Carta aos alienígenas de Curitiba.

Nasci nesta cidade e sempre morei aqui. Andei por outros lados, mas sempre voltei pra cá. Conheço a cidade, conheço minha gente e o jeito da cidade andar. Por isso mesmo não me conformo com oque os alienígenas vivem a falar. Chegaram de fora, não sabem de nada e mesmo assim desandam a divulgar.
- Curitibano é fechado pra amizade, não fala com seu vizinho de porta, não dá bom dia no elevador e não conversa com estranho.
- Curitibano dirige mal. O trânsito de Curitiba é uma merda e não anda. O curitibano não é educado quando dirige etc.
Pois bem quem é essa gente pra falar bem ou mal de curitibano? Primeiro ponto a ser questionado. Quantos curitibanos vocês conhecem? Duvido que sejam muitos, pois os nascidos aqui somam menos de um terço da população. Logo são dois ou mais alienígenas pra cada curitibano. Curitibano da gema nascido de pais curitibanos eu nem vou comentar, pois esses estão quase em extinção. Entre as pessoas que eu conheço, moradores da minha cidade a longa data eu noto muito entrosamento. Dizemos bom dia, boa tarde e boa noite. Conversamos no elevador, na padaria, nas praças e na ciclovia. Frequentamos a Boca Maldita pra falar mal uns dos outros e corremos no parque pra manter a forma.
Vocês alienígenas é que vieram de fora pra morar aqui. Vocês ouviram falar da qualidade de vida, que as ruas são limpas e que o povo é asseado e quadradinho feito o nosso sotaque então vieram. Vocês são bem vindos e nós gostamos de vocês, ninguém defende mais a limpeza da cidade que os alienígenas, pois fizeram um investimento de vida para morarem aqui. Quando um turista joga papel no chão o alienígena da bronca repreendendo o mal feitor, o curitibano dá o exemplo. Cata o papel, bota na lixeira e faz o turista passar tamanha vergonha que jamais repetirá o ato nos limites da cidade. O equivocado alienígena veio de fora, não conhece seu vizinho de porta que também veio de fora e também não o conhece. Por isso nunca se falaram. Sai na rua e dois terços da população não o conhecem pessoalmente, é justo dizer que ele também não conhece essa gente toda e por isso não se falam.
Quando sai dirigindo cada alienígena quer impor em nossas ruas as regras de trânsito vigentes em sua cidade de origem. Se viessem todos do mesmo planeta até poderia dar certo. Contudo, cada um é de uma galáxia distante, portanto não dá certo mesmo. Os alienígenas de Curitiba constituem a fauna mais diversificada do mundo não são como os alienígenas de São Paulo, cuja maioria veio do nordeste. Destarte, é fácil concluir que o trânsito fica realmente difícil. Curitibano que se prese mora perto do trabalho e faz tudo pelas vizinhanças e não é justo botar a culpa neles. São seres que pouco usam os automóveis, mesmo se levarmos em conta que a maior parte das famílias de classe média possuem mais de um carro na garagem.
Dizer que Curitiba é cidade laboratório é lícito. Pra fazer sucesso aqui tem que ser bom espetáculo do início ao fim. Não é qualquer trupe fuleira que vai fazer sucesso na cidade o povo é exigente mesmo e pra isso conta com a ajuda dos dois terços de alienígenas que investiram seus cobres para morar aqui e querem espetáculos de boa qualidade.
Dizer que o povo curitibano é autofágico e um vive a puxar o tapete do outro é verdade. Lembro bem do Dr. Xavier Viana (in memoriam) atleticano até os ossos falar que no inferno existem vários caldeirões onde as almas desafortunadas penam. Em cada caldeirão há um diabo com um tridente impedindo os apenados fugirem da penúria, só o caldeirão dos curitibanos não possui um vigilante. Eles próprios se encarregam de não deixar ninguém fugir, basta um apontar a cabeça na borda e os de baixo o puxam pra fervura novamente. Além do que se estiver bem quentinho a possibilidade de fuga é quase nula. Para fazer jus a essa fama os curitibanos contam com o auxílio dos dois terços alienígenas da população. Afinal, eles investiram seus cobres para morar na cidade e não querem voltar pra cidade de origem. Ajustam-se a acirrada concorrência e dá-lhe puxar os tapetes uns dos outros. Entende-se esse fenômeno pela recusa dos alienígenas em gastar uma graninha preta e depois retornar ao local de origem de mãos vazias tornando-se assim alvo de chacota de seus coterrâneos.
Dizer que curitibano é babaca eu também concordo, tantos os curitibanos quanto los hermanos moradores de Buenos Aires pensam que nasceram na Europa do Sul e não na América Latrina. E isso não tem jeito mesmo. Então piá, toca pra feirinha no domingo e desencana, almoça por lá, tem tacos, empanadas, acarajé, vina, pamonha, pierogui e outros quitutes. Depois toma uma cerveja no Largo da Ordem e curta à tarde antes que a noite gele o teu nariz e as tuas orelhas, pois você não vai mudar isso nos curitibanos. Curitibano é tão babaca, mas é tão babaca que até escreve um texto desses pra depois rir da tua cara. E como eu já disse essa parte de ser babaca não tem jeito mesmo. Eu sugiro a você se enquadrar e frequentar a Boca Maldita. Vá lá pra tomar um cafezinho e falar mal dos outros, pois é certeza que lá já estão falando mal de você. Se junte conosco e vamos olhar o topete das gurias. E até mais ver aspirante a babaca oficial, contamos com a ajuda de vocês para depurar o sangue da curitibíssima população local. Antes de ir pra casa passa no boteco e come um pastel com Wime ou ChocoMilk ,isso ajuda a fazer amizade por aqui, vão até pensar que você é curitibano nato.
Obs:
1) se você é carioca não convide o curitibano pra ir à sua casa comer feijoada no domingo, pois ele vai “mersmo”. Aqui não é o Rio que a pessoa convida pro outro não ir. Tô avisando não convide “mersmo”.