Maio

Eu não sabia que a maturidade me traria tantos arrependimentos. Me arrependo do café que tomei pela manhã, até ao ônibus que perdi na parte da noite enquanto chovia. Me arrependo de todas as tentativas frustradas, em que eu poderia apenas me deitar e esperar o desenrolar dos fatos. Me arrependo dos textos em anexos, dos mal escritos e dos escritos sem alma. Me arrependo das linhas tortas e dos borrões feitos à lágrimas. Do que quero limpo e eu sujei. Do que era branco e eu pintei.

Me arrependi daquele samba, daquele sábado e do jeito que usei meu cabelo. Se eu soubesse que a gente ia se conhecer, teria ido mais bonita. Do riso fácil e da sintonia instantânea feito macarrão. Do afago e do beijo embaixo dos Arcos. Eu não me lembro se chovia. Só me lembro que foi a primeira vez que você foi embora. Me arrependo de ter te deixado ir. De ter fracassado o plano da gente fugir. A pé ou de taxi, como você preferisse.

Me arrependi do bar na Riachuelo e do Gérson depois. Me arrependi de não ter pegado a tua mão enquanto a gente atravessava a rua. Já disse que não me lembro se chovia? Eu me arrependo até de ter péssima memória e não lembrar do seu cheiro aquela noite.

Me arrependo de ainda sentir um amargor e um chute no estômago quando lembro do que você dizia. Como é mesmo que você dizia? Eu preciso te beijar? Eu tenho que te beijar? Só me lembro do linda enquanto eu virei o rosto. Me arrependi até do rosto meio virado pra esquerda, quando eu devia ter levantado e ido embora. Me arrependo de ali, em um riso qualquer, ter percebido que, no fundo, eu sempre fui apaixonada por você. Que todas as vezes que a gente dormiu no sofá foi por querer. Porque chovia, dessa vez eu lembro bem que chovia. Me arrependo sim, de não ter levado guarda chuva.

Eu poderia listar aquele arrependimento maior, aquela briga. Aquela dorzinha de saudades quando você disse que não ia me ver. Arrependimento pouco é bobagem perto do que eu sinto. Aquelas palavras, o embate, a insegurança e o medo de ver aquele filme fracassado passar de novo na minha cabeça.

Arrependimento faz a gente perder o sono às 4 da manhã de uma terça qualquer e também faz a gente quase definhar o peito de tanta dor. Uma dor que ora consome, ora alimenta. Por vezes sou só dor. Só dor e saudade.

Me arrepender de nós talvez seja meu maior espaço ocupado. Hoje eu só queria apagar todas as lembranças e rabiscos. A gente nunca se escreveu de verdade, não tenho cartas pra rasgar. A gente nem tem uma foto juntos. Só aquela com a sua camisa, deitada na sua cama. Que eu apaguei faz tempo.

Me arrependo de todos os dias ainda cantarolar aquela canção que acalme o diabo de pensar o que a gente podia ser. E até de ouvir essa música deitada no teu ombro eu me arrependo.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.