‘Tirar doce

da boca

de criança’

Não lembro bem a idade, devia ter uns três, quatro anos apenas. Estava em Fortaleza, no centro da cidade, com meu pai e minha mãe. Esta foi uma das minhas primeiras experiências com compras, e com um sentimento que conheci bem no decorrer da minha vida: a frustração.

Não tenho muitas lembranças daquele episódio, só alguns sentimentos que são traduzidos como imagens na mente. Já perguntei para meu pai e minha mãe sobre esse dia. Eles não se lembram. Para eles, pode ter sido um dia comum. Mas para uma criança, não.

Lembro do sol, típico de Fortaleza. Lembro das lojas, apinhadas de gente. Promoções, produtos em exposição, muito barulho, muita bagunça. Imagino que meu pai e minha mãe iriam comprar itens para a casa, um eletrodoméstico novo, roupas de cama, toalhas, algo do tipo. Não fiquei muito tempo em Fortaleza depois disso, e não creio que relembraria o lugar hoje se o visse. Mas, fomos entrando de loja em loja. E em um momento da caminhada, algo me chamou a atenção.

Brinquedos.

Vi uma prateleira com vários brinquedos, e queria alguns. Por mais que hoje agradeça a Deus a criação que tive, as coisas que não tive e as lições que aprendi, naquela época eu queria tudo e achava que poderia ter tudo o que eu queria, assim como qualquer criança pensa. Este pequeno ser tem o instinto de querer tudo o que é colorido, brilha ou faz barulho. Não sei se foi a primeira vez que via uma loja de brinquedos, ou algo do tipo, mas é a lembrança que eu tenho. Uma lembrança mais de sensações do que de imagens. Lembro que queria. Lembro que me sentia feliz. É semelhante a sensação que tenho hoje quando estou comprando algo que eu queria muito, uma sensação de felicidade e poder. E eu peguei alguns itens da prateleira. Uma caixa quase do meu tamanho.

Uma das caixas era de Lego, disso eu lembro. Passei para a minha mãe. Não lembro o que ela e meu pai conversaram. Mas ela pegou as caixas que eu havia passado para ela, isso era um bom sinal. Aprovação na escolha. Pronto! Eu havia escolhido algo e ganharia aqueles presentes. Não sei quanto a vocês, mas esta sensação e muito boa. Imagina em uma criança de três anos que pela primeira vez entende que existem mais brinquedos do que a sua caixa de brinquedos pode conter. Estava fascinado. Acho que escolhi uns cinco brinquedos, e lembro de ir para o colo da minha mãe. Lembro do colo, eu olhando sobre o ombro da minha mãe. Hoje na minha mente, depois de tantos anos, me visualizo entrando no elevador, olhando para o meu pai. Ele ficou ainda no caixa, passando os itens que havíamos acabado de comprar, passando os meus brinquedos, e eu estava indo embora. Era elevador mesmo ou uma escada? Só lembro do meu pai falando que pegaríamos os brinquedos depois. Descemos.

A primeira vez marca. Mas sensações marcam mais do que uma primeira vez.

Lembro do primeiro gol de placa que fiz, e não do primeiro gol, pela sensação de ser o melhor entre um grupo. Já estava em Minas. A bola veio do alto, eu dominei, já dando um ‘chapéu’ no primeiro marcador. Completei com um segundo ‘chapéu’ no marcador da frente e chutei em direção ao gol antes da bola cair. Lembro dos pais dos meus colegas falando ‘que golaço’. As outras lembranças do futebol foram gols perdidos. Depois foi o meu nome sendo falado por último na escolha dos times. Depois, não mais futebol. Mas o primeiro gol de placa marcou mais do que o primeiro gol, do qual não faço a mínima de quando foi, se foi em Minas ou no Ceará.

Imagino que pode não ter sido a primeira vez que fui para o centro de Fortaleza com meus pais. Imagino que pode não ter sido a primeira vez que pedi brinquedos. Imagino que devo ter chorado nas outras vezes, com as respostas negativas de meu pai e da minha mãe. Imagino que minha mãe deve ter mudado a ‘estratégia’. Na minha mente, lembro (não sei se real ou se eu queria que fosse real), da vendedora embrulhando os presentes. Lembro de ter questionado meus pais depois, já fora da loja, sobre os presentes, obtendo a mesma resposta: “pegamos depois”.

Não sei se chorei ao chegar em casa e não ver os presentes.

Mas entendo ali como meu primeiro momento de frustração do qual tenho lembrança.

Anos depois, ganhei o Lego que tanto queria, possivelmente presentes de alguém. Tinha um balde com várias peças em casa, mas isso já em Minas. Só que hoje eu não me lembro direito do brinquedo, nem do que montei com ele. Se for olhar, das poucas lembranças da minha infância mesmo, uma das mais nítidas é esta. A escolha, o conquistar (mesmo que por um segundo), o poder, e a frustração.

Anos depois, lembrando deste episódio, entendo a lição. Mas naquela época, só queria não estar frustrado. Hoje sei que Lego é caro pra caramba. E ainda adoro entrar em lojas de brinquedos.

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