A Pior Forma de Conhecê-lo

ou a história da menina que não foi àquele casamento

Copyright: Moustafa Kzayh

Foi naquela praça em frente àquele chafariz.

Esse é o tipo de história que você conta aos filhos, você pensou. É meio fofa. Você sempre quis conhecer alguém num lugar assim, ao ar livre, olhando pra água dançando no ar. Você pode vê-lo se aproximando por aquela parte embaçada da visão de canto, se assustou quando ouviu a voz dele perguntando “Ei, já não te vi em algum lugar antes?”. Ele parecia sincero, confiante com um sorriso de canto na boca, aquela expressão de quem sempre tem uma piada interna que ninguém mais conhece.

Você não se lembra exatamente — pois algumas lembranças dele sempre são meio enevoadas — mas respondeu “Talvez”. É uma mentira doce de se ouvir saindo da própria boca. Você gosta dele. A forma como ele te olha é contemplativa e ao mesmo tempo como se ele tivesse questionando o seus mistérios, os seus problemas. Ele quer descobrir. Você é um animal selvagem e ele não quer te domar, ele quer te sentir, brincar com você.

“Acho que te vi em um casamento”, ele diz. “Você estava sentada na minha frente, usando um vestido laranja com um decote na parte de trás. Eu acho que passei o tempo todo olhando pro seu pescoço, você tem um pescoço bonito”. Ele sorri, ele sabe que foi algo diferente isso que ele falou, mas ele não fala, ele sabe que você notou. Ele sabe até que você está pensando nisso. Ele sabe que está dando certo.

Mas você não foi em nenhum casamento nos últimos dois anos. “Acho que sim”, você diz. “Gosto de Laranja”.

Ele balança a cabeça afirmativamente. “Eu sei”.

Um idiota se aproxima de uma mulher numa praça pública. Poderia ser um filme idiota, ou um dia comum qualquer. Mas não foi isso que aconteceu. Não mesmo. Você está se divertindo. Ele pede seu número. Você o dá. Ele sabia que você iria fazer isso.


O primeiro encontro foi assim. Ele sugeriu te buscar em casa. Você achou melhor não, mas gostou dele ter se oferecido. Vocês foram num restaurante chamado Old West.

Ele pediu uma Tequila Sunrise dizendo “Você tem que experimentar, é muito bom, eu garanto.”

“Eu gosto de cerveja”, você diz.

“Por favor, só uma. Por mim?”

Ele pediu Camarões com Catupiry, você pediu Tortilla, mas quando ambos os pratos chegaram, você gostou muito mais do dele. Ficou olhando pelo canto do olho os camarões. Quando ele notou, imediatamente lhe ofereceu, você disse que não.

“Vamos lá, eu sei que você quer”, ele disse.

Ele pega com o garfo e coloca alguns camarões no seu prato, pega um limão e espreme com a calma e delicadeza de quem sabe o que está fazendo. Você não sabe na hora o porquê, mas ficou encantada. São os melhores camarões que já comeu na vida acompanhadas por uma Tequila muito boa.

Na volta, ele lhe oferece carona, dessa vez você aceita. Ele dirige rápido, mas seguro. A música você nunca ouviu, mas é boa, ele tem bom gosto. Você pergunta no que ele trabalha. “Músico”, ele diz. Você se surpreende. Imaginou que ele era advogado, empresário, talvez médico. É esse o tipo de confiança que ele tem, você pensa melhor e percebe que se precisa de coragem pra ser músico também.

“Você ama o que faz”, você diz.

“Sim, dá pra perceber, né?”.

“Sim”, você olha pra ele e tanta imitar o sorriso que ele faz. “Eu sei”. No sorriso dele você nota que ele percebeu a referência.


O beijo foi assim.

Ele não tentou abrir a porta do carro pra você, você gosta disso. Você vai andando meio apressada rumo ao portão, mas ele fala baixo e calmamente, Espera. Você vira e ele já está muito próximo. Coloca a mão na sua cintura e te beija. Ele sabe o que tá fazendo. Quando vocês terminam, você pergunta “Você é sempre tão mau assim?”. Ele responde sorrindo com aquele sorriso que já virou só dele, “eu gosto de ser mau aqui para chegar em casa e ser bom garoto”.


As próximas semanas são assim. Depois do trabalho, na sua casa ou na dele — não importa — Vocês escutam música, a música dele, jantam, dançam aquela dança que inventaram só para vocês, depois dormem. Toda a noite.

Vocês discutem bastante. O tipo da discussão boa, é legal. Vocês discutem qual cd do Arctic Monkeys é o melhor. Ele diz que é o Humbug, óbvio, ele é músico, você diz que é o AM. Você gosta de terror e suspense, ele gosta de comédia e policial. Vocês passam a noite toda vendo filmes indies.

Ele descobre que você ronca. Um ronco leve e pequeno. Segundo ele, isso o acalma. Ele provoca: “Nunca pensei que me apaixonaria por alguém que ronca”. Você bate nele com o travesseiro. Mas ele fica sério: “Nunca pensei que seria cativante isso, ouvir sua respiração. Amo saber que está respirando, que você está bem”.


Com seus amigos você diz. “Já comeram algo que, de fato, te deixa com mais fome? Algo que é muito bom, mas que não te deixa saciado?”.

Seu amigo diz: “Garçom, traz mais uma rodada aqui que tamo precisando”.


Nos dias que você não irá vê-lo, você não se importa com o que veste, o quão bonita você está. As horas gastas se arrumando para o trabalho, escolhendo a maquiagem, as horas no banheiro, o sapato perfeito, são gastas deitadas na cama olhando pro lugar onde ele estava na noite anterior.

Se ele não está, não tem ninguém pra impressionar.


Vocês saíram pra comprar taças para aquele aniversário da sua tia chata.

“Como alguém pode gostar tanto de taças?” Ele pergunta depois de colocar a mão dele na sua cintura e te puxar pra mais perto.

“Como alguém pode não gostar de taças?” Você segura uma taça para vinho especialmente delicada na mão e diz: “Uma taça é algo muito importante, ela dá forma sem colorir, sem interferir. Ela lhe entrega, lhe dá a bebida sem alterar o seu conteúdo”.

“Nunca pensei nisso. Verdade, bem bonito”. Ele diz sorrindo enquanto segurava outra taça.

Na saída da loja, você vê uma cadeira bonita, se aproxima e diz “sempre quis uma cadeira dessa, colocar no quintal de uma chácara no interior, olhar pro por do sol entre o pomar”.

“Nossa chácara?” ele diz e você sente alguma coisa esquentar ali por dentro.

“Nosso quintal… Poderíamos ter um cachorro”

“Uma caixa de correio bonita”

“Uma lareira”

“Fogão a lenha”

“Um bebê, um bebê”, ele sorri e coloca a mão por cima da sua barriga. “Uma vida perfeita essa”.

“Perfeita”, você repete. “Consegue imaginar?”

Ele consente. “Consigo. Consigo”


Você pergunta sobre a família dele. Ele não diz muito. “Não nos falamos muito, foi complicado”, ele fala nessa linguagem vago-específica. Você não o pressiona, mas olha pra ele no fundo dos olhos, ele lê seus pensamentos, morde seu ombro e fala.

“Eu tinha 5” ele diz com a boca bem próxima de você. “A primeira vez que me fizeram ficar de joelho em cima das tampinhas de refrigerante”.

“Por quê?”

“Eu estava brincando com as crianças da rua e me machuquei, elas não eram legais, segundo eles. Punição, tinha muita punição. E eram sempre coisas relacionadas. Um copo quebrado, sem leite por uma semana. Se brigasse com seu irmão, eles nos deixavam ambos nus, faziam que a gente se abraçasse e nos batiam com a cinta.”

Como se fosse o assunto mais normal, ele pergunta imediatamente após “Vou tocar numa escola essa semana, quer ir assistir? As crianças vão te adorar” Você não sabe o que dizer.

“Sim”

Você sabe que ele não quer ser abraçado. Ele não quer confrontar a própria dor. Você não fala nada, deixa que ele lhe abrace. Você está feliz que ele não pode ver seu rosto, porque ele iria te ver chorando.


Vocês estão jogando videogame na casa de uns amigos. Você gosta dos amigos dele. Tem o João, que gosta de falar bastante. Tem a Ana, que é particularmente inteligente. E tem o Miller que aparenta ser bem sensível.

João pergunta “Como vocês se conheceram?” com a boca cheia de pipoca.

“Eu a conheci num casamento, ela estava sent-”

Você hesita. O interrompe.

“Não, amor”, você diz devagar. “Nós nos conhecemos na praça, enfrente ao chafariz”.

“Não”, ele fala sério. “Foi no casamento, lembra? Dois meses antes. Você estava vestindo o vestido laranja”.

“Não era eu”, você fala apressada. “Eu queria ter lhe dito antes. É impossível, eu não vou a nenhum casamento em um ano”

“Você tem certeza?”

“Sim. Casamentos são inesquecíveis.”

“Por que não disse nada antes?

Os amigos deles estão assistindo isso apreensivos.

João diz que não importa. Ana concorda “Praças são lugares melhores de se conhecer, elas provavelmente sempre estarão lá, já casamentos…”

Ele diz “Não”, se levanta. “ Quero dizer, sim, não importa realmente, acho que é só a forma como eu me lembrava” e se dirigi à cozinha.


“É que você ronca” ele responde depois de você perguntar pra ele o porquê ele não estava na cama quando você acordou.

“Pensei que você gostasse” você diz. “Claro que gosto, mas às vezes não consigo dormir”. Parece uma acusação. Você fica quieta.

“Será que devo ir a um médico? Se isso te incomoda, né? Quero dizer, ao longo do tempo…” A frase vai se dissipando no ar. O clima se enche de desconforto, invisível aos olhos, óbvio ao toque no seu frio congelante.

“Não” ele diz enquanto come cheetos. Você nunca gostou… aquele cheiro estúpido, mas ele gosta. “Quero dizer, não tem problema eu dormir no outro quarto às vezes, né?”


Chega um convite de casamento. Você fica empolgada.

“Posso levar um acompanhante!” você fala pra ele. “Talvez eu compre um vestido igual àquele que você disse. Não seria legal? Eu poderia ser aquela garota com o vestido laranja decotado pelo menos uma vez. E vai ser no feriado, nossa primeira viagem juntos — e vai ser numa chácara!”

“Ok” ele diz. “Mas por que isso é tão importante?”

“Lembra? Nossa chácara e um cachorro e um bebê e fogão à lenha. A vida perfeita, lembra?” Você fala rápido na esperança que da mesma forma que você relembra disso com empolgação, ele relembre também.

Ele já está, entretanto, lendo algo num livro dele. E ele faz aquela expressão seria que você tanto ama. Responde “Hmm”. A conversa acabou.

Não importa. Você diz a si mesma. Você deixa o convite na mesa dele, dá um beijo na bochecha e vai embora. Em três ou quatro semanas você está esperando na rodoviária. A previsão do tempo diz chuva, mas você está feliz. Você olha sua mala por cima. Dentro está o vestido laranja com decote que você comprou pra fazer uma surpresa.

Ele está atrasado. Ele disse que chegaria as oito e meia, são nove. O ônibus sai as nove e meia. Você olha seu relógio de novo, seu telefone. Você liga. Caixa. Você manda mensagem.

Morreu. Ele sempre dirigiu rápido demais. Imagine ele no asfalto, suas sobrancelhas perfeitas, o sangue se misturando com a água. Você estremece. Olha seu telefone de novo.

Assim que o ônibus começa a viagem, o celular apita. Nova mensagem. Você não pode olhar agora, você está arrumando as malas, tem passageiros na fila. Você imagina o que ele disse: “Me desculpe, amor. Estou atrasado, carro quebrou. Eu vou de avião.”

A mensagem diz, na verdade, “Me desculpe”.


Você pensa, por que sexo é a definição de estar próximo de alguém?

Você não come nada e depois come tudo que está na geladeira. Você repassa as últimas semanas de conversa, tudo que aconteceu e tenta imaginar o que fez de errado. Como um detetive investiga a cena do crime, você é a cena do crime. É irônico, você ri, duas pessoas que adoravam discutir terminam um relacionamento sem argumento nenhum.

Você pede ferias. 4 semanas. Você está louca. Você dá a louca. Fica bêbada. Três da tarde e você começa a beber. Tequila Sunrise… Meu cu. Vodka. Você dorme. O prazer se transformou em dor. Os pensamentos são como peixes na piracema lutando contra a correnteza do rio. Lutar contra a corrente de pensamentos machuca mais do que a dor criada pela bagunça que são suas emoções.

Seu corpo se recusa a cuidar de tudo. Os sentimentos são como ondas, vem e vão. As vezes é alto mar, tempestade, as vezes é praia. A praia é legal. Vazia. Mas não é onde você costuma ficar.

Seus amigos vem te ver.

As vezes você fala: Eu odiava ele. Como ele estava sempre certo. Aquela presunção. O modo como ele estava sempre certo. Eu odiava como ele era emocionalmente distante às vezes. Mas o que eu mais odeio foi essa imagem de futuro que nós criamos e ele destruiu com violência que se rouba uma criança da mãe.

As vezes você fala: Eu amava ele. Como ele sabia o que estava fazendo. A confiança. O modo como ele me ensinava as coisas. O seu otimismo. A forma como ele era paciente. Como ele era na cama. Eu amava ele.

Você quebra todas as taças da sua casa. Você passa com pressa pela praça do chafariz. Você se lembra de como no final ele não conseguia olhar pra você por no máximo 20 segundos. É o máximo de atenção que você conseguia.

Uma noite você fica mais bêbada que o normal e vai na porta daquele restaurante oeste alguma coisa. Joga um tijolo na porta de entrada. 4 da manhã. Os alarmes disparam. Você corre. Você se sente suja, não é mais você mesma.

No dia seguinte você vai ao restaurante e lhes dá o dinheiro para consertar o vidro. Os olhos do dono não estão bravos, eles estão cheios de pena.

Como eu fui burra, como eu não pude sentir ele viajando para longe de mim enquanto dormia? Mas o que eu poderia fazer? Não se pode fazer casas em seres humanos. Você é atormentada o tempo todo por esses pensamentos.


Você está no futuro, você nunca achou que conseguiria chegar nesse lugar. Quanto tempo passou? Seis meses? Um ano? Quem se importa? A maioria do tempo foi tudo uma grande neblina. Você chegou a vestir o vestido que comprou pra ele uma única vez, e todos lhe elogiaram.

Você está andando ao lado da linha do trem. Senta num banco e observa as arvores se mexerem ao vento. Você o vê.

O jeito dele andar, confiante, sua altura: 1,70. Você vira a cabeça quando ele ri. Aperta a bolsa que segura na mão. Ele está acompanhado de um amigo que você nunca viu. Ele está chegando mais perto, mas você percebe que ele não dá mais atenção nenhuma ao mundo, só àquela pessoa.

Trinta segundos depois ele passa por você. Não te vê. Graças a Deus. Você chora. Mas continua olhando.

Então você percebe e sorri.

Pobre homem, ele não sabe que a pior forma de conhecê-lo é amando-o.

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