
A Arte da Aprendizagem Autodirigida — Blake Boles
Tradução de Alex Bretas
Acesse o texto preliminar e o sumário do livro traduzidos clicando aqui. Veja abaixo os links para os capítulos anteriores:
- Introdução
- Aprendizes e Aprendizagem: 1. A Menina que Navegou o Mundo
- Aprendizes e Aprendizagem: 2. O que Aprendizes Autodirigidos Fazem
- Aprendizes e Aprendizagem: 3. O que Aprendizes Autodirigidos Não Fazem
- Aprendizes e Aprendizagem: 4. Aprendizagem Consentida
- Motivação: 5. Autonomia, Maestria e Propósito
- Motivação: 6. Disciplina, dissecada
- Motivação: 7. Prisões e Chaves
- Motivação: 8. Não Vá com a Primeira Resposta Certa
- Aprendizagem Online: 9. Googlando Tudo
- Aprendizagem Online: 10. Enviando E-mails para Estranhos
- Aprendizagem Online: 11. Nossos Rastros Digitais
- Aprendizagem Offline: 12. Informação x Conhecimento
- Aprendizagem Offline: 13. Sozinho, Junto
- Aprendizagem Offline: 14. Tribos Nerds
- Meta-aprendizagem: 15. Aprendendo a Aprender
- Meta-aprendizagem: 16. A Aula de Dança
- Meta-aprendizagem: 17. Sensualidade Indescritível
- Meta-aprendizagem: 18. Prática Deliberada
- Ganhos autodirigidos: 19. Limpando Cocô para Chegar Lá
- Ganhos autodirigidos: 20. Paixão, Habilidade, Mercado
- Ganhos autodirigidos: 21. Riqueza de Tempo
- Ganhos autodirigidos: 22. Dicas de Carreira de um Robô Dinossauro
23. Como Incendiar sua Mente
Talvez nossa maior questão não respondida até agora seja: como encontrar a fagulha capaz de incendiar a transição da motivação extrínseca para a motivação intrínseca?
De onde vem a inspiração que motiva pessoas como Laura Dekker, Celina Dill, Sean Aiken, Jonah Meyer, Carsie Blanton e outras cujas histórias são contadas neste livro?
Ou então, de maneira mais simples: como você pode incendiar sua mente?
A resposta está em algum ponto da interseção entre os seguintes elementos: genética, privilégio, sorte e modelo mental.
A partir do que tenho observado, a maioria dos aprendizes autodirigidos possui alguma predisposição genética para pensarem de forma independente, reconhecerem padrões e resolverem problemas de maneira criativa. Se eles escolhem enfrentar os desafios da escola ou da faculdade, eles conseguem lidar com a carga de trabalho intelectual desses lugares. Eles são, em outras palavras, “brilhantes”. Este, creio eu, é o fator genético.
Muitos aprendizes autodirigidos também gozam de um certo nível de privilégio: uma combinação de recursos financeiros, apoio familiar e validação cultural que os habilita a viajarem o mundo, desenvolverem um ofício, contratarem tutores, estagiarem e fazerem outros investimentos não convencionais valiosos em suas educações. Este é o fator do privilégio.
A sorte (ou o acaso) também não deixa de ser um fator inegável no sucesso de qualquer trajetória autodirigida. No exato momento em que eu estava me sentindo esgotado nos estudos de astrofísica, por exemplo, um amigo apareceu empunhando um livro sobre educação alternativa. E se ele não tivesse aparecido naquela hora? Será que eu teria saído da faculdade para dar aulas de snowboarding (como cheguei a cogitar)? Será que eu teria trilhado um caminho diferente e que, no limite, me faria menos realizado do que a carreira que escolhi? O fator sorte existe, e por mais que nós certamente criemos boa parte da nossa sorte, o universo conspira bastante para criá-la por nós, também.
Contudo, para encontrar sua fagulha, é preciso prestar atenção ao quarto e mais importante fator: modelo mental.
Como descrito pela psicóloga de Stanford Carol Dweck, um modelo mental é uma crença a respeito de sua própria inteligência, talentos e personalidade. No sistema criado por Dweck há apenas dois modelos: o fixo e o de crescimento. Uma síntese de como ela os descreve pode ser vista abaixo.
Pessoas com um modelo mental fixo acreditam que suas características são dadas. Elas possuem uma certa quantidade de inteligência e talentos e nada pode mudar isso… Sendo assim, essas pessoas preocupam-se muito com suas características e o quão apropriadas elas são. Elas sentem que precisam provar algo para os outros e para si mesmas.
Pessoas com um modelo mental de crescimento, por outro lado, enxergam suas qualidades como elementos que podem ser desenvolvidos por meio de sua dedicação e esforço. É claro que elas ficam felizes em saber que possuem certas inteligências ou talentos, mas isso é só o ponto de partida. Elas entendem que ninguém — nem Mozart, Darwin ou Michael Jordan — pode ter alcançado grandes feitos na vida sem ter se dedicado apaixonadamente por anos à determinada prática ou caminho de aprendizagem.
Conforme documentado rigorosamente por Dweck, as diferenças entre pessoas que sustentam um modelo mental fixo e aquelas que acreditam em seu desenvolvimento são imensas. Indivíduos que detém um modelo mental de crescimento apresentam melhor desempenho nos esportes, nos negócios, na vida familiar, nos estudos formais e na aprendizagem informal durante a vida.
Há ainda uma outra perspectiva interessante sobre os modelos mentais. Se você acredita que possui algum controle sobre seu aprendizado e suas conquistas, você pelo menos tem uma chance de fazer uma transformação positiva em sua vida. Mas se você acredita que seu desempenho é sempre limitado pela ausência de habilidades inatas, competências básicas ou recursos, então não há nenhuma possibilidade de você fazer o que é preciso para melhorar. “Aqueles que olham para as adversidades como evidências de que eles não possuem o talento necessário”, pontua o escritor Geoff Colvin, “vão desistir — o que é totalmente lógico, de acordo com o que acreditam”.
O que é mais entusiasmante a respeito do fator modelo mental é que, ao contrário dos outros fatores (genética, privilégio e sorte), ele está amplamente sob nosso controle. É possível, assim como fazer uma limpa no guarda-roupa, substituir nossas crenças fixas por um modelo de crescimento. Tal mudança não costuma ser fácil — é comum ficarmos apegados às nossas antigas roupas, especialmente quando todos os nossos amigos também se vestem da mesma forma — , mas é uma possibilidade real.
Minha mudança começou no acampamento Deer Crossing, quando passei a monitorar atentamente meus monólogos internos (conforme descrevi no capítulo “Prisões e Chaves”). Ela prosseguiu em 2003, quando, no meu primeiro ano como instrutor, quase fui demitido por não querer trabalhar para terminar a leitura do livro Cem Anos de Solidão. Jim (o coordenador do acampamento) me deu um feedback muito direto, me dizendo que ou eu mudava meus hábitos ou procurava outro trabalho. Escolhi a primeira opção.
Ter tido a oportunidade de desenvolver um modelo mental de crescimento ainda cedo me preparou para lidar de maneira construtiva com os fracassos da vida. Em 2008, por exemplo, fui candidato a uma vaga de líder de uma expedição de jovens adultos pela América Latina como parte de um programa de aprendizagem. Eu estava extremamente entusiasmado com essa oportunidade; me sentia preparado; tinha todas as credenciais necessárias; e fui muito bem nas entrevistas. No entanto, algumas semanas depois, recebi uma ligação do coordenador do programa dizendo que eu não tinha passado. Eram 150 pessoas disputando duas vagas, e eu simplesmente não fui selecionado.
Depois de alguns dias lastimando, percebi que eu poderia olhar para isso ou como uma condenação das minhas habilidades — o retorno típico do modelo mental fixo — , ou como um pretexto para aprender e tentar algo novo — uma resposta digna de um modelo mental de crescimento. Escolhi a segunda opção e enviei um e-mail para o coordenador perguntando se ele poderia me ajudar a iniciar minha própria empresa de viagens internacionais para jovens desescolarizados. E ele disse sim! Enviei outra mensagem para uma amiga perguntando se ela gostaria de me ajudar com a primeira viagem, e ela também respondeu positivamente. Pouco tempo depois eu estava abrindo minha primeira conta bancária como pessoa jurídica, e seis meses depois eu estava numa trilha na Argentina com nove adolescentes no primeiro programa da Unschool Adventures.
Acredito que é assim que conseguimos incendiar nossas mentes. Ao escolher olhar para os fracassos como oportunidades, enxergar os desafios como aventuras e ver a vida como um jogo infinito, nós acendemos nossa automotivação.
Não sei exatamente como Laura, Celina, Sean, Jonah, Carsie e outros aprendizes autodirigidos que aparecem neste livro desenvolveram modelos mentais de crescimento tão potentes, e talvez nem eles mesmos conseguissem responder a essa pergunta. Não é algo repentino como acender uma lâmpada; é um processo contínuo composto por várias pequenas decisões que, juntas, constroem um todo muito maior. Genética, privilégio e sorte com certeza são relevantes, mas os aprendizes por sua própria conta também tiveram um papel incontestavelmente importante.
Aprendizes autodirigidos são seres humanos como quaisquer outros, com seus limites, suas falhas e deficiências — o que os diferencia é a sua escolha consciente por se enxergarem capazes de aprender, se desenvolver e mudar para melhor sempre.
Se você intencionalmente fizer a escolha pelo modelo mental de crescimento, tudo é possível. Se não fizer, as possibilidades são bem reduzidas. Comece hoje a fazer essa mudança e, não importa o seu ponto de partida, você embarcará na jornada para se tornar a pessoa que você quer ser.