Abuso

Meu estômago queima. Podia ser sinal de você chegando em um bom dia, mas, hoje, é só sua doença ardendo em brasa dentro de mim. Assim como no estômago, você me machuca em outros lugares sem nem perceber. Distribui as cartas, blefa, ganha de mim, quer me ouvir dizer que eu te amo, quer que eu te dê detalhes, me enjoa, me enoja.

Eu tenho tanto nojo do que você faz comigo, que, várias vezes sinto vontade de vomitar ao ouvir sua voz – e dependo tanto de você, que me firo em vários outros lugares só de pensar em não ouví-la mais.

Mas não que você não me fira. Atira minhas vontades no chão, estupra e expõe meus sentimentos, manda meus desejos calarem a boca e bate na cara da minha insegurança, me fazendo chafurdar a faca nos lugares que sabe que mais me doem a alma.

Eu odeio você. Era pra ser simples, nada de outras vidas, nada que nunca existiu, nada pra preencher meus buracos. Eu só queria que você fosse bom o suficiente, como a minha miopia te desenhou pra mim e te fez lindo. Que te pintou como um beijo, do Klimt, enquanto você era uma pichação mal acabada e rota, em um muro escondido. Que depois, de óculos, te tirou a máscara e viu teus olhos de abuso.

Esse esparadrapo, colado na casca fina e frágil do machucado, há pouco remediado, será que sai sem doer, ou leva parte de mim junto? Será que é melhor esperar a casca endurecer, a dor melhorar, a água do banho ir tirando a cola do esparadrapo? E se foi você quem fez esse curativo, colando o esparadrapo em cima do corte, propositalmente?

O coro, que grita alto, fala que eu sou a culpada, que eu não arranco esse curativo mal feito, que se esfrega e arde no meu corte, porque não quero. E para eles, as outras feridas, que você me fez com faca afiada, são todas culpa minha. “Nossa, mas como ele é bonzinho”, dizem. É porque eles não te vêm quando você está dentro da minha cabeça.