Diário de Intervenção | México | relato 3

Jojutla, San Andres de la Cal y Cuernavaca, 15 de outubro de 2017

Reinaldo em ação com crianças que estão num abrigo da cidade de Jojutla, que teve 6.000 casas danificadas

Não são os dias que passam rápido, é quantidade de trabalho que temos no momento que é enorme. Muitos seminários, todos lotados, com mais de 200 pessoas. Nem sempre há espaço para as oficinas e, às vezes, temos três grupos de 40 pessoas numa mesma quadra (durante uma chuva torrencial!). No final das contas, tudo se resolve e fica bonito!

O terremoto aqui no México está mexendo com muitas coisas. Muitos mexicanos nos dizem que o desastre tocou em feridas que estavam abertas há muito tempo. A política não está bem, a educação e a saúde também não. A situação social e política anda bem turbulenta. “O terremoto aconteceu para nos mostrar que do jeito que estamos vivendo não dá mais!” diz *Bruno.

Muitos educadores relatam que se sentem bastante sozinhos. Ainda sentem muito medo e não conseguem expressar o que sentiram durante os tremores. Relatam a sensação de que muitas feridas cicatrizaram sem serem realmente curadas. Muitos querem ajudar seus pares, pois sabem que, apesar de terem perdido tudo, foi menos do que outros. Muitos agradecem por estarem saudáveis, pois percebem que outros tantos estão ficando doentes. Eles agora querem se preocupar com coisas que valem a pena!

Os escombros ainda estão por todo lado na cidade de Juchitán

A preocupação com as crianças também é grande. Muitas estão assustadas e não querem voltar para as escolas. Há histórias bem tristes. Tenho visto pais agressivos com seus filhos. Alguns chegaram a bater neles na frente de outras pessoas. Ninguém sabia o que fazer.

Nosso trabalho tem sido recebido de abraços abertos. Os educadores se alimentam das palestras e, principalmente, das oficinas. Nos acolhem com carinho, sempre perguntando se estamos bem, se estamos dormindo e comendo bem. Sempre há educadores querendo saber o significado das canções, me pedindo para cantar mais uma vez e repetir os movimentos. No dia seguinte, querem saber como tirar a canção da cabeça. Alguns me dizem, orgulhosos, que cantaram para os filhos e sobrinhos e que agora querem aprender uma canção nova.

O Bernd e o Christopher foram para São Francisco. Nós três tínhamos um seminário agendado lá, mas, com a situação no México, decidi me focar somente aqui. Com isso assumi o grupo e pude dar a minha primeira palestra em espanhol (portunhol) no seminário em San Andres de la Cal. Foi um momento bem especial. 
 No final, muitas pessoas vieram dizer que gostaram muito, que se sentiram próximas e que nossos países realmente precisam trocar mais experiências e informações. Muitos também quiseram saber sobre os projetos no Brasil e como poderiam fazer estágios. 
 
 O mais bonito mesmo foi no final, quando estávamos dentro do ônibus para voltar ao hotel. Ao passarmos pelos participantes do seminário, eles começaram a cantar a música que aprenderam conosco de uma forma bem bonita e alegre!

Jojutla é uma cidade muito pequena, tem 57.000 habitantes. Antes do terremoto, pouco se falava nela. Mas com os tremores, mais de 6.000 casas ficaram danificadas (2.000 serão demolidas em breve).

Garotos desenham em Juchitán

Uma imagem que está bem presente na cabeça e no coração das pessoas é a de um policial que encontrou os corpos de duas pessoas — uma mãe e seu bebê. Ele ficou tão impressionado que não conseguiu conter as lágrimas. Muitas pessoas do povoado foram abraçá-lo. O esposo da mulher encontrada, pai da criança, enviou a esse policial uma linda mensagem de agradecimento por ter dado a ele a oportunidade de se despedir de sua família!

O abrigo que nos convidou para o trabalho acolhe mais de 250 pessoas. Elas foram instaladas num clube municipal. Tudo está bem organizado. As crianças estão sendo bem preservadas por seus familiares. Como várias escolas permanecem fechadas para vistorias, diversas famílias enviaram seus filhos para casas de parentes em outras cidades.

O trabalho com as crianças tem sido bem tranquilo. Há muitas bem assustadas. Algumas não estão falando. Outras se escondem debaixo da mesa. Eu pude me dedicar um pouco mais ao Juanito (inventei o nome!), um garotinho de 4 anos super agitado. No começo, ele só queria cortar as coisas. Todos os papeis e linhas que encontrava. Cortava com agressividade. Depois se transformou num cachorro. Latia e queria pegar as coisas do chão com a boca. Juanito é bem magrinho. Num determinado momento, ele se aproximou e sentou no meu colo. Eu o levantei e ele ficou feliz. Fizemos isso várias vezes. Quando o coloquei no chão novamente, Juanito voltou a sentar no meu colo e começamos a brincar com as folhas de revista que ele havia cortado.

As crianças se encantam pelos tecidos coloridos

Os pequenos se apaixonam pelos panos. Fazem casinhas, bonecas, capas de super-heróis. Outros simplesmente seguram e ficam olhando as cores. Os mais jovens têm se divertido com o paraquedas e com as brincadeiras de ritmos. Amanhã viajaremos para Oaxaca. As coisas por lá não parecem nada bem. Os tremores ainda são constantes. Variam de 3.8 a 5.6. Lá deveremos trabalhar somente com crianças e jovens e não daremos mais seminários. Hoje testamos nossos capacetes, walktalks, coletes… Estou feliz por me sentir seguro e tranquilo. Às vezes me pergunto como seria sentir um terremoto novamente. Tenho ainda bem clara na minha cabeça e no coração aquela sensação de não ter mais o chão embaixo dospés. Mas a alegria de saber que há muitas crianças nos esperando traz força. O terremoto fica em segundo plano, pois sei que estamos bem equipados e nosso hotel parece ser bem seguro!

Como amanhã temos que acordar às 4 da manhã, me despeço aqui enviando a todos os professores e professoras, educadores e educadores, maestros e maestras um forte abraço e um muito obrigado por tudo! Um forte abraço!

P.S. 1: Desculpem-me por não escrever tanto, mas ser responsável e coordenar uma intervenção é bem cansativo. Mas não importa, prometi que escreveria quando tivesse tempo e hoje deu certo!

P.S. 2: Apoiem a nossa campanha. As passagens já foram pagas e os materiais também. Isso não é segredo, caso contrário a Raquel e eu não estaríamos aqui. Mas se conseguirmos esse dinheiro, o projeto será mais forte, pois teremos mais condições de apoiar os educadores mexicanos que estão se capacitando para dar continuidade aos projetos da pedagogia de emergência. Haverá outros seminários! 
P.S. 3: Aos que já nos apoiaram, muito obrigado! Estamos usando bem o dinheiro! Prestaremos as contas ;-)


Reinaldo Nascimento, terapeuta social, educador físico e cofundador da Associação da Pedagogia de Emergência do Brasil, coordena uma intervenção internacional de pedagogia de emergência que está acontecendo no México.

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