De tão elegante virou lobisomem.

Texto: Teodorico Gomes de Oliveira Neto

José Gomes de Oliveira era impecável. Terno bem cortado, sapatos engraxados, colete, relógio de bolso, tudo nele era capricho. Era difícil ver um homem como ele na capital. Imaginem no interior? A montaria que o conduzia era sempre de boa raça de cavalo marchador aperado com sela inglesa era bem escovado e de andadura imponente. Chegava a despertar cobiça de tão belo que era o zaino, assim também eram os cães, elegantes perdigueiros de pelo longo, bem limpo e lustroso. Bem adestrados obedeciam ao dono por gestos, palavras e assobios. O conjunto chamava a atenção quando percorriam as ruas empoeiradas de Joaquim Távora. A cor escura quase negra predominava tanto na pelagem dos animais quanto nas vestimentas do tio José. Meu tio era um homem moreno quase mouro, porte elegante, vistoso na aparência e cordial nos modos. O cuidado que tinha consigo e com o próximo o fazia andar com três lenços nos bolsos dos bem cortados ternos. Um lenço era para uso pessoal. O segundo lenço era em linho fino com o requinte de ser perfumado para servir, agradar e confortar alguma senhora ou senhorita que necessitasse enxugar as lágrimas. Sendo que o último ele usava para desempoeirar os sapatos antes de entrar em qualquer recinto comercial ou residencial. O cidadão parecia um lorde da mais refinada casta de sangue azul. Polido, elegante, distinto, bem educado e finérrimo no trato com todas as pessoas, ele contrastava com tudo que existia ali.

José Gomes um era comerciante de sucesso sem se esforçar muito par não perder á paz e o sossego. Contudo no quesito sanidade mental ele não fugia à regra da família, era meio louco igual ao resto do clã Gomes de Oliveira. Dizia meu avô, que um dia ele ficou muito feliz com um negócio fechado com absoluto êxito e altamente lucrativo. Ele tomou umas e outras, e por fim na apoteose da alegria etílica, pulou dentro de uma quinta de cachaça. Do mesmo jeito que entrou na tanoa ele saiu. De um só pulo e veloz feito um foguete. Ao mergulhar na pipa o refinado, distinto e elegante José queimou a mucosa das partes íntimas na cachaça. Enfim com o cú ardendo se viu em uma camisa de onze varas. Despiu-se e ganindo correu nu para o banho, ganinha tanto que parecia cachorro corrido de onça. Era ele um homem gentil, comunicativo e muito dado as conversas. Segundo consta ele dispensava a todos um minuto de cordial atenção. Ninguém podia imaginar esse desfecho, não cabia nele essa cena. Aliás, ele não combinava em nada com Joaquim Távora. Destoava em tudo havia na cidade. Isso fazia o povo desconfiar de meu tio Zé Gomes. O que é que um homem desses faz por aqui? Era a pergunta que todos se faziam.

Certo dia estava ele, três dos irmãos e alguns compadres a se abrigarem num varandão de um toró de verão que caía. Situado do lado direito da casa do vô Ico havia o armazém de uma cooperativa. Um barracão enorme de madeira de lei. Havia uma cobertura lateral nesse armazém, servia para que os caminhões fossem carregados e descarregados sem molhar a carga. Ele os irmãos e os compadres se abrigavam de um chuvão que se alternava em uma garoa tipo molha trouxa nesse puxado. De prosa frouxa falavam uns com os outros. Pio Gomes, Teodorico, Natanael e José papeavam com os outros homens, faziam graças, piadas e escambo. Também especulavam a vida uns dos outros como é de praxe em cidade pequena. A conversa corria solta feito um rio. Foi então que com a pulga já atrás da orelha, muito sestroso e com cuidado um freguês e compadre do Zé inquiriu ao Pio Gomes.

- Quantos irmãos vocês são seu Pio?

Fez isso falando baixo e procurando não chamar a atenção dos presentes. Pio era ladino e malicioso no humor. Ele percebeu certa supersticiosidade na pergunta do caboclo. Ele respondeu em tom fúnebre engolindo a voz e sem olhar nos olhos do tabaréu como se sentisse envergonhado.

- Somos sete irmãos seu Osório. Infelizmente nós somos sete homens.

Os olhos do capiau arregalaram-se e ele ficou pálido e afônico. Em seguida tio Pio disse-lhe ao pé do ouvido.

- É com muito pesar que eu lhe digo isso meu amigo. Mas tenho que lhe dizer a verdade. É o José. A “mardição” caiu no José. José quase não trabalha e o dinheiro vem fácil pra ele. Podia viver na Capital e com conforto, mas prefere se esconder aqui. É o Zé meu amigo Osório.

Incrédulo e atônito com o baque da notícia o vivente balançava a cabeça negativamente. Fazia isso como se a negação do fato pudesse reverter o quadro. Poderia ser qualquer um dos sete irmãos, menos o compadre José. Logo o meu compadre? José aparentava ser bom homem. Emprestava dinheiro a juro baixo aos bons pagadores. Todos lhe deviam favores no lugar. O José não meu Senhor.

Sumiu do local sem se despedir e foi alertar os outros compadres sobre o fato. Tudo agora fazia sentido. Os animais que obedeciam ao dono com devoção. Quantos devedores pagaram as dívidas com a própria alma? Só por não sabe que o Zé era lobisomem. E a mulher de José? Só poderia ter um gênio intratável, pois se é casada com lubião? Coitada da comadre Pêdra. Foi-se ele pela estrada com a cabeça fervilhando questões, respostas e possibilidades.

Desse dia em diante meu tio José passou oficialmente a ser lobisomem. A caboclada fugia dele feito o diabo corre das novenas. A figura que nada combinava com o lugarejo era o lobisomem perfeito. Terno preto, polido, diferente de tudo e de todos combinava com lobisomem. O fato que mais causava espanto é que era o único ser a sofrer de licantropia que se tinha notícia de ir à missa aos domingos. É por isso que chama o diabo de tinhoso. Tão tinhoso que ajudava o padre nas procissões e na quermesse. Tão tinhoso que era muito amigo do padre e morava na rua atrás da igreja. Por mais que José Gomes fosse cristão o fato é que tinha cara de lobisomem e isso bastava como prova. Morenão queimado do fogo do inferno, de sobrancelhas muito grossas, aquela pinta na bochecha, vestindo ternos escuros que tão bem caracterizam os lobisomens. Tudo se encaixava, só podia ser ele o lobisomem do lugar. Os animais devem ser os olhos do capiroto vigiando Zé Gomes e alegrando o capeta. Ademais, nenhum dos filhos dele contraiu matrimônio, deve ser de vergonha ou medo que os genes do lobisomem se propaguem. Na cabeça do povo tudo estava claro. Nunca ninguém apurou que era tia Pêdra que infernizava candidatos e candidatas que se apresentava. Ela se julgava a perfeição encarnada e fez seus filhos a sua imagem e semelhança. Ninguém estava à altura para desposar seus rebentos. Ela sim merecia ser lobisomem. Segundo consta era o cão chupando manga, ou melhor, era a manga chupando o cão.

Foi assim que Zé Gomes virou lobisomem ser nunca uivar pra lua cheia. Era um bom homem e como todos os homens ele também fez cagada. Por exemplo: Foi ele José quem fez o registro de nascimento dos dois irmãos mais novos de meu pai. Quando nasceu o segundo menino, ele ficou muito feliz e tomou uma carraspana pra comemorar o nascimento do segundo varão. Foi incumbido de fazer o registro do piazinho. Dessarte, no caminho do cartório o Zé ia parando de venda em venda para anunciar a boa nova. Pagava uma rodada de canha aos presentes e entornava um trago brindando o sobrinho recém-nascido. Ficou tão bêbado que esqueceu o nome escolhido por minha avó. O Zé não lembrou e não achou a anotação com o nome do moleque. Resultado, ele batizou a criança com o próprio nome, José Gomes de Oliveira Sobrinho. Nasceu mais um piá uns dois anos depois. Reincidindo no erro, minha avó mandou o Zé Gomes registrar o rebento. Ele quase não bebia e eram raras as homéricas carraspanas. Ninguém acreditava que ele fizesse a mesma cagada. Lá se foi ele de bar em bar pagando uma rodada e entornando um martelinho junto. Repetiu o discurso, o porre e a merda feita. Foi exatamente a mesma história, bebeu, esqueceu o nome escolhido por dona Cida e batizou piá com o nome do pai, Teodorico Gomes de Oliveira Filho.

Esse era o temido lobisomem tavorense. Um interiorano de hábitos refinados e vida simples. Morava em Joaquim Távora não pra se esconder de nada. Morava no lugarejo pra ficar próximo aos seus irmãos. Aliás, isso era notório entre eles, o amor fraternal era imperativo. Amavam-se como lhes foi ensinado por minha bisavó do Carmo. Erravam e se perdoavam. Aceitavam-se com qualidades e defeitos sem restrições. Considerem que era amor de macho machão. Tinha gozação, porrada, sacanagem, palavrão e até tiro pra assustar e muito carinho para com os do mesmo sangue.

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