Queimando drogas e queimando a cara.

Este sou eu queimando um fumo com a polícia. (Foto: Aniele Nascimento da Gazeta do Povo)
Queimando drogas e queimando a cara.
Plantão da Folha de Londrina no sábado. O normal era chegar as 10h00min, excepcionalmente hoje me chamaram às 08h00min. A assessoria polícia civil comunicava a maior queima de entorpecentes do estado esse ano. Segundo a informação seria na cidade de Rio Branco do Sul em um forno de calcário. Sem mais detalhes quanto ao local da queima o chefe do plantão chutou na opção mais possível. A chefia mandou-me para o forno da Cia. Cimentos Votoran, pois era o maior forno de calcário da região.
Conferi o equipamento vesti o pesado colete entrei no veículo da redação. No painel do carro o mapa do local. O motorista aguardava na boléia já de motor ligado. Zarpamos para cumprir a pauta. A estrada era perigosa e cheia de caminhões, algumas queimadas nas margens da rodovia prejudicavam a visão e a tornava mais perigosa que era de costume. Sem contratempos chegamos ao local marcado no mapa.
Desci do carro com a Nikon F5 com back digital da Kodak DCS 620 pesando meia tonelada no pescoço. Subi a escadaria da empresa, me dirigi ao setor de informações no balcão da secretaria e me reportei ao funcionário que curioso e com certo espanto me olhava atento.
- É aqui que vai ser a queima de drogas?
O cara quase caiu pra trás, de olho arregalado e surpreso retruca.
- Eu não estou sabendo de nada disso não senhor.
Fitou-me assustado, sestroso e com certa indignação. Cenho franzido e olhando por cima do aro dos óculos tinha aquele ar desconfiado tipo: “Esse cara tá tirando uma com a minha cara”. Eu insisti na pergunta.
- Ué!!! O senhor não está sabendo de nada? Recebi a informação que hoje haveria a maior queima de entorpecentes do ano. Confere aí com teus superiores se não sabem onde vai ser.
Ele muito solícito ele passou a mão no telefone e atendeu meu pedido. Ligou umas duas vezes e voltou balançando a cabeça negativamente.
- Ninguém tá sabendo de nada não. Nem meu chefe e nem o chefe dele.
Voltei ao carro e conferi o mapa e o lugar era esse mesmo. Procurei o release e nada confirmava o exato local. Retornei ao balcão e pedi que confirmasse a informação negativa com o engenheiro chefe responsável pelos fornos. Ele ligou e novamente me disse que não era ali na sua honrada empresa que iriam queimar drogas.
Liguei para a redação comunicando o fato e pedindo novas informações sobre a matéria. Falei com o repórter que iria escrever a matéria, ele me pediu para aguardar e reportou-se ao responsável pela pauta. Ouvi o cara afoito com outras recém-surgidas matérias dizer, que era lá mesmo e fim. Eu que me virasse. Voltei até a secretaria e submeti o atencioso funcionário a fazer todos os telefonemas novamente e além dos já realizados outros que eu imaginei na hora. Ele com muita paciência ele atendeu meu pedido e a resposta continuava negativa.
Novamente liguei para a redação, dessa vez disquei direto para o ramal do chefe do plantão.
- Aqui é o Suassuna, confirmei todas as alternativas possíveis e a resposta é a mesma. NÃO É AQUI QUE A POLÍCIA VAI QUEIMAR DROGAS.
- A informação que eu tenho aqui é que é aí mesmo. Volta lá e confere mais uma vez Suassuna.
Retornei mais duas vezes ao balcão de informações. Submeti o atencioso funcionário refazer todos os telefonemas e a resposta era a mesma. Eu ligava para o jornal, o chefe insistia que era ali, eu voltava ao balcão, o atendente repetia as ligações e até o sábado do chefe de todo setor foi interrompido em busca do local onde iriam queimar as drogas. Ligo mais uma vez para a redação.
- Não é aqui. Já fiz de tudo ao meu alcance e não é aqui.
- Volta lá Suassa. Por favor, essa matéria é NQM (nem que morra) recomendada pelo patrão.
Subindo a escadaria rumo ao setor de informações assim que abri a porta de vidro ouvi o funcionário já sem paciência nenhuma gritar.
- EU ACHO É QUE ESTÃO QUEIMANDO DROGAS É LÁ NO JORNAL DE ONDE O SENHOR VEIO.
Envergonhado e rindo muito voltei até o carro e comuniquei ao chefe. Um abençoado repórter estagiário localizou a assessora da Polícia Civil que passou a informação correta.
Já era quase meio dia quando cheguei ao forno e por minha sorte a queima era realmente grande, havia mais de duas toneladas de maconha, cocaína e lança perfume a serem lançadas ao forno. Feita a foto retornei ao jornal. Tudo certo, ninguém vai pra rua e nossas cabeças foram salvas da decapitação. Fotos enviadas, edição rodada e a foto da capa no domingo era a minha. Ufa !!! Essa pauta deu trabalho.
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