O Livro da Vida: Como Harry Potter me ajudou a superar a fobia social

algum tempo atrás, na faculdade, foi pedido da minha turma um trabalho diferente e interessante. Deveríamos escolher, dentre todos os livros que já havíamos lido ou conhecido, o nosso Livro da Vida — um livro, de literatura ou não, que tivesse nos marcado a ponto de mudar nossas vidas de uma forma significativa. Quando comecei a pensar em qual seria meu livro da vida, tinha muitos em mente. O Pequeno Príncipe, que é um livro muito importante para mim, lido quando era pequena e relido todos os anos desde então, era um forte candidato. O Livro da Sabedoria, do Dalai Lama, comprado numa livraria de rodoviária, também estava na corrida. Vários livros me marcaram, cada um de uma forma. Mas nenhum como Harry Potter.

Quando era pré-adolescente, comecei a desenvolver o gosto por leitura com ajuda do meu irmão mais velho, que me emprestava seus livros velhos e amarelados para matar minha curiosidade. Porém, o hábito só surgiu em mim de verdade quando meu avô me presenteou com o primeiro livro de Harry Potter. Meu avô sempre foi péssimo comprando presentes, mas esse ele acertou em cheio. Li o livro em três dias, e logo parti para o segundo. Não tínhamos muito dinheiro, então eu precisava esperar dias entre o término de um livro e a compra de outro. Como a abstinência me matava, relia os livros anteriores da saga repetidamente por semanas até ganhar de presente o próximo. Daí surgiu uma paixão que guardo e releio até hoje.

Mas a principal adição de Harry Potter à minha vida não foi a introdução à leitura — foi a confiança, que veio por vários caminhos. Eu fui uma criança com poucos amigos, sempre preferi brincar sozinha, ficava (e fico) extremamente nervosa falando com as pessoas; era claro que fazer amizades nunca foi o meu forte. Só anos depois descobria que o meu problema não era timidez, e sim um tipo de fobia social não muito grave, mas ruim o bastante para fazer com que eu entrasse em pânico ao falar no telefone ou conhecer pessoas novas. Na pré adolescência, com todos aqueles hormônios e sentimentos fortes, eu me sentia extremamente sozinha. Riam de mim na escola, das roupas que eu usava, do meu peso e por usar óculos, e isso não ajudava em nada a minha dificuldade de interação. Eu me encolhia no meu canto na sala de aula e evitava falar ou olhar para qualquer pessoa, dentro e fora da escola. E aí chegou Harry Potter. Como a paixão pelo universo potteriano entrou na minha vida junto com acesso à internet, a primeira coisa que fiz foi procurar por mais informações e curiosidades online. Era a era de ouro dos fakes no Orkut, e não demorou muito até eu ter meu próprio perfil como Hermione Granger. Era uma diversão boba e inocente, mas incrivelmente acabei fazendo amizades. Pessoas da mesma idade, que gostavam também das obras de JK Rowling. Que, assim como eu, não tinham muitos amigos e preferiam ficar em casa lendo. Na época, conheci muitas pessoas por esse meio, mas duas permanecem até hoje, mais de 7 anos depois.

Em muitos momentos difíceis, crises de ansiedade, depressão, rejeição por parte do meu pai (leia sobre isso aqui), eu corria para o computador ou o celular, e lá estavam esses dois irmãos que Harry Potter me deu. O tempo passou e eu pensava “Não sou tão estranha. Se existem pelo menos duas pessoas com os mesmos problemas e interesses que eu, eu posso me arriscar e tentar ser sociável.” E com muito esforço, ignorando as mãos tremendo e o coração pulando para fora do peito, eu comecei a me arriscar. E eventualmente eu consegui. Essa segurança dada pelo apoio de duas pessoas que eu nem conhecia pessoalmente me levou a acreditar em mim mesma, a não me abalar tanto pelas risadas dos outros, e eventualmente essas risadas pararam — ou talvez seja eu que nem mais as ouço, pois não me importam. Podem rir, vão em frente. Há pelo menos duas pessoas no mundo que me amam, nada mais importa. E, sabendo disso, eu soube também que poderia fazer tudo que quisesse.

Confesso que é envergonhante escrever sobre isso. É bobo que uma série de livros infanto-juvenil tenha tamanha relevância para alguém, mas a importância de Harry Potter na minha vida não está na história, nas mensagens que ele traz ou qualquer outra coisa ligada ao seu conteúdo. A importância está na paixão que ele despertou numa menina de 12 anos, essa paixão tão forte que a fez querer atravessar suas próprias barreiras e chegar a ser quem ela é hoje — que com certeza não está nem perto do ideal de pessoa, mas ao menos chegou mais longe do que teria chegado estando fechada num quarto, chorando, se culpando pela falta do pai e com medo de ir à escola.

Essa é a história do meu Livro da Vida. Qual é a sua?


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