Eu apenas queria que você soubesse

Quando comecei a falar de você, tudo o que tinha era uma pá de projeções. Eu estava amarga, sabe. Sentia meu peito meio vazio, meio com saudade. Sentia saudade de amar alguém, meio docinho e desesperançado como todas as vezes que amei alguém. Quando você apareceu, tão bonito nas minhas mensagens, com seu rosto desconhecido, mas tão familiar. Você não dizia muito, talvez não dissesse nada. E foi aí que eu imaginei tudo o que você poderia dizer. Pontuei tuas frases, imaginei a cara que você fazia e se achava graça nas minhas besteiras. Quando tudo deu errado e a gente não se encontrou naquela festa, eu coloquei a culpa na chuva. Quando eu voltei meio frustrada sem te conhecer, romantizei que o universo não queria que a gente se conhecesse num 2015 tão cagado como aquele. Pensei que a vida só queria te proteger do meu ano frustrado e do meu pessimismo naquela altura. Hoje eu recapitulo, deitada aqui nessa cama enquanto lembro da noite de ontem, que talvez tudo tenha sido só spoiler. Que no fundo o nosso desencontro tenha sido só a previsão de que a gente nunca ia mesmo se encontrar.

Tua urgência naquela sexta, que seria uma sexta qualquer de trabalho, pra encontrar assim de qualquer jeito, do jeito que fosse serviu pra me causar aquela tal ansiedade que há tempos eu não sentia. Porque você não sabe, mas eu sou ruim demais em encontros. Talvez se ouvisse minhas reclamações de como tudo era chato sempre nem tivesse me chamado pra nada. Eu gostei. Do seu sorriso, das minhas mãos meio trêmulas, do medo revirando o estômago por não saber o que você acharia. De mim e de nós.

Do tanto que a gente falava, do tanto que a gente ria. Eu só ria. Tudo parecia ridiculamente correto. E nenhum encontro meu é correto. Nunca é. Claro que não foi correto. As coisas iam demorando. Eu não sou de demoras, eu esqueci de te contar. Levantar os pés e te beijar foi ridiculamente complicado e meu pés pisavam em uma ansiedade sufocante maior do que enquanto a gente estava naquela fila. Talvez as coisas tenham dado errado aí. Talvez você não quisesse me beijar ou segurar a minha mão. Tudo era distante e não passava conforme o barulho aumentava, conforme a gente dançava. Dançava? Acho que a gente não dançou. Era tudo meio estranho e eu estava paralisada esperando quando gesto seu. Denunciei nervosismo. Alerta.

Se as coisas melhoraram na tua casa eu não lembro bem. Talvez eu não tivesse que me fazer de qualquer coisa que não fosse eu. Talvez eu tivesse que ser de riso fácil e sapatos jogados pelo chão. Acontece que tudo parecia distante. Se no dia seguinte a gente pudesse mudar isso, a gente foi lá e não mudou. Talvez eu me culpe todos os dias por ter errado qualquer coisa que eu não sei bem o quê.

A série de spoiler que se sucedeu, de que a gente nunca ia dar certo mesmo, eu consigo colocar numa lista rasa. Enquanto eu acordava com o coração meu doído porque você me esquecia dois dias. Por vezes quando acordava sobressaltada, como naquela vez em que você esteve tão perto e não fez qualquer questão de me encontrar, dizendo que acabou tudo. Talvez tivesse acabado mesmo.

Que malditos sejam todos os seus recados cheios de qualquer coisa que eu confundi com carinho. Que malditas sejam todas as musicas que você queria que eu ouvisse. Até chegar naquela que eu mandei e você nem sequer ouviu que eu sei.

Eu não devia ter achado que o Flamengo queria unir a gente. Eu não devia ter achado que aquele beijo às seis da manhã na tua casa era especial. Você nunca disse que eu era especial.

Eu devia ter ido embora sem implorar que você me beijasse e não aquela menina. Eu não devia ter aceitado ir pra sua casa domingo à noite. Mas não ir pra sua casa à aquela altura do campeonato já não faria diferença. Faria?

Eu apenas queria que você soubesse que as coisas mudaram sem eu saber. Se você leu qualquer coisa chata no meu Twitter, se você preferiu esconder de mim que eu não era quase nada. Se eu entendi tudo errado e no fundo você tem pena por eu ser tão boba.

Eu não tenho razão qualquer pra lamentar a gente, mas eu lamento todos os dias. Queria que a gente nunca tivesse se conhecido. Que você nunca tivesse falado tão próximo do meu ouvido.

Tudo aqui dentro é tão demorado. O que dói é saber que vai demorar muito pra eu projetar em outra pessoa todo esse caminhão de coisas boas que projetei em você. Vai demorar pra achar outro abraço melhor que o teu. Vou guardar o disco do Pullovers na gaveta. Você vai achar que isso acontece toda hora. Eu te digo que não. Que fazia tempo demais que eu não torcia tanto pra algo dar certo além do 4–3–3 do Muricy. Eu torci pra gente dar certo. Hoje tô torcendo pra ser adulta e desejar tudo de bom na sua vida. Torço pra que não aconteça o que acontece toda vez que eu me apaixono por alguém. Continuo na torcida pra de uma próxima vez ser diferente. Eu sei que vai demorar, sempre demora. Mas dessa próxima vez não vai ser você.

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