70

A grande ironia de uma vida inteira fazendo do Dia de Finados um dia de festa. Festa, quanta gente em casa, faz churrasco, prepara a mesa, enche a geladeira. A camisa branca de sempre, a sandália meio surrada, daquelas que ninguém mais vê, o capricho do cordão frouxo e do anel apertado. Como tuas mãos eram lindas. Uma vez me disseram parecer as minhas. Corre, corta o bolo, bate palma. Tem gente chamando no portão. Não tem sossego, fala.
Tua vida inteira de tantos erros e violão. Toca aquela do Nelson, ele vai cantar. Cadê a voz, cadê o Martinho. Toma mais um café, tá forte e frio, do jeito bom de reclamar enquanto cai a tarde. Pega a bicicleta, saiu o resultado do bicho. Me espera chegar pra conferir a Lotofacil. Eu reclamava tanto, né.
Desdobro memórias extensas de domingos à noite depois do Fantástico. Desfaço lágrimas que estiveram presas desde teu dia, que eu não consegui escrever nada. Eu fui me divertir. Como a gente fez ao longo desses 28 anos. Eu fui me divertir.
Te pedi tantas vezes pra sonhar, pra me dizer que me ama, pra me mostrar os erros que já não enxergo quando sou envolta em dor de saudade e de dúvida. Te peço qualquer apontar. Manda luz.
Não faço planos, não sei o que vou fazer na semana que vem. Quero ir pro Pará, quero ir à praia, quero me casar no outono e conhecer a Capadócia de balão. Quero que as coisas se desenhem por aí sem você. Que a falta diminua, que o amor aumente. A gente teve pouco tempo demais. Feliz aniversário com atraso.
