Baile de formatura é baile de favela

A noite do baile de formatura é uma das mais belas do ano. Você coloca Who is He do Bill Withers para tocar enquanto se barbeia e procura algum tutorial de nó de gravata. Sim, falha miseravelmente em todos os tipos possíveis e acaba indo para a festa sem gravata porque é só um pedaço de pano em volta do pescoço sem qualquer significado. Consciente de que está de terno, tenta conter o misto de sensações “estou fantasiado” e “sou um agente secreto britânico e elegante” e ser apenas um cara foda.

“ Quem é ele e o que ele é para você?”

Na porta do local do baile, percebe que lá dentro toca Sunday Bloody Sunday na versão chocante de Sambô, então você só pode pensar que a vida é maravilhosa e aquele é o Brasil que deu certo. O lugar está muito bonito: refletores por toda parte, tapetes vermelhos, arranjos de flores, malhas esticadas, castiçais e taças. O palco vazio representa O Primeiro Momento do Baile de Formatura, a hora da pompa, a fineza da mesa com uma barca de sushi intocada, bebidas quentes guardadas, doces ignorados.

Todas as mulheres - só gatas - ainda estão usando seu salto alto e os homens - os que mantiveram o nó da vendedora - com a gravata sem folga. Alguém chama os formados e começa um negócio de primeira dança que é meio inacreditável, tanto ou mais que a proibição de barulho na colação de grau e a falta de proibição das músicas “Que país é esse?”, “A estrada” ou “Happy” na hora de conferir o título dos formandos.

“É a porra do Brasil!”

De repente, alguma coisa muda e entramos n’O Segundo Momento do Baile de Formatura. O sushi da barca sumiu já no primeiro momento e agora sumiu a barca também, não há mais bebida quente, ninguém aguenta mais chocolate. Começa a primeira banda e as pessoas ocupam a pista com seus copinhos de plástico estilizados com o nome de algum formado e o mesmo mistério da caneca de Jô Soares: o que há dentro desse negócio?

Para quem trata com aversão tudo que nasce do gênero sertanejo universitário, arrocha, funk ou pagodão, é um bom momento para ficar por dentro das novidades enquanto luta contra essa empatia com o sofrimento que é mato e o coração num guenta. Quem sabe até entender que esse negócio chiclete, por vezes superficial, serve a proposta de entretenimento. Já tem agente secreto dançando paredão metralhadora. As mulheres colocam a sandália.

A banda principal começa e tenta expulsar do palco quem não é da turma, mas nada impõe limites a quem dança arrocha com os braços abertos, pois este alcançou a verdadeira liberdade. Casais tentam engatar um romance ao som de Bumbum Granada e os fracos vão abandonando a festa às 3h da manhã. Às 4h você vê várias pessoas em volta de alguém e pensa “deu ruim”, mas na verdade só estão ajudando o indivíduo a executar um quadradinho de 8.

Às 6h, quando está saindo, vê que do lado de fora apareceu um trio tocando forró pé de serra e alguns errantes estão improvisando uma quadrilha. Mais tarde, no mesmo dia, duvida dessa última parte porque tudo que ouvia e enxergava a essa hora já tinha qualquer coisa de onírico. Por um momento você se permite alguma tristeza nesse turbilhão de alegria: só agora descobriu que sua vocação é ir em baile de formatura.