Inevitável quintal

Às vezes não há prazer em escrever. Necessidades podem ser perturbadoras a ponto de considerar como seria mais viável viver se não as tivesse. Quando preciso escrever, estou ciente de que ter palavras em uma folha é apenas uma possibilidade. É preciso estar acordado depois da meia-noite e muitas vezes suportar dores que não se descrevem facilmente, dores alojadas em lugares inóspitos.

Eu não soube descrever o que fez meu choro quando vi a cachorrinha respirando duro, o olhar perdido, sem conseguir levantar. Afinal, estávamos distantes. Quilômetros são mais fáceis de vencer que cruzar uns poucos metros do quintal no fim do dia. Eu enxergava apenas café e sofá. Faz tempo, ela também já não ligava muito, via o portão abrindo e nem se levantava, visivelmente incomodada com alguma coisa.

Lembro de recortes do seu primeiro dia conosco, fomos buscá-la em uma caixa de papelão e… não era uma, mas duas filhotinhas. Levamos a irmã também, ué: eram as últimas da ninhada e decidimos que deviam ficar juntas. Não iriam crescer muito — cachorro “balaio”, pernas curtas — então o quintal pequeno não era problema. Meu pai ignorou todos os nomes que demos e decretou “Madonna” e “Shakira”. Dado o seu histórico com nomes, ninguém pode chamá-lo de incoerente. Com uma frequência irritante para todos, eu e meus dois irmãos — 13, 9 e 2 anos na época — éramos censurados, pois “todo mundo sabe que pegar demais em cachorro pequeno ‘pestia’ o bichinho”.

Agora, foi estranho vê-la quase escorrer do colo do meu irmão, foi estranho o silêncio, a língua para fora, os olhos ainda abertos. Foi estranho não conseguir dar a notícia de forma clara para os meus pais. Foi estranho alguém dizer para jogá-la no lixo. Cálculos do sofrimento dela nos últimos dias e da sua felicidade nos anteriores davam vazão a respostas insatisfatórias e lágrimas estranhas.

Ela tinha um jeitão rock n’ roll, diferente dos cachorros que já tivemos: uns bobões amáveis (como a própria irmã). Carregava agressividade no contorno grosso e preto dos olhos e no ato de avançar no calcanhar de todo estranho que ousasse passar em sua frente. Foi mãe, uma história engraçada que posso contar outro dia, e espalhou alguns balaiozinhos pela cidade.

Como veio, foi embora em uma caixa de papelão. Deixou uma vasilha, uma coleira, um cartão de vacinação e uma colcha. Também deixou uma a impressão muito forte de que não sei nada sobre cachorros.