a dor
Preciso te terminar. Assim como alguns textos que escrevo, como as arrumações que começo e parecem não ter fim, preciso pôr um em você. Um ponto final nessa frase longa e dolorida que revira um mim, que me acorda de manhã piscando em neon na minha cabeça, que tem tantas vírgulas e tantas palavras labirínticas e intricadas que quase não dá pra respirar.
E o pior é que nem sei como te chamar. Te chamo de tristeza, de dor, de depressão, melancolia? Você nunca se apresentou pra mim, mas se eu fosse te definir, diria que você é um emaranhado de lágrimas e ansiedade que vive, feito um fardo, preso às minhas costas.
Sempre tive facilidade em me despir de coisas ruins. Tirar a capa do trabalho num dia difícil, descartar alguém que não me faz bem. Mas você não. Você está lá, preso às minhas costas mesmo quando me dispo para tomar banho, mesmo quando coloco a música alta e grito pra te exorcizar. Você me abraça forte e diz “ainda não é hora”. E eu choro.
Sei que você está aqui para me dar dimensão. Pra me forçar a enxergar valores lá da próxima virada de esquina, que não enxergo hoje. Que está aqui pra endurecer minha casca, me mostrar que eu sou capaz de aguentar esse frio, esse peso e, nesse tortuoso caminhar, me fazer ver que eu sou mais forte do que imaginava.
Mas eu não gosto de você. Eu não gosto de te ver no espelho quando me olho, detesto quando você rouba minha concentração, meu prazer em fazer as coisas, minha tranquilidade em ler um livro, deitada na rede. Odeio quando, depois de uma semana de trégua, você me dá um cutucão na costela, que me deixa sem ar, pra avisar que ainda está aí. E então eu sinto o peso, sufocando minha respiração, eu sinto as chagas ardendo, sinto o quanto você me machuca. Você não é bonito, se parece muito com a pena que eu sinto de mim mesma e com o medo escuro e cheio de verrugas que eu tenho da vida.
Sei, no entanto, que você não faz parte de mim. Que se enfiou na minha vida pelas tristes feridas que deixei abertas por tempo demais. Mas essa cabeça, esse corpo, são a minha casa, meu templo. Aqui, passa um monte de gordura trans, um monte de pensamento besta, um monte de álcool que destrói, um monte de horas em pé que fazem doer as juntas. Mas ficar, só fica o que eu deixo. Então, não vou lutar contra você agora. Vou respeitar meu momento e te sentir pesar, te sentir arder. E te terminar, quando chegar a hora. Só pra, no fim, ter a certeza de que ainda sou eu quem manda aqui.