Quase vinte e seis

Gosto de ter vinte e cinco. Vinte e cinco é quase redondo, é a metade de cinquenta, um quarto de século. Gosto de dizer que tenho vinte e cinco anos. De sonho, de sangue e de América do Sul, como Belchior. Gosto do peso nos ombros de não ter mais vinte e um. Gosto do olhar apurado e da percepção mais elevada das coisas da vida. Aos vinte e cinco consigo olhar de fora, como se eu estivesse do alto, assistindo de camarote o desenrolar da minha própria vida.
Gosto tanto de ter vinte e cinco que tudo parecia mais lento e agora parece correr em velocidade brusca para que eu deixe de ter vinte e cinco. Daqui a cerca de um mês eu terei quase trinta. Trinta. Não é assustador. Pelo menos não muito. Não tanto quanto não ter mais vinte e cinco.
Foi aos vinte e cinco que aprendi a cozinhar feijão e a desistir das coisas quase sem sofrer. Quase. Em um quarto de século Ainda não aprendi a renunciar sem dor, Ainda não aprendi a ser menos coração e encarar as coisas como elas de fato são. Cruas e más. Ainda choro embaixo do chuveiro por alguém que nunca veio. Ainda vomito de nervoso por alguém que é quase nada. Que foi quase nada. Mas que me arrancou alguns sorrisos olhando o celular.
Aos vinte e cinco já não entro mais em disputas. Eu as perco antes mesmo de entrar. Não vale o desgaste, repito em frente ao espelho. Não seja louca, repito em voz mais alta ainda. Aos vinte e cinco ninguém quer saber da minha urgência, ninguém atura as minhas vontades de carinhos às 19h de uma terça-feira nublada. Eu não tenho mais idade pra isso, tento anotar mentalmente.
Aos quase vinte e seis os nãos doem mais do que aos vinte e dois. A vontade de revirar feridas e esclarecer as coisas são menores do que uma nota de 2. A expectativa adormece e a gente se acostuma. Se acostuma com a falta, com a rotina e com a incapacidade de obrigar aquele cara a gostar de olhar pra você ao invés da sua janela no WhatsApp.
Aos quase vinte e seis ainda gosto de escrever como aos dezessete. Ainda escrevo o que incomoda e o que me rende noites em claro tentando entender o motivo de tanta coisa banal doer tanto. Porque dor é solitária, como escreveu uma amiga dia desses. Por mais que você esteja amparada por mil amigos e pessoas que te amem, dor é solitária.
Aos quase vinte e seis ainda me sinto sozinha quanto aos dezesseis. Ainda acredito que não existe ninguém que vá abraçar a minha confusão da forma voraz que eu espero que abrace. Mas desacreditando só até a próxima página. Desacreditando em coisas fáceis, mas se orgulhando de encarar as difíceis. Dizendo não a tudo que não se encaixa, mas no fundo rezando baixinho pra que tome forma.
Aos vinte e cinco quase seis sou inteira. Coleciono viagens incríveis, vinhos baratos, um orgulho imenso de ainda fazer questão das coisas que dão frio na barriga e buracos no coração. Aos vinte e seis serei ainda mais completa e vou mentir que acredito em tudo que escrevi.
