Fuerza bruta

Eu sempre ouvi que devia ir devagar. Que toda essa brutalidade assusta. Eu falo alto, gesticulo, xingo, quando sorrio exponho todos os meus dentes. Todos mesmo. Quando acordo, não acordo sozinha. Todos os dias saio da cama com um punhado de ideias, medos e sufocos. São muitos, sou muitas. Hoje eu acordei querendo largar tudo e comprar uma bicicleta roxa. Pesquisei uma viagem pra Havana e outra pra costa da Espanha. Enquanto isso respondi três e-mails inúteis. Pode ser que nada há de bruto em nenhuma dessas ações, mas acontece que elas foram minhas. Minha brutalidade exarcebada se transforma em sonhos e em uma sensibilidade igualmente enorme.

As queixas são maiores, a dificuldade e também as expectativas. É tudo pra fora, tudo tão à flor da pele que nem aquela música ruim do Zeca Baleiro foi capaz de chegar perto.

Somos mulheres demais, eles dizem. Fortes demais, enormes demais. Eu nunca quis ser demais. Talvez ao longo dos meus vinte e cinco anos eu só quis ser encaixe. Quis me encaixar onde não cabia. Eu sou muito grande. Meu coração é maior que os meus 1,63m de altura. Gosto de abraços grandes, fortes e que me aceitem como eu sou. Quase explodindo. Eu explodo todos os dias. De tédio, de ansiedade, de vontade.

Vontade de dormir mais dez minutos, de pegar o ônibus vazio e daqueles olhos castanhos. Talvez os olhos castanhos dele nunca sejam capazes de entender toda a minha grandeza e urgência. Não é que eu queira demais, é que eu só sei querer assim desse jeito, bruto.

Enquanto lapido o que é qualquer sentimento verdadeiro e o que é apenas vitamina pro meu ego descabido, desenrolo histórias surreais maiores do que as que posso escrever. Talvez eu nem as deseje viver de verdade, talvez seja aquela coisa quase infantil de inventar futuro como eu fazia quando era só uma criança. Desde aquela época nunca soube lidar com rejeições, sempre encaro cada não de forma brutal. Sinto o golpe, me envergonho e recolho os cacos. Todas as vezes como se fosse a primeira. Toda vez.

Brigo, engasgo no meu próprio veneno que destilo pra quem está do lado dele quando não posso estar, quando ele não quer que eu esteja. Sou capaz de gritar tão alto que assustaria todas as pessoas que um dia possam a vir me amar. Fui capaz de assustar todas as pessoas que vieram a me amar. O meu amor é assim, ele transpira e regurgita. Alto. Prepotente.

Gastei linhas inteiras pra explicar o que nunca vou conseguir entender. Resumi essa força bruta escrevendo courage, em francês mesmo, do lado esquerdo do quadril, que é mais forte que o meu lado esquerdo do peito. Lado esse que pulsa em brutalidade cortante toda essa confusão que eu consigo me enfiar todos os dias. Desisto e persisto. Caio, levanto, tento de novo. Por hoje eu desisti. Do ônibus, do jantar, dos olhos castanhos e do abraço dele. Mas amanhã eu tento de novo. Mais voraz e sem medo. Bruta.

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