Como destruir uma casa

Deixe as marretas de lado.
Saia de casa. 
Seja de pai ou de mãe,
ou sua, a casa.
Apenas saia. 
Ela não é verdadeiramente sua.
Tantos são os lares perdidos
vilas inteiras de casas abandonadas
já inteiramente tomadas por grama arredia.

O piso se quebra sozinho,
a parede racha ou estufa, 
a tinta apodrece e descasca.
os livros perdem as capas
O papel amarela,
a faca fica cega
o café esfria,
xícaras caem deixando
sem pares, os pires.
Os copos se quebram
O arroz dá gorgulho
o sal umedece
o pão endurece.
o açúcar fermenta.
Tudo se perde.

É caro manter uma casa.
É mais caro ainda destruí-la.
Deixemo-la confrontar a si mesma.

Saia de casa!
Veja o efeito faminto do tempo 
nas construções antigas.
Talvez isto ajude vencer o imobilismo.

Arrume uma mala com poucas roupas.
More numa barraca montada no mato
ou durma em colchões infláveis.
Passe meses sendo dono 
apenas de duas botas 
sobre o chão que pisa.

More em cidades turísticas
se possível, more nos monumentos, 
nas pontes, nas praças.
E veja os visitantes que chegam 
sem lhe pedir licença 
a fotografar a sua casa.

Sua casa não é mais tão pequena agora.
Não há mais jeito de sair dela.
Ela não cabe em prédios ou quadras.
Ela não cabe nem nas palavras!


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