A BORBOLETA E O DRAGÃO
Teodorico Gomes de Oliveira Neto

Meu avô era um homem duro com a vida e suave com seu sangue. Adorava os netos dando preferência aos mais novos. Levantava o nos braços acima da cabeça, sacudia, soprava na barriga e fazia um griteiro danado. Imagino eu, que a única explicação pras crianças não se assustarem era o mesmo sangue. Nunca tinham visto o avô, o velho chegava a cabeçorra até quase encostar o narigão típico dos Gomes de Oliveira no pequeno, sorria e começava o griteiro. Puxava o piazinho do berço e sacudia gritava jogava-os para o alto a aos gritos chamava apelidava as crias ainda no berço. A criançada adorava o avô, gargalhavam de perder o fôlego com a fuzarca do velho. Assim que percebiam a presença vô Ico o riso era fácil. Os olhinhos procuravam ao redor do berço ansiosos pela presença festiva do avô.
Vô Ico não os decepcionava. Assim que chegava do sítio lá pelas onze e meia entornava um talagaço de boa cachaça que a lhe escorria pelos cantos da boca. É justo dizer que era um trago generoso, dado direto no gargalo da botija de sassafrás, sendo esse seu único luxo. Na sequência ele corria lamber as crias, primeiro os netos de berço em seguida rolava no chão com os mais velhos. Fazia a vontade dos netos primeiro lhes dando atenção para em seguida almoçar, sentando-se sempre à cabeceira da imensa mesa patriarcal. Reunida a família passavam tempo ao entorno da mesa sombreada por um varandão fresco e bem ventilado. Próprio ao verão local, o varandão ficava rente à cozinha externa. Após o almoço o velho tomava banho, fazia a cesta e antes de seguir para o cartório jogava uma partida de paciência ou crapô, se houvesse um parceiro apto para o jogo de crapô, por óbvio.
Seu Teodorico era o homem mais teimoso daqueles lados e fazia jus a fama, teimava até com alemão. Quando queria alguma coisa o velho persistia até lograr êxito. Dono de uma obstinação férrea usada na consecução de seus objetivos tinha, ele certa dificuldade quando suas vontades se frustravam por qualquer motivo que fosse. Um dia chegou do sítio fulo da vida. Muita chuva e o prejuízo foi muito grande na lavoura do feijão. Numa ou outra roça o fradinho chegou a brotar na vagem de tanta umidade. Seu Teodorico chegou esturrando de raiva. Foi até o fogão a lenha de onde sua esposa Dona Cida comandava os afazeres da casa. Abriu uma panela cheirou a comida e ralhou.
- Eu não gosto de quiabo.
Em seguida atirou o caldeirão a uma distância olímpica. Feito um bólido o caldeirão passou por cima da cerca e foi cair no capinzal do outro lado da via férrea que passava ao rente ao terreno. Dona Cida nem pestanejou, balançou a cabeça negativamente com sorrisinho até maroto e em voz baixa disse as suas ajudantes assustadas com o forfé do velho:
- Isso já passa. Teodorico é fogo de palha. Na hora faz um fuá depois ele se acalma e vem almoçar.
E continuou mexendo a comida com a colher de pau. Trinta minutos depois vem o velho de banho tomado, cabelo molhado sentando-se à mesa sorridente assobiando uma modinha antiga. Dona Cida serviu o almoço e não tocou no assunto.
Passa um dia, passam dois, passa um mês e passou-se um ano e nunca se falou no assunto. Feliz com a safra do café o velho chegou cantando. Aquele ano a lavoura do milho foi generosa, o café rendeu e a queijaria pagou bem pelo litro de leite. Cheirou a comida e perguntou a esposa.
-Cida! Cê não fez mais o aquele doce de cidra. E a cidreira tá carregadinha minha véia.
- Meu cardeirãozinho de faze doce você jogou no mato Teodorico.
Ela respondeu sem se virar pra que o marido não visse a vitória estampada na face. Nessa hora o velho nem falava tamanha a vergonha de estar sendo cobrado pela esposa por seu comportamento na frente de toda aquela gente que ele convidou pra almoçar sem avisar. Almoçou calado, terminado o prato e saiu sem olhar nos olhos de Dona Cida que roía uma costela de carneiro sem demonstrar emoções.
O velho nesse dia quebrou a rotina. Entrou na casa subiu no carro e sumiu se se despedir dos convidados que teciam loas aos dotes de cozinheira da anfitriã. Voltou no fim da tarde antes da esposa retornar da novena. Ele arrumou como se fosse uma vitrine de natal o jogo de panelas reluzentes que comprara em Ourinhos. Eram as mais caras, modernas e brilhantes panelas da cidade. Dispostas caprichosamente sobre a mesa da cozinha de dentro pareciam anúncio de revista. Só não brilhavam mais que o os olhos do velho, ansioso pra surpreender a esposa e redimir-se do erro passado.
Dona Cida chegou da novena olhou as panelas de canto de olho sem demonstrar contentamento. Já ia entrando no corredor que levava ao quarto quando seu Teodorico provocou a onça.
- Gostou das panelas minha véia? Já pode fazer aquele doce de cidra agora? Eu tô muito desejoso de comer um docinho de cidra.
Ela se deteve na entrada do corredor, ainda com o véu e terço na mão, escorregou os óculos para ponta do nariz olhando fundo nos olhos do marido falou em tom de reprovação. Aliás, era exatamente o tom com o qual ela educou seus filhos.
- Teodorico. Essa panelaiada toda não é o meu cardeirãozinho Teodorico.
Dito isso, calma e elegante como sempre, retornou ao corredor e andou até o quarto fechando a porta atrás de si. No rastro dela o silêncio era de sepultura. Não se ouvia nem o pio das aves no quintal.
Deu a branca no velho. Parecia a ele que as entranhas haviam sumido num vazio que lhe deu. Pensou consigo, tábula rasa fui reduzido a uma tábula rasa. No dia seguinte ele foi até o capinzal, achou o cardeirãozinho, lavou o cardeirãozinho, areou o cardeiranzinho e o colocou no lugar. Dois dias depois saiu o afamado doce de cidra tão apreciado por seu Teodorico.
E era assim que a borboleta vencia o dragão.
Meu avô era um homem duro com a vida e suave com seu sangue. Adorava os netos dando preferência aos mais novos. Levantava o nos braços acima da cabeça, sacudia, soprava na barriga e fazia um griteiro danado. Imagino eu, que a única explicação pras crianças não se assustarem era o mesmo sangue. Nunca tinham visto o avô, o velho chegava a cabeçorra até quase encostar o narigão típico dos Gomes de Oliveira no pequeno, sorria e começava o griteiro. Puxava o piazinho do berço e sacudia gritava jogava-os para o alto a aos gritos chamava apelidava as crias ainda no berço. A criançada adorava o avô, gargalhavam de perder o fôlego com a fuzarca do velho. Assim que percebiam a presença vô Ico o riso era fácil. Os olhinhos procuravam ao redor do berço ansiosos pela presença festiva do avô.
Vô Ico não os decepcionava. Assim que chegava do sítio lá pelas onze e meia entornava um talagaço de boa cachaça que a lhe escorria pelos cantos da boca. É justo dizer que era um trago generoso, dado direto no gargalo da botija de sassafrás, sendo esse seu único luxo. Na sequência ele corria lamber as crias, primeiro os netos de berço em seguida rolava no chão com os mais velhos. Fazia a vontade dos netos primeiro lhes dando atenção para em seguida almoçar, sentando-se sempre à cabeceira da imensa mesa patriarcal. Reunida a família passavam tempo ao entorno da mesa sombreada por um varandão fresco e bem ventilado. Próprio ao verão local, o varandão ficava rente à cozinha externa. Após o almoço o velho tomava banho, fazia a cesta e antes de seguir para o cartório jogava uma partida de paciência ou crapô, se houvesse um parceiro apto para o jogo de crapô, por óbvio.
Seu Teodorico era o homem mais teimoso daqueles lados e fazia jus a fama, teimava até com alemão. Quando queria alguma coisa o velho persistia até lograr êxito. Dono de uma obstinação férrea usada na consecução de seus objetivos tinha, ele certa dificuldade quando suas vontades se frustravam por qualquer motivo que fosse. Um dia chegou do sítio fulo da vida. Muita chuva e o prejuízo foi muito grande na lavoura do feijão. Numa ou outra roça o fradinho chegou a brotar na vagem de tanta umidade. Seu Teodorico chegou esturrando de raiva. Foi até o fogão a lenha de onde sua esposa Dona Cida comandava os afazeres da casa. Abriu uma panela cheirou a comida e ralhou.
- Eu não gosto de quiabo.
Em seguida atirou o caldeirão a uma distância olímpica. Feito um bólido o caldeirão passou por cima da cerca e foi cair no capinzal do outro lado da via férrea que passava ao rente ao terreno. Dona Cida nem pestanejou, balançou a cabeça negativamente com sorrisinho até maroto e em voz baixa disse as suas ajudantes assustadas com o forfé do velho:
- Isso já passa. Teodorico é fogo de palha. Na hora faz um fuá depois ele se acalma e vem almoçar.
E continuou mexendo a comida com a colher de pau. Trinta minutos depois vem o velho de banho tomado, cabelo molhado sentando-se à mesa sorridente assobiando uma modinha antiga. Dona Cida serviu o almoço e não tocou no assunto.
Passa um dia, passam dois, passa um mês e passou-se um ano e nunca se falou no assunto. Feliz com a safra do café o velho chegou cantando. Aquele ano a lavoura do milho foi generosa, o café rendeu e a queijaria pagou bem pelo litro de leite. Cheirou a comida e perguntou a esposa.
-Cida! Cê não fez mais o aquele doce de cidra. E a cidreira tá carregadinha minha véia.
- Meu cardeirãozinho de faze doce você jogou no mato Teodorico.
Ela respondeu sem se virar pra que o marido não visse a vitória estampada na face. Nessa hora o velho nem falava tamanha a vergonha de estar sendo cobrado pela esposa por seu comportamento na frente de toda aquela gente que ele convidou pra almoçar sem avisar. Almoçou calado, terminado o prato e saiu sem olhar nos olhos de Dona Cida que roía uma costela de carneiro sem demonstrar emoções.
O velho nesse dia quebrou a rotina. Entrou na casa subiu no carro e sumiu se se despedir dos convidados que teciam loas aos dotes de cozinheira da anfitriã. Voltou no fim da tarde antes da esposa retornar da novena. Ele arrumou como se fosse uma vitrine de natal o jogo de panelas reluzentes que comprara em Ourinhos. Eram as mais caras, modernas e brilhantes panelas da cidade. Dispostas caprichosamente sobre a mesa da cozinha de dentro pareciam anúncio de revista. Só não brilhavam mais que o os olhos do velho, ansioso pra surpreender a esposa e redimir-se do erro passado.
Dona Cida chegou da novena olhou as panelas de canto de olho sem demonstrar contentamento. Já ia entrando no corredor que levava ao quarto quando seu Teodorico provocou a onça.
- Gostou das panelas minha véia? Já pode fazer aquele doce de cidra agora? Eu tô muito desejoso de comer um docinho de cidra.
Ela se deteve na entrada do corredor, ainda com o véu e terço na mão, escorregou os óculos para ponta do nariz olhando fundo nos olhos do marido falou em tom de reprovação. Aliás, era exatamente o tom com o qual ela educou seus filhos.
- Teodorico. Essa panelaiada toda não é o meu cardeirãozinho Teodorico.
Dito isso, calma e elegante como sempre, retornou ao corredor e andou até o quarto fechando a porta atrás de si. No rastro dela o silêncio era de sepultura. Não se ouvia nem o pio das aves no quintal.
Deu a branca no velho. Parecia a ele que as entranhas haviam sumido num vazio que lhe deu. Pensou consigo, tábula rasa fui reduzido a uma tábula rasa. No dia seguinte ele foi até o capinzal, achou o cardeirãozinho, lavou o cardeirãozinho, areou o cardeiranzinho e o colocou no lugar. Dois dias depois saiu o afamado doce de cidra tão apreciado por seu Teodorico.
E era assim que a borboleta vencia o dragão.