Padronização da torcida visando o lucro, isso é o Futebol Moderno

O termo Futebol Moderno surgiu em 1999 com os torcedores da Roma lançando o Manifesto “Against Modern Football” ao qual questionava horários de jogos, ingressos caros e perseguições do jeito festivo de torcer. Como qualquer termo que se questiona o poder financeiro, entrou em disputa e alas conservadoras tentam tirar seu teor revolucionário e popular para associar o futebol moderno com saudosismo da parte dentro de campo, lamentando que jogadores viris que davam carrinhos do joelho pra cima não tem mais espaço no futebol atual. Pior ainda é quando reivindicam tempos passados do futebol, ao qual podiam expressar seus preconceitos sem serem incomodados, como época que o futebol era bom de verdade. Mas cada vez mais o dinheiro se apropria do futebol e fica mais nítido, futebol moderno é o futebol de negócios.

Torcida da Roma usa trocadilho com a palavra “schiavi” (“escravo”)

Futebol tem origem popular, os clubes em sua maioria eram formados nos bairros periféricos, sindicatos de trabalhadores, os próprios jogadores eram de classes mais baixas e com isso o esporte foi se moldando dentro de uma cultura popular, incorporado nas características das pessoas que frequentavam os ambientes futebolísticos. Tamanha adesão popular não consegue fugir de uma coisa: a ganância dos empresários. O dinheiro se apropria de todas as produções da humanidade, e com futebol não seria diferente, mas para deixar o futebol lucrativo teria que mudar sua característica: essência popular.

Foto tirada da Geral do Mineirão dois anos antes do começo das obras para a Copa do Mundo no Brasil ( que retirou a Geral). É nítido como que a FIFA acelerou o processo de elitização dos estádios no Brasil

Muito se fala do preço dos ingressos, pois é a forma mais concreta de segregação, mas o futebol moderno atua também em aspectos mais sutis mas tão elitizantes quanto os valores dos ingressos. Uma das formas de expulsar um pobre de um lugar, seja do estádio ou qualquer outro lugar, é deixar o ambiente desconfortável. Não estou me referindo no aspecto de comodidade, mas na questão da estética e comportamental. Em muitas experiências que tive em rodas de conversa na periferia e nas ocupações urbanas era nítido que o que impediam as pessoas de frequentarem espaços gratuitos na região central ( além da questão da péssima política de mobilidade urbana) era que não se sentiam bem vindos nesses ambientes. Arquitetura ostentativa, todos vestidos com roupas caras, falando baixinho, lugares certos pra ficar e como ficar, vende-se bebidas e comidas caras e que não agradam… alguns até achavam que tais locais precisava pagar para entrar. Em outras palavras mais diretas: “goumertizou” o rolê.

Para o futebol dar lucro era preciso encaixa-lo na grade da programação da TV, e não no melhor horário para o torcedor. Jogos as dez da noite impossibilitam o trabalhador de ir aos estádios sendo que tem que trabalhar às cinco da matina do dia seguinte.

Campanha dos torcedores contra a Rede Globo por colocar os jogos as 10 da noite

Para o futebol dar lucro era preciso trocar o público tradicional para um que pagasse mais, consumisse mais, que atraísse patrocinadores mais caros. Mas tal perfil de torcedor não entraria no futebol se tivesse que disputar espaço em arquibancadas sem cadeiras, assistir os jogos em pé, compartilhar seu campo visual do jogo com as bandeiras, ficar ao lado de sinalizadores, barulho dos instrumentos, se não tivesse a certeza que seu carro teria um espaço garantido de fácil acesso ao estádio.
Para o futebol dar lucro era preciso transformar os estádios em ambientes ao qual a classe alta estava costumada a frequentar. Com ajuda da FIFA, que acelerou esse processo, nossos estádios que eram um palco para festas populares intensas, com diversidade, criatividade, que transbordava energia com bandeiras, bumbos, sinalizadores, bandeirões, faixas, charangas se transformaram em geladas arenas ao qual o torcedor se comporta como uma plateia de cinema.

O Futebol Moderno é o Futebol de Negócio. É tirar nosso lazer e paixão, nosso sentimento de pertencimento de um grupo para colocar um público que esnobava frequentar o estádio, mas agora acha legal porque podem comprar comida do Spoleto junto com uma xícara de capuccino e suas fotos tiradas dentro do estádios rendem muitas curtidas no facebook.

Já existem mobilizações no Brasil e no mundo contra o Futebol de Negócio e somente com a união dos torcedores podemos reverter esse cenário, pois não existe nenhuma empresa mais forte que a nossa torcida.

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