A respeito das coisas que passam

Foto: Jason Kelm

“O Tempo passou.”

“Onde? Eu não vi.”

“Ali do outro lado da rua. Foi meio rápido mesmo, eu quase nem percebi também.”

“Mas você tem certeza? Que estranho. Eu estava controlando ele. Não é possível ele ter passado sem que eu percebesse.”

“Pois é. Eu estava distraído, mas consegui ver. Ele passou do outro lado da rua, olhando para as árvores atrás daquele muro ali. Está vendo? Cheguei a achar que queria roubar alguma fruta, mas não: só olhou e seguiu em frente. Também brincou com aquele cachorro vira-lata ali. E entrou ali naquele mercadinho. Acho que comprou algumas balas ou frutas pequenas ou algo assim. Saiu colocando duas ou três coisinhas na boca. Acho que eram balas mesmo, só podia ser. Mas, quando fui olhar para ele com mais cuidado, já tinha ido embora.”

“Hmmm. E como você viu tanta coisa, se ele passou tão rápido que eu não consegui nem ver ele passando? E eu estava olhando para lá!”

“Pois é. Não sei. É engraçado mesmo, eu nem estava prestando muita atenção. Mas estava lá, eu tenho certeza. Eu vi. Ainda guardou o resto das balas no bolso e parou na frente do mercado, olhando para os lados. Parecia que não tinha bem para onde ir, mas não como quem está perdido, entende? Era mais como se estivesse dando um passeio ou algo assim.”

“Hmmm.”

“Eu juro que é verdade.”

“Hmmm. E agora, se ele passou mesmo? O que a gente faz?”

“Não faço ideia.”

“Pois deveria fazer. Fiquei esse tempo todo aqui, controlando. Aí o Tempo passa por aqui e depois, num estalar de dedos, desaparece. Quer dizer que foi tudo em vão? Isso não está certo.”

“Eu sinto muito. Não tive tempo de avisar você.”

“Não teve. É claro.”

“É sério. Pode acreditar.”

Caiu o silêncio. A tarde murchava, desvanecia-se em cinza. A calçada cobria-se de folhas secas.

Fazia frio.

“Acho que ele não vai voltar.”

“Hmm?”

“O Tempo. Acho que ele não volta mais.”

Nada disseram por instantes. Uma lufada de vento ergueu as folhas do chão, espalhou-as em novos arranjos inesperados.

“Não importa”, disse enfim. “Vamos ficar aqui. Esperando. Ele vai ter que passar de novo.”

Junho de 2014

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.