Substantivo próprio tem letra maiúscula

Confesso morrer de inveja de Lígia, de Carolina, de Lilly Braun, Iolanda, Luiza, Gabriela. Confesso ir dormir todos os dias pedindo por um poeta ensandecido de dor suplicando minha volta através de um poema melancólico. Confesso também que invejei mil vezes aqueles trechos de músicas dos quais a saudade soa como luto e a batida do violão envolve notas tristes e chorosas. Eu admiro, tenho inveja, sinto falta, me delicio, tenho carinho, eu me aconselho, me protejo, eu me projeto. Mas ciúmes é o que eu sinto mais. Eu morro é de ciúmes de todas elas. Todas essas mulheres cantadas, rimadas. Transformadas em partituras. Ninguém nunca viu em meus olhos as noites do Rio, ao luar. E nunca tive sequer uma homônima para me vangloriar e mentir que meu nome foi inspirado nela. Ou vice-versa. Logo eu, que nunca gostei de ser comum. Em meio a Anas de Armsterdã ou que fizeram de uma vida um erro depois de irem embora. Michelles, Angélicas, Marias Ninguém, não há alguém que me cante, me passe para o papel. Leminski não me escreveu três versos de gelo. Não há alguém que chore, que durma tarde em meio a letras e prosas. Quando Roberto cantou que nem o mar e o infinito não eram maiores que o amor que residia nele e nem ao menos mais bonito, quando Chico afirmou que gostaria de ficar no corpo dela feito tatuagem, quando João afirmou que os desafinados também têm coração. Onde andava eu enquanto tudo isso acontecia? Onde? Por que não fui a coisa mais linda, mais cheia de graça a passar? Por que não fui a quadrada, demente, que não entende nada e Caetano não quis me fazer entender? Dias desses aí, acordei feliz com a possibilidade de terem escrito algo pra mim, aí pela vida. Quem sabe um poeta tímido, reprimido, coitado. Ficou tão sem graça que não quis citar meu nome, que preferiu fazer versos quase impessoais para que eu, do alto de toda minha inteligência e desenvoltura, não pudesse nem sequer desconfiar que definhava à minha pessoa. Talvez. Talvez ele tenha pensado em escrever mil vezes e desistiu diante de algo que eu tenha feito de errado. E resolveu escrever pra Teresa, pra Renata. Eu quis muitas vezes ser a Teresa, não essa Teresa,e sim a Teresa de Chico. Não só dele, mas de meus outros amantes escritores. Deixa-los escrever no meu corpo inteiro, lê-los através do espelho e depois apagar tudo, para que nunca cessasse seus escritos. Mesmo que esses amantes sejam todos errados, tortos, quase mortos, seus amores serão bons, disse o admirador de Teresa certa vez. Em outra canção, não tão desnaturada, mas poderia ser minha, quem sabe. Certamente o poetinha não me imaginou com uma flor quando escreveu pra sua menina com andar de pajem medieval. Mal sabia ele que eu também, quando comecei a gostar dele, procurava saber por todos os modos com que camisa esporte ele ia sair para fazer mimetismo de amor, me vestindo parecido. Quis ser a Maga do mago que também atende por Cortázar. Mago este que me faz melancólica só por ler um verso seu, mesmo desprendido. Invejei os olhos de Capitu. Não os olhos em si, e sim a inspiração que deram a alguém para classifica-los como oblíquos e dissimulados. Rosas, Madalenas. Recentemente eu invejei Matilde, uma mulata que tem a cara da saudade. Até a Matilde deve ter a cara da minha saudade. Quem me aconselha, quem me manda andar, não iria à esquina se soubesse que eu nunca quis contos de fadas, mas sim uma frasezinha qualquer escrita num cantinho de página. Quem tem o dom da rima, da métrica, talvez ficasse sensibilizado com tamanha mágoa que tenho. E, de tanta pena que esse sujeito sentiria de mim, ia pôr-se a escrever. Talvez ele um dia se lembre da minha existência e, de tanta culpa, colocará em frases essa minha vida breve até então, monótona. Mas o faria com a maestria necessária. Mas enquanto ele não faz nada, finjo desdém a todas as Bárbaras, Cecílias. E desdenho porque amo. Amo ser feita de pedaços de cada uma delas. E é patológico e patético. Eu sei. Mas, ainda vou reclamar meus direitos a ele. Como quem reclama a paternidade de um filho. Vou bater bem na porta da casa dele e vou dizer: estou cansada dessa nossa relação unilateral.

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