Amor em tempos de cólera

Na minha rua, uma mulher gritava:
– Me solta! Me larga, me solta, me soooooolta!
Uma dúzia de espectadores. Gente dos botecos, do cortiço, a cabeleireira, os bombadinhos da academia. Um círculo irregular dos dois lados da rua, ninguém se aproxima mais do que quatro ou cinco metros, como numa rinha de galo. E a mulher gritando:
– Me larga! Eu vou te matar! Tira a mão de mim!
Em cima de um colchão velho, cobertor cinza caído na sarjeta, papelão molhado forrando a calçada, o homem em silêncio segurava a mulher pelos ombros. Uma senhora alta avançou:
– Solta ela! Eu vou chamar a polícia, solta ela!
– Não solto. Ela quer ir pra cracolândia. Não solto! Não vai fumar pedra. Ela quer se matar!
– Me soltaaaaa! Me larga! Eu vou! Me solta, tira a mão de mim, me soltaaaa!
– Larga ela!
– Ela quer fumar pedra. Não solto!

Ao redor, uma dúzia de pessoas caladas assistiam e talvez (só talvez) se perguntassem:
Ele ama?
Ela quer morrer?
Ele manda?
Ela quer amor?
Quem tem o direito de exigir sobriedade quando se mora em um colchão esburacado numa calçada suja com um um cobertor molhado de esgoto num dia de chuva?
Que desumanidade é exigir viver quando a vida soa tão desumana?

A senhora alta disse que ia chamar a polícia. Pra quê? A polícia vai se preocupar com uma moradora de rua viciada em crack? O poder público vai oferecer um tratamento de saúde adequado e respeitoso? Vão arranjar um teto, um emprego, alfabetização ou algum dos direitos garantidos em constituição à uma cidadã brasileira doente, em situação de risco e extrema vulnerabilidade? Quando a senhora alta telefonar, do outro lado da linha estará alguém que dê pra aquela mulher alguma boa razão pra não andar quatro quadras até a cracolândia e se entupir de todas as drogas que não servem pra curtir a vida, rir, relaxar, mas sim pra tornar possível caçar um pedaço de pão mofado num saco de lixo e comer sem vomitar? Vão lhe dar um pedaço de pão limpo?

No fim, ele soltou e ela seguiu. Talvez (só talvez) tenha ido fumar.
A mulher alta entrou no salão de beleza.
Os bombadinhos voltaram pra academia.
Os bêbados do boteco, seguindo o código de conduta universal dos homens, consolaram o companheiro:
– Vagabunda isso aí, liga não.
– Deixa se acabar na pedra, deixa morrer, você arranja outra.
– Não vale a pena.

E o homem silenciou, sozinho no seu colchão.