Aqui ainda passa um rio

fotos e texto por Hélio Carlos Mello, do Projeto Xingu


O caminho das águas no território urbano da cidade de São Paulo expõe vestígios da violenta urbanização do solo com o ocultamento de nascentes, minas d’água e córregos.

A surpresa ao saber que sob sua rua passa um rio ou descobrir que a torneira doméstica vai perdendo a utilidade são inevitáveis. Lagos em parques públicos sempre denunciam a existência de cursos d’água ocultos à percepção da grande cidade.

Como exemplos, os córregos do Tanque e do Sapateiro, formadores do lago do Parque Ibirapuera, deixaram de fazer parte da paisagem devido aos processos de drenagem e saneamento do terreno durante a antiga ocupação de regiões como a Vila Mariana (zona sul). Com a padronização do abastecimento de água à população, as inúmeras minas de água cristalina também perderam sua função, expostas à pressão do uso e ocupação do solo, sendo soterradas por condomínios.

É comum ver em bairros como Vila Mariana, Aclimação, Cambuci ou Paraíso a insurgência de água limpa em grande volume na sarjeta de algumas ruas. São cisternas de nascentes sob os condomínios, que se esvaziam por um sistema automático de bombas quando o nível de água ameaça transbordar. Os cursos d’água sempre foram encarados como estorvo pelo mercado imobiliário, sequestrados, sempre que possível, do ambiente urbano.

No antigo leito do córrego do Sapateiro encontra-se a comunidade da rua Doutor Mario Cardim, na Vila Mariana. A favela se estabeleceu na década de 1960 e possui, em média, 500 famílias e mais de 2000 moradores. No local, nascentes que abasteciam toda a vizinhança também foram canalizadas ou soterradas, substituídas por débitos com a Sabesp.

Em alguns barracos ainda é possível ouvir o som da água subterrânea que corre. Apesar disso, 90% das casas não possui caixa d’água, segundo Cícera Vieira e Creuza de Souza, coordenadoras da Associação Mãos Unidas, entidade comunitária que busca defender a dignidade dos moradores, expostos às precárias condições de saneamento e superpovoamento do local. Assim, diariamente, os moradores da favela Mario Cardim se apressam em fazer as atividades domésticas de lavar roupas e panelas, ao mesmo tempo em que põe a comida no fogo. Tudo muito rápido, antes que a torneira seca venha denunciar a opressão do Estado em crise hídrica sobre os de baixa renda.