O Flamengo está mudando

Esqueçam esta história de craque que destrói um jogo sim outro não. A moda agora é padrão de jogo, e o Flamengo parece que, até que enfim, a aderiu. Após a derrota mais estranha dos últimos tempos rubro-negros, o time comandado por Jayme, ooooo auxiliar, venceu o Galo. Até ai tudo normal. Porém, houve algo diferente: o Flamengo convenceu. Não, não foi por causa de placar elástico, porque não houve um; nem por causa dos dois gols do atacante da base, o Videus. Muito menos por causa da vitória contra um adversário direto na luta pelo título, o Galo, de elenco tão exaltado do Iapoque ao Chuí. O Flamengo, depois de anos, apresenta um padrão de jogo, e isto é algo para aplaudir de pé!

Isto é convincente. No Brasileiro, sempre tem se exaltado equipes que apresentavam um padrão de jogo bem estipulado. “O Brasileiro de pontos corridos exige isto”, todos dizem. Nós, Flamengo, estamos acostumados a craques. Ganhamos um Brasileiro de forma totalmente irregular. O Flamengo não gosta de padrão, ele busca um craque. Mesmo que o cara não seja realmente um craque. Estamos acostumados a termos jogadores definindo partidas, com jogadas individuais, lances para serem lembrados pelo imaginário rubro-negro. Quando nada acontecia como era nos outros times, o Obina marcava três gols. Quando o placar parecia estranho, Botinelli acertava no ângulo. Ou Adryan marcava e decidia. Ou então Mateus, Rodolfo, Rafinha, Love. Mesmo entre aqueles que tem presença garantida no panteão dos craques, como Pet, Adriano, Romário e outros mitos, o Flamengo continuava dependendo de um nome, de uma jogada, de um bom momento.

Contra o Atlético Mineiro, a situação era desanimadora. Quatro desfalques, contra um time que havia deixado de lado a má-fase e já rondava as primeiras colocações. Em Brasília. Quem não se lembra de Coritiba 2 X 1 Flamengo, no Mané Garrincha, ou mais recentemente o jogo contra o Palmeiras? Triste retrospecto. Vamos tornar o panorama mais pior. Uma derrota de 4 a 0 para o Corinthians, técnico expulso, sem os principais jogadores do meio para a frente. Fora isto, um time que tem dificuldades para encontrar um modo de jogar, que mesmo com contratações e um dos técnicos mais vitoriosos do país (Muriçoca) foi eliminado da Copa do Brasil por um time da 3ª divisão. E, se tudo isto não bastasse: Márcio Araújo e Fernandinho no time titular, além do intocável Cirino. Ninguém apostaria no Vizeu no Cartola. O panorama era péssimo. E o Flamengo venceu. Mas porquê?

O Flamengo faz um excelente Campeonato Brasileiro. Se Zé Ricardo fosse o treinador contra o Fortaleza, não teríamos sido eliminados, possivelmente. Mesmo com derrotas, o time tem jogado bem. Mas o flamenguista não é acostumado com isto. Aliás, nos últimos anos, nunca precisou jogar bem para ganhar nada. A responsa era de alguns, e sempre pingavam alguns pontos. O Flamengo agora tem uma coisa chamada padrão de jogo. Repare nas críticas dos comentaristas esportivos em relação ao Flamengo. São todas relacionadas a peças, falando sobre o Guerrero que não decide, os estrangeiros que não jogam, o técnico que é semi-interino. O Flamengo não tem nada que se assemelhe aos times do passado. E isto está dando certo.

Jayme até falou sobre isso na coletiva da vitória. Que agora o Flamengo tem uma forma de jogar. Isto é o principal. Mesmo com quatro substituições no time dito titular, o time conseguiu se segurar defensivamente e propor o jogo. Esqueçamos o que aconteceu na Arena Corinthians após o primeiro gol do Romero. O Flamengo está com uma forma definida de jogar futebol, e isto o habilita a olhar para cima. Seja o 4–3–3, ou o 4–1–4–1, ou uma versão do 4–4–2 em alguns momentos, o Flamengo tem uma forma de jogar que vai além da formação tática. Os jogadores, do Pará ao Vizeu, do Rodinei ao Guerrero, sempre estão marcando, ou voltando. No meio, a linha de volantes com os pontas está sempre marcando, defendendo. Na hora de sair, os jogadores sabem se posicionar para receber. Coletivamente, independente da formação, o time se posta firme defensivamente, se apropriando do contra-ataque e da velocidade dos seus pontas e laterais. Sem contar que os jogadores estão sempre mordendo o adversário, não do jeito do Suarez, claro. Quando um adversário está com a bola no campo do Flamengo, ele não tem paz. Sempre Arão dá um bote, ou o contestável e incansável Márcio Araújo. Jogando assim, fica mais fácil para a zaga. Réver e Vaz tem jogado bem, excetuando os erros pontuais. Bola aérea não tem sido mais um pesadelo. Resumindo, defensivamente, o Flamengo está bem postado. Com a linha de quatro no meio fazendo um trabalho defensivo forte.

Isto é o que o Zé Ricardo disse que faria. Em uma de suas primeiras entrevistas, ele afirmou que, como na base, iria dar uma ‘base’ para o time, e que o resto iria se desenvolvendo. Isto é o que vimos neste domingo, diante do Galo. Isto é o que vimos neste Brasileiro. Uma forma de jogar, que mesmo alterando as peças, não se altera. Se nos dará o hepta, ai é outra questão. Temos elenco, temos jogadores bom, é um dos times que mais se reforçou, e reforçou bem. Os gols irão sair, e as vitórias virão. Seja por goleada ou no sufoco, ganhando de 1 a 0, se defendendo bem, mas que seja esta a nova realidade do Flamengo. Valeu Zé!