Você já ouviu falar no “Caso Rhodia”?

Não? Como assim nunca ouviu falar?

A contaminação do litoral paulista é um episódio nefasto do regime militar e da industrialização negligente, que vai se relacionar não só com o passado de Cubatão, mas também com a falta de políticas atuais para medir o tamanho da pluma de contaminação, evacuar áreas, estabelecer punições (o governo francês deveria ter pago a conta décadas atrás, a Rhodia era de um grupo estatal, o Rhône-Poulenc, que já sofreu um processo de privatização) e identificar ações transparentes de remediação. Outras empresas também possuem participação em outros problemas, como a Carbocloro, por exemplo.

Cheguei a externar em outros momentos minha preocupação com relação ao solo da região de Samaritá antes do VLT (Veículo Leve sobre Trilhos) ganhar glamour, pois como farão a estação por lá assim? Enquanto escrevo, lembro que o projeto Estações Brasileiras mencionou o “clima pesado” do local quando fez o seguinte vídeo (o post original pode ser lido aqui):

Na verdade, eu escrevi a seção da Rhodia falando do problema na Wikipédia, fiquei indignado na época, pois o verbete era totalmente publicitário e precisei readequá-lo. Toda a região num raio de uns 200 km da fábrica precisa ser analisada, sem exceção. A Rhodia despejou lixo até em Itanhaém, um verdadeiro crime ambiental, que inclusive Paulo Maluf ajudou a acobertar, pois as coisas chegaram no ouvido do presidente francês quando Paulo Maluf estava no governo.

O Parque das Bandeiras, de acordo com a ACPO, é uma das áreas contaminadas. Conforme a mesma associação, que logrou êxito para fechar a fábrica, inclusive envolvendo um sindicato na época, no fim da década de 1980, o Parque das Bandeiras tinha em dois poços rasos entre 28 e 42 ug/l de hexaclorobenzeno, o tempo passou e a ACPO passou a advertir que os resíduos entraram em processo decomposição, originando compostos de maior toxicidade, como o agente carcinogênicocloreto de vinila.

Figura 3 — Mapa de Samarita e seus bairros divididos por setores estudados

Quando falamos de organoclorados, mais especificamente, de hexaclorobenzeno e pentaclorofenol, devemos ter em mente que estamos falando de substâncias biopersistentes, bioacumulativas, e biomagnificantes. Não houve um trabalhador que não se contaminou, inclusive, anos atrás mais gente se contaminou. Toda a planta fabril, fechada desde 1993, está contaminada, o solo, o morro, o local em que construíram um incinerador obsoleto (que operou fora de parâmetros aceitáveis de segurança e ajudou a espalhar dioxinas por toda a região)… enfim, é uma barbaridade.

Devo mencionar que pelo menos até 2001 se retirava areia dos locais contaminados para construção civil? É necessário ler os dossiês (I e II), para quem quiser ficar mais indignado, também é possível ver os seguintes vídeos do sindicato envolvido na época:

Parte 1:

Parte 2:

Parte 3:

Parte 4:

Parte 5:


Não se trata exatamente de um conteúdo produzido especificamente para o Medium. O que fiz aqui foi resgatar algumas explicações que dei a respeito num fórum de discussão. É um texto que pode servir para aqueles interessados no tema, portanto, merece repousar num ambiente adequado para ser acessado.

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