O trem

Vou escrever mais um pra não publicar ou enviar (update: pois é, publiquei). Pra não te contar que, aqui dentro, tem um monte de coisas borbulhando. Pra não dar o braço a torcer que eu quero um monte de coisas que têm a ver com amor, com tesão, com cumplicidade, com frio na barriga, com pavor e um monte de outros sentimentos. Pra não dizer nada. Pra não dar nome. Pra não contar mais nada.

Hoje eu escrevo com raiva. Raiva não correspondida, raiva que recebe em troca a indiferença. Eu espanco o teclado, eu deixo palavras escritas errado pra trás, porque elas não me importam, assim como eu caguei pra você, pra mim, caguei com tudo. Hoje eu não sou choro no banheiro, eu sou raiva de mim mesma. Porque quando eu sou eu mesma, eu sou fraca, eu sou fácil, eu não finjo, eu te amo, eu sou um fracasso. Sou uma decepção para mim. Sou vergonha, sou frio mesmo no calor, sou medo de você nunca me deixar entrar, como você está dentro de mim. Eu sou um monte de coisas pela metade. Eu sou um susto preso na garganta que nunca para de se assustar.

Hoje eu escrevo com pena. Pena de mim, que sou tão assim, que não sei ser pela metade, que explodo em desespero, feito um homem-bomba. Hoje não tem choro, não tem vela, tem um estalo seco de um tiro no escuro. Mas não tem morte. Tem vida, tanta vida que arde aqui, bem aqui no meio.

Às vezes acredito piamente que só por isso, já vale a viagem. Noutras, tenho certeza que peguei o trem errado.

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