A encruzilhada no fim do mundo — Parte I

O véu negro ocultava as cintilantes estrelas naquela noite, pertencendo ao céu somente densas nuvens dançantes na plena escuridão.
Sentada embaixo de uma árvore que a ventania chicoteava, Liadan observava o voo de uma bela coruja adentrando o nebuloso céu em busca de alimento, deixando seus filhotes no ninho protegido por folhas de um comprido galho. Ajeitou-se melhor no tronco, arrumou o tecido que tinha usado para sentar e fitou com os olhos cerrados para alguns arbustos de onde vinham sussurros, que sem nenhuma explicação cessaram bruscamente, como se algo tivesse o abafado. De supetão, um velho e cansado lobo surgiu detrás dos arbustos com o rabo entre as pernas, nada de estranho que os olhos de Liadan nunca viram.
— Achei que fosse algo interessante, já faz horas que minha espada não corta a garganta de uma criatura. Isso está ficando entendiante. — riu, aconchegando-se cada vez mais em um velho trapo que havia encontrado por acaso em sua sacola, soltando risinhos enquanto balançava a cabeça incrédula.
A noite caia calma, sem pressa, mostrando que o tempo naquele momento não importava. As nuvens flutuavam vertiginosas, as árvores agitavam-se criando um aconchego como se estivesse em casa, em sua casa. Ela morava em qualquer lugar, em qualquer árvore, qualquer chão, qualquer trapo velho que encontrava com sorte pelos becos de Kinalet, pois esse era o seu destino por ter nascido uma caçadora de criaturas. Esse era seu destino e não podia fugir — ninguém pode.
O ar gélido impedia que os finos trapos jogados em seus ombros lhe dessem proteção, deixando cada parte do seu corpo rígido pelo frio intenso, fazendo-a imaginar o quão maravilhoso seria uma fogueira bem alta e calorosa onde pudesse fazer seu mingau e preparar alguns unguentos que precisava; mas o vento estava muito forte e a fogueira apagaria em segundos. Fechou os olhos, deu um longo suspiro e caiu em si, notando que a única opção naquele momento era construir um abrigo improvisado que levaria muito tempo para ficar pronto, mas se caso não o fizesse, poderia morrer antes do amanhecer — não havia outra opção a não ser aquela. Espreguiçou-se e levantou meio a contragosto, tomando coragem para embrenhar-se em uma floresta desconhecida em seu total breu, sentindo o estômago revirar com a possibilidade de algo dar errado antes de finalizar sua tarefa. Verificou novamente a sua espada, as adagas e as flechas — como se já não tivesse as polido e afiado quando chegara ali — , jogou de qualquer jeito algumas coisas em seu bornal e ajeitou suas vestimentas, pondo-se em direção aos arbustos onde seguiu uma trilha que não fosse tão perigosa.
Nada podia se ver ou escutar ali, a floresta era um imenso vazio em que qualquer coisa poderia ouvir sua mente.
A Floresta de Eagan era famosa em todas as regiões próximas de Sieera, existindo memoráveis contos e cantos sobre suas trilhas traiçoeiras e como a escuridão engolia seus visitantes em uma tristeza profunda. Enquanto tentava procurar um pedaço de madeira para fazê-lo como tocha ficou relembrando como molhava as calças só em ouvir esse nome, achando graça do seu próprio destino ao estar exatamente nela naquele momento, um lugar desconhecido e desagradável, tentando apenas fazer um abrigo para proteger-se do tempo. Fechava os olhos, abria, fechava-os com força, abria novamente e só o que via era apenas a escuridão como um infinito; e talvez fosse o lugar entorpecente, sua própria mente ou um pouco de tudo, mas algo estava lhe seguindo desde que adentrou na floresta. Talvez fosse uma coruja. “Seria uma coruja? A mesma coruja? Por qual motivo? Corujas nunca ajudariam um caçador.” Pensava Liadan, tentando decifrar o vulto esbranquiçado que rodopiava mostrando-lhe uma direção, dizendo que agora era sua vez de segui-lo e que era o único momento de confiar.
Não deu-lhe tempo de pensar, quando deu por si seu caminhar já começava aumentar involuntariamente sem que pudesse controlar, indo em diversas direções, correndo como se uma criatura horrenda estivesse lhe caçando. Foi ficando cada vez mais sufocada com o ar esmorecedor quando finalmente caiu de joelhos em um lamaçal, o corpo lavado de suor e o nariz vertendo em sangue, ficando entregue ao chão onde finalmente conseguiu cogitar que algo estranho estava acontecendo. A coruja que controlava os passos de Liadan era um receptáculo de uma magia rara e antiga, que somente consegue ser feita do mago para o seu receptor através de um ritual de sacrifício pouco praticado em Vannka por reger diversos elementos da magia negra, e ela só queria saber naquele instante o que fez para que recebesse aquele castigo. Mas estava tão estafada que a única coisa que conseguiu fazer foi deitar-se no chão imundo e ficar olhando para o céu enquanto ele girava. Naquele céu ela via raios caindo, via lampejos, via chuva. Finalmente, após um longo dia como andarilha na floresta traiçoeira, a chuva caia.
Seu corpo repousava suave na lama como se fizesse parte daquela natureza morta. Nada poderia acordá-la até que a chuva cessasse, pois em seu interior ela foi um presente do seu destino para curá-la e pedir-lhe perdão por tê-la feito como é. Pensou estar em um paraíso, mas por breves momentos de paz quase esquecera que fazia parte de um inferno, um inferno que tinha voz e gritava em seu subconsciente pedindo por ajuda. Pedindo por ajuda… ela não sabia porque pediria ajuda para sua própria consciência. Sua consciência, ela não lembrava de ter uma consciência. Sua consciência não estava ali.
— Minha consciência! — disse aos berros arregalando os olhos como se acordasse de um pesadelo, pondo-se sentada de qualquer jeito quando uma luz forte que emanava do horizonte machucou suas pupilas. — Essa luz… alguém está em perigo. Tudo foi real.
Levantou-se com muita dificuldade cambaleando por uma trilha que seguia o misterioso grito, onde levava até em uma encruzilhada no fim do mundo. Nunca tivera em um lugar como aquele antes, uma mistura de paraíso e purgatório, ora com cores verdes como as matas e ora sem cores como um vazio. Os gritos dissiparam quando Liadan chegara no centro da encruzilhada, onde lá nada mais existia — nada mais pertencia ali. Um pingo de sangue caiu e em sua mão escorreu, seu nariz ainda sangrava e por suas veias a magia corria, e sem chorar Liadan sabia que se não fizesse o que fora desejado no ritual sua alma e o seu corpo seriam pagamentos da dívida, mesmo ela sendo inocente, mesmo ela sendo a vítima. Encheu os pulmões de ar e empunhou a espada com cuidado, chacoalhou um dos bolsos do seu casaco encontrando um pequeno vidro verde que serviu para embainhar a lâmina com veneno, ficando imóvel ali mesmo, onde aos poucos surgiam das sombras alguns rostos que conhecia. Não esperava por aquilo. Não desejava para ninguém uma inimiga como ela. Ninguém sabia o ódio que a cegava, a vingança que crescia em seu peito como fogo em palha que naquele momento pouco importava se era seu próprio sentimento ou o controle da magia, alguém iria morrer fosse por isso ou por aquilo.
O primeiro rosto foi revelado para Liadan, surgindo em sua frente um dos guerreiros do reino. Um homem alto, forte e destemido, segurando em suas mãos uma das mais diversas armas tecnológicas que pertenciam ao outro povoado de Sieera, o Aeryn. Se entreolharam remoendo um passado mal resolvido.
— Abban, você aqui. Quanto tempo, não? — Liadan olhou para a espada em suas mãos mostrando um malicioso sorriso entre os dentes cerrados. — Lembra-se dela, não é mesmo? Ela quase matou você na Montanha do Vale, mas hoje isso não será mais um problema e você nunca mais matará qualquer pessoa que seja próxima a mim.
— O rei manda, eu mato, se ele mandou jogar aquele seu amigo mago no covil das cobras é porque não era de confiança. E veja só, pegamos outro também — disse Abban inquieto enquanto carregava uma outra arma, olhando com admiração o material tão reluzente e limpo, pronto para ser disparado. — O reino paga-lhe uns bons bocados para que consiga comer pelo menos um mingau decente, com tanto que faça direito o seu trabalho e se livre de todas as criaturas que rondam por aí. Não interessa se é boa ou má, você nasceu para dar cabo disso. Quando Vannka dominou Osfrig, o seu tipinho deveria trabalhar apenas para o reino. Não importa se um banqueiro ou fazendeiro quer lhe pagar para acabar com um imaginário fantasma, você existe para fazer com que as pessoas acreditem que não tem nada aqui fora e muito menos lá dentro.
— Por que toda vez que vamos lutar você abre a boca e não para mais? Feche a matraca! Não estou interessada em escutar o que já sei. Somos farinha do mesmo saco, Abban, só matamos coisas diferentes, mas no fundo vamos para a mesma cova dos desgraçados — segurou firme o cabo da espada soltando uma gargalha, pronta para grudar-lhe no pescoço como um animal defendendo o seu alimento. — Vamos logo acabar com isso.
Os guerreiros do reino eram extremamente habilidosos com tecnologia por serem providos disso, mas não existia força maior e melhor que os caçadores de criaturas no requisito agilidade e esquiva. A luta começara e Liadan consegui desviar-se antes que as balas da arma de Abban alcançasse seu pé, pegando impulso para chegar mais perto e desferir-lhe um golpe certeiro no estômago, aprofundando a lâmina até ultrapassar seu corpo. Como um relâmpago, viu-se entre outros dois homens que surgiram como reforço quando Abban fora golpeado a primeira vez, rodopiando entre eles dando chutes e socos aonde conseguia. Seu nariz sangrava, seus braços possuíam cortes profundos e uma de suas panturrilhas estava com o osso exposto, mas toda dor era válida quando deu-se por aqueles invencíveis e temidos guerreiros caídos, mortos ao seus pés. Foram esfaqueados e mutilados por Liadan, a caçadora.
— Aprendam, seus infelizes! Serão sempre punidos se ousarem tocar em meus protegidos. — limpou a garganta e cuspiu nos corpos esticados ao chão.
— Ora, ora, ora, vejam só! Liadan não é mais caçadora de criaturas, também é caçadora dos guerreiros do reino. — sussurrou uma voz que ecoava pela floresta, tão familiar quanto os rostos daqueles que matara.
Ao longe uma sombra ao chão de um homem esguio se formava, destacando que uma de suas mãos segurava uma cabeça decepada e na outra uma arma.
— É aqui que tudo começa, Liadan. — disse a sombra.