Xenofobia ergue muro entre nativos e migrantes enquanto acirra segregação cultural

De um lado, o isolamento de quem vem de fora. Do outro, falta de estrutura. Quem está certo?

“Volta para tua terra, nordestino filho da puta!”
“Não vou nem te mostrar esses álbuns. Tu não é daqui, não vai entender a história dos manezinhos”.
“Não é pra vir… Pronto! Vão lotar outra cidade. Chega! Nós não temos turismo aqui, temos simplicidade e queremos uma vida simples, como manezinhos que somos”.

Essas frases foram encontradas em postagens nas redes sociais, foram ouvidas por pelas pessoas entrevistadas para essa matéria e até mesmo pelas que estão redigindo esse texto. Apesar disso, em 2013, a publicação de turismo americana Condé Nast Traveler elegeu Florianópolis a cidade mais amigável do mundo. Em um trecho do texto publicado no site da revista, o repórter destaca a beleza natural da cidade e a simpatia de seus moradores nativos, caracterizados como “amigáveis e extrovertidos”.

Fora das páginas da revista, as coisas não funcionam sempre assim. Não é dificil encontrar nas redes sociais comentários que culpabilizam os turistas pelos problemas de abastecimento de água e energia elétrica que Florianópolis costuma enfrentar durante a alta temporada, quando cerca de 2,4 milhões pessoas visitam a cidade e a região. Outras reclamações dizem respeito ao aumento do fluxo de carros, que dificulta a mobilidade, principalmente nos trechos que levam até os pontos turísticos, além da quantidade de lixo jogada nas praias.

E se a relação de alguns manezinhos com os turistas não é amistosa, as coisas se agravam um pouco mais com relação às pessoas que vêm morar em Florianópolis. Colado à traseira de alguns carros, o adesivo “Seja bem-vindo, mas não se esqueça de ir embora” explicita a pouca receptividade que Filipe Bezerra, estudante pernambucano que transferiu seu curso de Agronomia da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) para a UFSC há um ano e meio, diz ter percebido durante seu processo de adaptação na cidade. “Já escutei vários comentários preconceituosos, de perder a conta. A maioria diz que é brincadeira, mas alguns falam muito sério a respeito da minha naturalidade. Em festas, já me disseram pra voltar pra minha terra, porque aqui é lugar de manezinho”.

“Em festas já me disseram para voltar para a minha terra, porque aqui é lugar de manezinho”

Andando pela cidade, pode-se ver gravado nos muros palavras de ódio contra os “forasteiros”. O “Fora Haole” — termo que os havaianos utilizavam para designar os que não eram nativos das praias onde surfavam — é o registro mais comum. Chegou a ser chamado de movimento no início dos anos 2000, quando invadiu comunidades da rede social Orkut para espalhar o ódio pelos migrantes e imigrantes que chegavam à cidade. “O verão ta ai, hein? E a haolezada também… vamo acabar com isso, porra!”, dizia um dos tópicos criados na comunidade. O estudante da UFSC Davi Scherer é sueco, filho de mãe etíope e pai manezinho, e veio morar na ilha ainda pequeno. Ele ironiza a escolha de um termo estrangeiro em uma representação de xenofobia e reforça que “Florianópolis é uma cidade muito bairrista. Mesmo que grande parte da população seja de fora, quem é ‘daqui’ se sente no direito de tomar o lugar como seu, e isso vai consequentemente implicar em uma deslegitimação do outro”.

De acordo com dados do último Censo Demográfico do IBGE, publicado em 2010, cerca de 52% da população que reside em Florianópolis não é natural da cidade. Desse total, 30% não é nem mesmo de Santa Catarina. O pesquisador de fluxos migratórios Luís Felipe Aires ressalta o fato de Florianópolis ser uma cidade eminentemente imigrante como um fator agravante da xenofobia: “Em Florianópolis a vigência do projeto elitista de cidade associou de forma muito clara o imigrante ao invasor, geralmente identificado como pobre e, mais atualmente, como nordestino. Na região da Grande Florianópolis existem espaços para ricos e espaços para pobres. Há uma segregação socio-espacial muito forte”.

Mas a intolerância não se resume ao silêncio do dia a dia ou a manifestações mudas em muros ou na traseira de carros. Um caso que marcou a estadia de Filipe Bezerra em Florianópolis ocorreu enquanto estava no centro da cidade e foi parado para revista por dois policiais. Ao verem em seu documento que era natural de Recife, o estudante de agronomia disse que ouviu comentários grosseiros a respeito de sua naturalidade: “Esse puto vem do nordeste pra atrapalhar nosso serviço aqui. Volta pra tua terra, nordestino filho da puta. Disseram isso enquanto me chutavam. Acho que esse foi o pior momento que passei aqui no que diz respeito à xenofobia”.

“A Prefeitura não investe na cidade, maqueia a realidade para vender a ideia de que aqui é perfeito”

E quais são os impactos que esse ódio causa? Isolamento e segregação. “As potencialidades de intercâmbio cultural ficam restringidas, e predomina uma consciência provinciana, muito limitada, da realidade. Percebe-se, então, que a produção ideológica de associar o imigrante ao encarecimento do valor da terra, ao desemprego e a uma série de problemas sociais surtiu efeito: ela conseguiu colocar trabalhador nativo contra trabalhador migrante”, afirma Luís Felipe Aires. A estudante mexicana Vane González veio para a UFSC no começo desse semestre para estudar Relações Internacionais e seu cotidiano ilustra um pouco desse isolamento. Ela afirma não ter muito contato com os colegas de faculdade, porque eles não sabem se ela fala ou não português. “Não me sinto parte de nenhum grupo, porque todos já têm um… Eles já se conhecem há muito tempo como em todas as escolas, então tento falar com as pessoas e me adaptar”.

Do outro lado do muro de intolerância, os manezinhos dizem se defender da arrogância dos migrantes, principalmente dos paulistas e gaúchos, e do fato de, dia após dia, verem sua cultura confinada em espaços cada vez menores da cidade. O manezinho Heverton Queiroz ressaltou bastante a prepotência dos migrantes: “Na grande maioria eles atrapalham sim. Atrapalham quando se metem na nossa cultura. Atrapalham quando se acham cheios de razão, comparando suas cidades natal com a nossa cidade. Turistas atrapalham também: quando chega verão, infelizmente, nossa cidade vira uma cidade sem lei”. A Polícia Civil registrou 64 mil boletins de ocorrência e formalizou mais de 2,5 mil prisões e apreensões durante a Operação Veraneio desse ano, que ocorreu em Florianópolis e mais 45 cidades do estado.

Milieli Maria da Lapa não coloca a culpa nos migrantes, mas deixa claro que a Prefeitura deve tomar providências para evitar que a superlotação impeça que novos migrantes e imigrantes cheguem a Florianópolis nos próximos anos. “O único problema é que a nossa cidade não tem uma boa infraestrutura. Para nós que moramos na praia o ruim é o trânsito. Se o transporte público melhorasse, a frota de carros nas ruas diminuiria e isso talvez ajudasse a resolver o problema”. De acordo com dados da Polícia Militar Rodoviária Estadual, o número de carros em Florianópolis cresceu cerca de 30% na época da virada do ano de 2014 para 2015. Nesse período, o perfil do twitter “Trânsito 24 horas” registr ou filas de até 15 quilômetros de extensão, que se estendiam do Pântano do Sul até o trevo do Rio Tavares, no sul da ilha.

O argumento mais comumente divulgado entre os que culpabilizam migrantes e imigrantes é o aumento da competitividade e a diminuição nas vagas de trabalho para os nativos. Para o manezinho Eder Augusto Petersen, isso não é problema. O problema é preguiça: “Existe emprego e oportunidades para todos, só acho que tinha que ser feito um levantamento para ver se os migrantes e imigrantes querem realmente trabalhar, estudar e acrescentar algo de bom à nossa cidade. Ela está crescendo desordenadamente, isso gera muitos transtornos pra quem mora aqui. Outro problema é que a Prefeitura não investe em mobilidade, saneamento, educação e seguranca, maqueiam a realidade para vender a ideia de que aqui tudo é perfeito”.

Nenhum entrevistado concordou com o título de cidade mais amigável do mundo dado a Florianópolis

Luís Felipe Aires concorda com o fato de que se tenta vender cada vez mais a ideia de uma Florianópolis perfeita, com estrutura adequada a receber quantos turistas se dispuserem a vir e um povo amigável que aceita o outro como irmão, independente de origem e objetivo. O problema é que, depois que acaba o verão e a propaganda, o migrante que decide tentar a vida por aqui é estigmatizado. “A produção de Florianópolis como uma cidade-mercadoria, vendida em anúncios e reportagens de revistas de turismo, produz fatores de atração para turistas e imigrantes, mas a ideologia dominante na cidade os diferencia, associando o turista a uma fonte de divisas e o imigrante à raiz dos problemas sociais. A exaltação do turista se encerra com o fim do verão, quando retoma a associação do imigrante às contradições urbanas e sociais da cidade”.

Nenhum dos migrantes e imigrantes entrevistados concordou com o título de cidade mais amigável do mundo que a Condé Nast Traveler deu a Florianópolis. Amigável, segundo Davi, só se for para os turistas ricos, dispostos a gastar nos shoppings e capazes de aproveitar o melhor da estrutura luxuosa que a cidade oferece a quem pode pagar. Impiedosa, segundo Filipe, com os migrantes nordestinos que vêm para cá trabalhar na construção civil e tem de se apinhar nos morros na periferia da cidade. Apesar de tudo isso, no entanto, todos são categóricos ao afirmar que existem sim muitos manezinhos que se interessam e respeitam a cultura estrangeira. Talvez, como disse Filipe, o importante seja se agarrar a isso e lutar para que as coisas melhorem: “Florianópolis é uma cidade muito bonita: tem suas belezas naturais, sua cultura e um povo tranquilo, mas que assim como o Brasil todo tem preconceito. E é isso que precisa mudar. Sei que várias pessoas gostam de mim, gostam de nós, do nosso sotaque e da nossa cultura. Espero que cada dia seja mais assim, em Florianópolis e em todos os lugares do país”

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