Sobre Kufiahs, Turbantes e bom senso

Quando voltei da Palestina, me perguntava se deveria usar kufiahs — o lenço que é símbolo da luta de libertação daquele povo. Então, conversei com ativistas palestinos, li vários textos feitos por eles e o que eles me disseram é que, no contexto de luta em que eles se encontram, poderia ser positivo que eu usasse esse símbolo (em situações políticas, e não como adereço fashion ou fantasia de carnaval) porque isso é coerente com o objetivo, ideologia e a estratégia de luta específica daqueles grupos organizados dentro daquele país.

Estamos no Brasil. A discussão sobre o uso do turbante aqui tem que se adequar às especificidades históricas e sociais daqui e aos grupos diretamente afetados aqui. Não interessa se o turbante também existe em sociedades indianas e árabes (que, aliás, também foram colonizadas e racializadas pelo imperialismo branco), porque a discussão é sobre o significado de um símbolo construído dentro do nosso contexto político e social, com a nossa história de escravidão e o nosso racismo contemporâneo, em uma luta protagonizada pelas negras e negros daqui.

Dentro do contexto brasileiro, é quase que unânime entre os Movimentos Negros que o uso do turbante por brancos não é uma estratégia política coerente, não é ajuda, não é solidariedade. Costuma ser consenso entre as pessoas afetadas diretamente por essa questão que o uso de turbantes por brancos é uma prática que apaga a luta anti-racista, que atrapalha as estratégias políticas negras. É já está mais do que evidente a posição majoritária desses grupos e indivíduos de que, independentemente das boas intenções que o branco em questão tenha, o uso do turbante por brancos ofende, de diversas maneiras diferentes, as pessoas que já tem que lidar com todas as formas escancaradas e dissimuladas de racismo todos os dias. Logo, as tais boas intenções se tornam, na prática, racismo, indiferença, sadismo.

Nós, indivíduos brasileiros brancos, precisamos entender que respeitar protagonismo e lugar de fala não significa que não temos absolutamente nenhum papel a desenvolver nas questões anti-racistas. Significa, isso sim, que é preciso aprender a ouvir e respeitar as estratégias de luta, as reivindicações e as questões objetivas e subjetivas dos grupos e indivíduos que são protagonistas e vítimas de uma questão politico-social específica.

Se os palestinos me dizem que é bom para eles que eu use uma kufiah dentro de determinadas situações, então eu uso. Se os negros brasileiros me dizem que é problemático que eu use um turbante, então eu não uso. Porque, se eu não quero ser um escroto mimado, se não quero atrapalhar as lutas muito sérias de grupos dos quais eu não faço parte, e se eu me importo mais com o combate ao racismo do que com o meu complexo de messias, então a melhor estratégia é ouvir, aprender e respeitar.

Porque muito ajuda quem não atrapalha.