Assim ainda fala Zaratustra

à liberdade niilista

Este é o chão que lhe controla
alimentando-se da falsa liberdade.
Não há guerras entre peso e leveza,
há somente a gravidade.

Esta crença estúpida
de que não faço parte 
das forças físicas impostas pela natureza
ou ainda as arquitetadas pela história humana.

O livre arbítrio!
A maior mentira que nos contamos.
Maior ainda do que Deus.
O débito com antepassados,
passado distante narrado
por heróis e vencedores
Lapidando orgulhos ufanistas
nas lápides dos soldados guerreiros
por causa maior.
É meu dever
morrer por um país
podre. Desde a nascente.
Como se brotasse um esgoto
duma boca de lobo dos latifúndios brasileiros.
é meu dever votar 
e ver meu voto valer nem um centavo no senado.
O grande Estado Democrático de Direito
exercendo sua função primeira:
do espetáculo
bode expiatório.
Aperfeiçoa-se o teatro em conserva
desta estranha normalidade

Os mortos não precisam levantar 
para exercer seu comando
como nos filmes fantásticos.
Descansam na cama credora do tempo.
A morte comanda o espírito vivo
travestida de nomes ingênuos
de livros antigos 
e estados proclamadamente laicos.
Bradam-se nomes com força,
falam pelo silêncio escrito nas linhas
mantenedor dos bons costumes.

Ao miserável sem bens,
os grilhões confortáveis das religiões,
os matrimônios eternos com divindades inexistentes.
É loucura matar o que está morto?

Não. Não busco céus
ou afirmações de permanência na Terra
nem mulheres virgens para preencher 
o espaço vazio no caixão.
ou mesmo viver de novo, noutro corpo. 
Noutra carne ou país.

Não tenho estrelas
nem casa nem chão.
Minha nação é meu corpo.
Não tenho em mim pudores católicos
sou mais um produto retórico,
surdo ouvido
das flores
nos cemitérios
dos sonhos.