensamento ativo como se tivesse…

Bin: Se reeducando. Tentamos fazer aquilo que a gente queria consumir quando nós éramos o nosso público-alvo, que são gurias mais novas, de 13 a 17 anos. Queríamos mostrar como essas meninas se veem também. Que não é dessa forma sexualizada que sempre vemos.


Z: E de que outras maneiras o machismo aparece no mundo do cinema?

Bin: Vai desde uma questão mais básica, de você ter uma dificuldade de achar mulheres em certas funções, como maquinário ou elétrico, até dinâmicas de set mesmo. O cinema é uma coisa muito hierárquica.

Carol: Geralmente o diretor é o “gênio”, e o resto das pessoas estão alí para fazer os desejos dele. Isso vai se reproduzindo dentro de cada equipe e acaba se tornando um ambiente opressor.

Bin: É aquela coisa que a gente escuta de todas as profissões. O que a gente vê é que homens têm muita dificuldade de ouvir as ideias de mulheres, né? E até os homens que se dizem “desconstruídos” às vezes só fingem que escutam. É ser constantemente questionada. Ser desrespeitada não só intelectualmente, mas também fisicamente com piadas e cantadas. Quantas meninas não passam calor em set porque vão toda cobertas para não dar brecha pra assédio, né?


Z: É diferente trabalhar em um ambiente em que a maioria é mulher? Como foi a experiência?

Lara: Foi uma experiência de muito diálogo e muito respeito. Como a série discute justamente um tema feminista, todo mundo dialogou sobre isso. A gente construiu relações para além do set e trocou vivências com mulheres que vieram de vários lugares e estavam em diferentes momentos da vida.

Bin: Foi maravilhoso. A gente sabe como o processo de produção funciona normalmente e tentamos fazer de outro jeito. Quando a gente fala de set, é 80% masculino. Ninguém questiona isso. Eu já participei de vários projetos em que a única mulher do set era eu. O resto era homem.

Carol: Geralmente, trabalhamos com papel de produção e a galera associa com papel de mãe. Vendo a mulher como aquela que cuida das outras pessoas e não como uma profissional.

Bin: Com a SUPER não tinha essa de ideia de responder a uma chefia. É claro que precisa de pessoas para coordenar, mas toda a equipe trabalha em prol do projeto e acreditando no que estamos fazendo.

Carol: A gente não chegou a quebrar o papel que cada um desempenha no set, porque esse é um modelo que funciona para a “dança do set”. Você tem aquele dinheiro para gravar naquele dia, naquela locação, e tudo precisa ser feito muito rápido, com cada um centrado na sua função e afinado com a proposta para executar o projeto da melhor forma possível.

O superpoder de cada personagem faz referência à pautas do movimento feminista. #PraCegoVer: Quatro meninas caminham juntas pela rua, rindo.

Z: Além da equipe ser formada em maioria por mulheres, muitos dos homens que participaram são gays…

Lara: São os homens com quem a gente conseguia dialogar de alguma forma. Porque o homem que entrasse na equipe precisava estar disposto a baixar a bola e saber a hora de escutar.


Z: Não é fácil fazer cinema independente. Quais foram as principais dificuldades?

Carol: A gente não foi no tudo pela arte. Muitas vezes não pegamos a melhor câmera para alimentar melhor a equipe e, assim, foi a melhor comida de set da vida (risos).

Bin: Todo mundo é voluntário. Começou com o nosso TCC, mas virou mais que isso. É claro que a gente queria um produto de qualidade e que rendesse. Na hora de colocar na balança pesou mais que a experiência fosse boa para todo mundo. São escolhas. Boas condições de trabalho para a equipe transparece no resultado final. As pessoas não estavam ali pela gente, elas estavam ali porque elas gostavam do projeto, gostavam da ideia e acreditavam que o talento e o tempo delas estavam sendo bem aproveitados. Essa era nossa maior preocupação. Contamos com o apoio da universidade. Agora o curso já está bem melhor, mas na época que a gente gravou, não tinha tanta estrutura assim. Então, a gente precisou alugar. Foi também “chorando” bastante, explicando que era produção universitária. Isso tivemos que bancar.


Z: Por que vocês optaram por contar essa história no modelo de websérie no youtube? Como vocês acham que a internet está afetando o mundo das produções audiovisuais?

Lara: Como o nosso público-alvo são meninas jovens e queríamos que chegasse no maior número de meninas, o Youtube foi a primeira resposta. Além disso, a gente sabia que não teria dinheiro para produzir muitos minutos de filmagem. A gente brinca que, se fosse um hambúrguer, seria só a carne, um tweet audiovisual. Então é legal experimentar isso, sabe? É um risco. A gente está vendo se vai colar ou não. O mercado visual brasileiro e a distribuição são extremamente centralizados em uma rede de pessoas que têm interesses próprios. Na internet não tem isso.

Bin: Dentro das nossas possibilidades, era a melhor forma de atingir o maior número de lugares. E ter um produto de fácil acesso vai desde distribuir na internet, até pensar em acessibilidade. Vimos que precisávamos fazer versões em libras e com audiodescrição. Quando todos os episódios forem lançados, vamos liberar as versões acessíveis para que a nossa prática esteja alinhada a nossa proposta.

Lara: Outra vantagem de lançar na internet é que a TV nem sempre acompanha o nosso discurso. A internet permite ter um conteúdo que de repente, não vai atingir milhões de pessoas, mas vai chegar nas verdadeiras consumidoras.


Z: Vocês tem alguma história engraçada, alguma coisa divertida de bastidores para nos contar?

Bin: Divertida não (risos), mas coisas desesperadoras que agora a gente ri.

Lara: A Carol entrou no projeto porque a gente estava procurando uma diretora de fotografia. Ela estava fazendo intercâmbio na Bélgica quando a gente mandou uma mensagem perguntando se ela voltaria do intercâmbio em agosto (de 2015), explicando o projeto e pedindo uma indicação de outra menina pra fazer a direção de fotografia caso ela não pudesse. Mandamos o roteiro e ela só respondeu “e se eu comprar a passagem pra tal dia, seria bom?”.

Bin: Em uma das gravações, a gente tinha dois dias pra gravar na locação da casa da Olívia. No primeiro dia, depois do almoço, a Celesc resolveu trocar os postes da rua.

Carol: O detalhe é que isso levava cinco horas. E a gente dependia da luz do sol pra gravar.

Bin: Não dava para carregar as baterias, para ligar as luzes… nada! Mas no fim deu tudo certo, e deu tudo certo porque todo mundo alí estava a fim de resolver. Sentamos todos juntos e tentamos achar uma solução em equipe.

Lara: Também aconteceu de algumas crianças estarem brincando na quadra do prédio, e a gente pedir pra fazerem silêncio porque estávamos gravando e eles perguntarem “é pra Globo?”, e a gente “é, é pra Globo sim!”. Deu certo, eles ficaram bem quietinhos, pediram para filmarem eles, a gente filmou. (risos)

Carol: Também teve um dia que a gente foi gravar em um bar e usaríamos uma parede que tinha uns grafites maravilhosos. Era perfeito. Mas quando fomos gravar, chegamos no bar e eles tinham pintado a parede de branco.

Lara: Tivemos que repensar tudo, mas ficou a nossa melhor cena. É o meu episódio favorito.


Z: E agora, segunda temporada? O que vocês querem pro futuro?

Lara: A gente quer, sim, uma segunda temporada. Temos o projeto de fazer uma segunda temporada com esse mesmo tipo de formato, episódios curtos para o youtube. Ou vender para o netflix, por exemplo. Estamos esperando e nos planejando. Podíamos fazer a Super para o resto da vida, história para isso tem. Quando as pessoas virem o último episódio (da primeira temporada), ficarão com aquela dúvida “o que será que vai acontecer?”.

Bin: São episódios seriados, mas que, juntos, funcionam como piloto para uma série com episódios maiores de 20 minutos.


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