Diário de Intervenção | México | relato 1

Cidade do México, 9 de outubro

Da janela do avião, o tamanho da cidade do México já impressionava. Chegamos num domingo tranquilo e o trânsito parecia o mesmo de uma segunda-feira em São Paulo. 
 
 O time todo se juntou à noite para o jantar e logo em seguida para um pequeno encontro de apresentações. Raquel (de Piracicaba) e eu, do Brasil; Diana e Helena, da Espanha; Juan Pablo, da Argentina; Bob, da Holanda; Angelica, mexicana que vive nos EUA; Mathias, Christopher, Jörg e Bernd Ruf, da Alemanha. Sebastian, do Chile chegou hoje!

prédio destruído pelo terremoto na Cidade do México

Antes de irmos à universidade, pudemos visitar algumas construções que desabaram. Foi realmente triste ver o estado em que ficou a escola Enrique Rebsamen. Mais de 20 crianças morreram naquele lugar. O estado do escola é realmente desesperador! A polícia está cercando o local, pois os vizinhos não estavam tendo sossego. Muitas pessoas chegando para tirar fotos. 
 Pude visitar os escombros com o Bernd, pois entenderam o nosso trabalho. A única coisa que pediram foi que não tirássemos fotos. De lá ainda fomos visitar um centro de acolhida às famílias que perderam suas casas. Tudo bem organizado. Estamos vendo a possibilidade trabalhar com eles.

Fomos para a Universidade Iberoamericana da Cidade do México. Incrível o lugar! Lindo mesmo! Aconchegante, muita grama para sentar,cantinhos para estudar, cafeterias, refeitórios. Vários teatros. Uma verdadeira cidade. 
 
 O auditório que nos foi cedido estava lotado: 160 pessoas e havia muitas do lado de fora esperando. Uma outra sala foi aberta e outras 40 puderam assistir através de uma transmissão. 
 
 As pessoas ficaram muito animadas com a palestra do professor Bernd. Logo em seguida, fizemos vários grupos de conversa onde as pessoas podiam se expressar, caso quisessem, sobre o que vivenciaram, como estavam no momento e como estavam seus familiares.

O seminário de pedagogia de emergência reuniu cerca de 200 pessoas na Universidade Iberoamericana da Cidade do México, entre educadores, assistentes sociais e cuidadores

Sebastian e eu coordenamos um grupo de quase 50 pessoas e eu fiquei impressionado com a confiança delas. Muitas falaram abertamente sobre o que aconteceu. Algumas disseram se sentir tão desprevenidas. Não sabiam o que fazer. Congeladas. Culpa por não saber como ajudar os outros e, por isso, enfrentavam muitos conflitos internos. Bloqueadas. Oprimidas. Impotentes. Outras perceberam que ainda não tinham se curado do terremoto de 1985. Mas outras também nos disseram não saber de onde tiveram tantas forças para fazer o que fizeram. Muitas só perceberam o tamanho do perigo depois que chegaram em suas casas e viram tudo pela televisão. Outras só conseguiram chorar depois de 5 dias.

No momento, muitas se encontram inquietas, inseguras, sentem a terra tremendo o tempo todo, ficam com medo. A maioria do grupo, no entanto, se sente mais fraterna, mais unida com suas famílias e amigos. Outras portas se abriram…

Como não tínhamos espaço para as oficinas, decidimos fazer duas. O Jörg fez uma oficina com 40 participantes e eu assumi os outros 160. Para mim, foi muito divertido! Aos poucos foram todos se soltando, os sorrisos começaram a ficar mais fáceis e leves. No final, estávamos fazendo piadas uns com os outros. A turma do Jörg desceu e ainda pudemos fazer um ritmo com 200 pessoas…


Reinaldo Nascimento, terapeuta social, educador físico e cofundador da Associação da Pedagogia de Emergência do Brasil, coordena uma intervenção internacional de pedagogia de emergência que está acontecendo no México.