Tenebrismo

Rasguei todas as roupas que tinha. 
Com a ponta dos dedos desfazendo todas tramas 
os fios dançam pesadamente caindo inúteis 
feito cabelos mortos pelo chão úmido e rugoso
estou numa rua escura e velha
centenas de anos noturnos
estátuas pontudas e com olhares débeis para o nada.

Ainda alguns trapos cobrem meu corpo, 
com dedos magros descosturo todos os tecidos acima da pele.
Afasto as fibras trançadas da carne.
Profundamente busco do que é feito o eu
se é de osso, afinal,
ou do nada que forma nossa realidade estúpida 
e o que sobra ainda é avesso ao lado de dentro.

Pareço nu, mas tenho a mais cruel das roupagens do uso cotidiano 
A última máscara segue presa ao rosto
Como um velho tronco que reserva apenas o antigo formato, 
mas completamente mudado por dentro. 
a casca é mesmo de árvore,
não há seiva, não há dor, nem lágrimas.

Onde havia vida, um minério bruto esbranquiçado
furta a essência avidamente, vazio feito de pedra
soterrado por eras maiores que os anos humanos.
 
Duas manchas escuras afundam nos olhos
e uma tinta negra escorre dos lábios frios.
a tinta espalha-se permeando as veias pulsáteis
um polvo prestes a destruir inúmeras presas.
deixo-as de lado
indefensáveis e inocentes moças atraídas pelo perigo.
Cravo as unhas no rosto com todos os braços
a imagem tépida descama no espelho. Alcanço tecido vivo. 
Não olharei mais para dentro!
Refaço aqui os fios que se partiram
com o lado de fora.

Antes de fechar os olhos e aceitar o duro fato de estar vivo,
Me pergunto se há vida após a morte do amor.
Tenho a cama aquecida mas e o coração segue gelado?