Sócrates e os médicos

Recorte de “A morte de Sócrates”, tela de Jacques-Louis David (1787)

[Entra em cena Sócrates, sendo recebido por três atenienses. Polinéscio se adianta.]

- Mas quem vem lá, se não é aquele a quem chamam de “amigo do conhecimento”, o próprio Sócrates, que a nós vem iluminar com sua sapiência?

- Recebo com agrado tua saudação, Polinéscio, mas preciso admitir que me constranges, visto ser eu a receber de ti os mais lúcidos ensinamentos. Que haveriam de pensar teus companheiros se de mim esperassem aquilo que não sou?

- Tua modéstia te enaltece ainda mais, ó Sócrates. Mas vens em boa hora. Diga-nos, que pensas dessa decisão atabalhoada dos governantes de nossa cidade que agora resolveram importar médicos da Pérsia para trabalhar em nossa estimada Atenas?

- Sou levado a deduzir que a iniciativa não agradou o estimado amigo.

- Evidentemente não agradou!

- Pois conte-me, caro colega, o que tanto te perturba nessa chamada importação.

- Ora, Sócrates, não te faças de tolo! É bem sabido que os governantes de Atenas há séculos deixam a população à míngua no que concerne aos serviços de saúde. Não faltam médicos, falta estrutura. Nosso hospital está sempre lotado. Não se consegue consulta, é preciso agendar com antecedência de dois solstícios. No campo é ainda pior. Milhares de gregos padecem por moléstias banais. E agora, às vésperas da eleição, resolvem trazer persas — logo os persas! — para dentro de nossa polis! É quase o mesmo que abrir os portões às tropas de Dário ou de Xerxes!

- O que dizes, meu caro Polinéscio, tem semblante de verdade.

- Viram? Eu lhes disse, amigos, que o sábio Sócrates me daria razão!

- Calma lá, Polinéscio. Ainda que pareça verdade, é nosso dever examinar com cuidado cada uma das proposições para verificar se, de fato, a verdade alcançamos.

- Pois assim façamos, Sócrates.

- Dizias tu que nossos governantes não oferecem à população acesso adequado à saúde, e que isso se perpetua há séculos, está correto?

- Exatamente.

- E afirmas que se pode verificar isso observando a situação de nosso hospital.

- Sim.

- E, com precisão, observas que ele encontra-se saturado em sua capacidade de atendimento.

- Assim falei.

- Lembra-te da última vez que foste a esse hospital?

- Claro. Conduzi a ele minha sogra, Panvélia, que sofria de gota.

- Mas gota não é um grande mal. Porque não a levaste na casa de saúde da Acrópole?

- Confesso que isso não me ocorreu.

- Entendo. Posso inferir que se a ti, dotado de um dos mais altos intelectos do mundo helênico, não brotou a ideia de recorrer à casa de atenção básica de nosso bairro, outras pessoas com patologias menores também recorreram ao hospital sem haver necessidade. E disso posso concluir que essa é uma das causas da lotação que referiste. Te parece bem?

- Por hora.

- Mas pode haver outras causas. Por exemplo, a insuficiência de médicos em nossa cidade.

- Existem médicos suficientes.

- De onde tiraste essa informação?

- Erixímaco me contou.

- E confias plenamente no que ele diz?

- É lógico, pois ele é o meu médico.

- É o meu também. E também de Panvélia, de Xantipa, de Platão, de Aristodemo, de Anaximandro, de Fedro, e de quase todos que conhecemos. Todavia, marcar uma consulta com ele, como afirmaste anteriormente, é muito difícil. Ele está sempre ocupado. Lembra-te da época em que ele vinha às nossas residências prestar consultas?

- Sem dúvidas.

- Que boa memória tens, ó caro Polinéscio! Certamente lembrarás também de quando ele tratou teu pai, que contraíra cólera.

- Como esqueceria?

- Agora, porém, Erixímaco atende apenas no hospital. Não poderia prestar consultas ao teu pai, nem esclarecer à tua família que a moléstia desenvolvera-se em virtude da contaminação da água, o que prevenira maiores prejuízos à tua família. E, sem um médico que faça isso, concordarás que outras pessoas estão vulneráveis a tal patologia. Veja, não estou alegando que a estrutura hospitalar é desnecessária, pelo contrário! De fato, as melhorias introduzidas por Hipócrates nas últimas décadas são evidentes por si só. O que aponto, e talvez venhas a ficar de acordo comigo, é que se pode fazer uma medicina competente sem necessariamente dispor de uma grande estrutura. Que achas?

- Tens razão no que dizes, Sócrates.

[Polinéscio se cala. Interpela-o Cretinices, o segundo ateniense.]

- Isso, contudo, não significa que a estrutura não seja precária, Sócrates!

- Cretinices, que bom que te juntas ao nosso debate! De fato, falemos sobre estrutura. O que pensas sobre isso?

- No campo, não há nenhum recurso para atender à população. Onde estão os hospitais? É por isso que eles recorrem à nossa polis buscando atendimento!

- Não serei eu a afirmar que as estruturas das nossas casas de saúde encontram-se em seu estado ideal. Pelo contrário. Sei bem que há muito a avançar. Mas não podemos cair na ilusão de crer que isso circunscreve todo o problema de nossa saúde, Cretinices. Decerto te recordarás de nossa visita à Alexandria, alguns anos atrás.

- Com efeito recordo, Sócrates.

- E não terás dificuldade de trazer à mente nosso espanto diante da biblioteca de lá.

- De fato, jamais vi algo tão majestoso!

- Ao retornarmos, se não me falha a memória, propusemos a construção de edifício semelhante em Atenas. O pedido não foi negado, mas erigiram uma biblioteca ligeiramente mais modesta, compatível com as necessidades de nossa polis.

- Sim, é possível vê-la daqui.

- Agora imagina tu, Cretinices, que um vilarejo vizinho ao nosso, enciumado pela biblioteca, decidisse erguer uma biblioteca igual. E o vilarejo vizinho a este fizesse a mesma coisa. E o próximo também, e assim por diante.

- Mas Sócrates, isso seria inviável! Não haveria livros o suficiente, e se houvesse livros não haveria leitores!

- E se tivéssemos os dois, talvez faltassem bibliotecários em número bastante para atendê-los a todos. Concorda?

- É preciso concordar.

- Pois então, Cretinices, concordarás também que não precisamos de uma biblioteca de Alexandria a cada esquina — precisamos, sim, de locais compatíveis com a demanda de cada localidade. E que se considerarmos que apenas as bibliotecas colossais são dignas de serem reconhecidas como recursos válidos e que os pequenos ateneus não o são, então estaremos perpetuamente prisioneiros de um argumento falacioso, porque desconsideramos todo o contexto. Como vimos no caso do pai de Polinéscio, o recurso mais importante, nesse caso, seria o próprio médico.

- Mas então, se a estrutura hospitalar não é vital, por que os médicos concentram-se nas capitais das pólis e não no interior? Devem ser muito mal pagos, e por isso evitam ir.

- Ora, Cretinices, sabes que isso não é verdade. A remuneração oferecida por nossos amigos de Halicarnasso era bastante polpuda, e ainda assim não houve nenhum interessado.

- É evidente, Sócrates! Ninguém quer morar no fim de mundo que é Halicarnasso.

- Então não se trata de falta de estrutura, trata-se de falta de vontade. É isso que afirmas, Cretinices?

- Tentas preparar armadilhas para mim, Sócrates, mas não caio em teus truques.

- Permita-me explorar um pouco os dados que conhecemos. Sabemos, por um lado, que as escolas de medicina abertas por Hipócrates concentram-se nas grandes cidades. Também sabemos que essas escolas acolhem majoritariamente os filhos das mais nobres famílias gregas. Sabemos também que são necessários alguns anos de estudo para concluir a formação e que são produzidos laços sociais muito importantes nesse processo. O que se pode depreender disso?

- Que é natural que esses alunos tendam a querer permanecer nas cidades em que fizeram seus estudos.

- Estás correto.

- Então qual o problema desses médicos não quererem atender no campo? Vivemos em uma sociedade livre. Ninguém pode obrigá-los.

- O problema, Cretinices, é que no campo há pessoas que precisam ser atendidas. São cidadãos como tu e eu. Poderíamos descentralizar as escolas de medicina e aproximá-las dessas pessoas, mas isso levaria um certo tempo. Obrigar nossos médicos a irem até elas também não seria aceito, como tu bem o demonstras. Concebes alguma alternativa?

- Como fez Polinéscio, rendo-me aos teus argumentos, Sócrates.

[Cretinices retrocede. Pusilânime, o terceiro ateniense, toma a frente na interpelação de Sócrates.]

- Entretanto, ao contrário de Polinéscio e de Cretinices, eu ainda não estou convencido.

- Não é minha intenção persuadir quem quer que seja, meu caro Pusilânime.

- Usas tuas belas palavras para induzir meus colegas a aceitarem a pretensa escassez de médicos. Mas nossos governantes trazem médicos persas! Como podemos aceitar uma coisa dessas?

- Devagar, Pusilânime, que os afetos desmedidos podem turvar teu espírito. Conte-me: o que te aflige acerca da nacionalidade desses médicos?

- Primeiro, Sócrates, sabes bem que a Pérsia vive em um regime de tirania, algo que repudiamos vigorosamente na democrática sociedade ateniense. Depois, nada sabemos sobre a qualidade desses médicos, que se esquivaram dos testes de admissão. Além disso, falam outra língua — seguramente os pacientes gregos terão dificuldades em fazer-se compreender. Para piorar, ouvimos dizer que o imperador persa abocanhará boa parte do pagamento oferecido pelo governo de Atenas! Como pode isso ser bom, Sócrates?

- Vejamos pausadamente, Pusilânime, se de fato todos esses argumentos têm procedência, ou se eles nos desviam do foco. Afirmas que esses médicos são oriundos de uma nação regida pela tirania, mas o que de fato conhecemos da sociedade persa? Além disso, nada indica que esses sujeitos são tiranos eles próprios, ou simpáticos à dita tirania. Mesmo que fossem, será que nossa tão prezada democracia seria tão facilmente abalada pelo simples fato de acolher estrangeiros com posições diferentes?

- Quanto a isso, obrigo-me a dar o braço a torcer. Mas é sabido que a Pérsia é comandada a ferro e fogo!

- E não éramos nós também, algumas décadas atrás? Que destino demos aos nossos próprios tiranos?

- Isso não me é sabido, Sócrates.

- Decerto fomos mais benevolentes com os tiranos da casa do que estás sendo agora com os tiranos vizinhos. Mas mencionaste o teste de admissão. Seria um exame importante para auferirmos a qualidade dos profissionais. Por outro lado, poderíamos impor exigências espartanas no teste, de forma a tornar virtualmente impossível o ingresso de qualquer estrangeiro. Estás de acordo?

- Até o momento, sim.

- Então, a forma mais idônea de equiparar as qualidades seria aplicar o mesmo teste aos nossos médicos. Garantiríamos assim não só as virtudes dos ingressantes, mas também a de nossos próprios cidadãos. Todavia, aceitamos que nossos médicos sejam dispensados do tal teste, e ainda assim o exigimos dos estrangeiros. Parece-te justo?

- Assim dizendo, passo a ter dúvidas.

- Excelente, meu caro Pusilânime. Passemos à questão da língua. Concordamos, anteriormente, que nossos médicos provém das mais abastadas famílias, estudaram nas mais elevadas escolas e circularam nos meios mais eruditos. Ainda sustentas essa opinião?

- Creio que sim.

- Perfeito. Deduzimos, pois, que nossos médicos praticam a dita forma culta da língua, talvez em seu expoente mais alto. No entanto, os camponeses apresentam formas próprias com um léxico bastante peculiar. Os signos de um campo são quase completamente estranhos ao outro. Ousarias dizer que se trata do mesmo idioma?

- Talvez não, mas um médico experiente saberá transpor o que escuta do paciente e enquadrar em seus próprios termos, desde que conheça bem a própria medicina. Ou poderia utilizar alguém mais familiarizado até que, com o passar do tempo, ele próprio apreenda o jargão camponês.

- Então me dizes que seria possível ultrapassar o obstáculo da língua, seja pela instrumentalização ou pela experiência?

- Não posso negar, ó Sócrates.

- Pois passemos ao último de teus argumentos. Levantaste a hipótese de que a remuneração recebida pelos persas lhes seria subtraída. Mas recordo que teu filho, Protegeus, passou certo período com os matemáticos da Lacedemônia.

- De fato.

- E parece-me que os lacedemônios tinham interesse em tê-lo junto a si, pois julgavam importantes seus conhecimentos. É uma prática comum, aliás. Sei que ofereceram uma boa remuneração a Protegeus e, sendo ele discípulo da escola de Arquimedes, ofereceram-lhes também certa quantia em função do empréstimo de seu aluno. Não foi assim?

- Estás bem informado, Sócrates.

- Protegeus, pelo que ouvi, interessou-se pela proposta e apenas há poucos meses retornou da Lacademônia. Agora diga-me: de alguma forma a negociação entre as instituições lhe foi prejudicial? Se, por acaso, achasse ele que a oferta não lhe agradava, estaria impedido de cancelar o contrato?

- De forma alguma.

- Pois tenho a impressão que o mesmo ocorre com os médicos persas. Aliás, essa prática ocorre há séculos envolvendo soldados, arquitetos, agricultores; enfim, qualquer categoria disposta a vender sua força de trabalho. Haveríamos agora de estranhar?

- Preciso reconhecer, Sócrates, que venceste meu argumento. Eu, assim como Polinéscio e Cretinices, pensava de um modo e agora, depois de nosso douto encontro contigo, somos conduzidos a estabelecer um raciocínio diametralmente distinto!

- Não te equivoques, Pusilânime, pois a verdade em ti já residia. Ocorre que é fácil cair em armadilhas se não estamos razoavelmente esclarecidos. É fato que muitos de nossos hospitais enfrentam problemas sérios, e ao ouvir os relatos daqueles que atravessaram tal experiência o assombro nos inclina a depositar ali todas as culpas universais. Mais complicado é observar que existe uma aristocracia interessada em manter certas populações vulneráveis e desassistidas, porque é nos tempos de seca que o barril d’água fica mais caro, ou compreender que, se houvesse mais escolas de saúde, talvez precisássemos menos de hospitais. Mas essas são transformações a longo prazo, e esses que protestam quando alguém propõe-se a cuidar das pessoas que eles abandonaram são os mesmos que exigem que tudo mude imediatamente mas repudiam qualquer iniciativa de mudança. Que nossos médicos comecem a se sentir incomodados já é um grande favor que devemos aos persas, creio eu.

- Cuidado, meu estimado Sócrates! Idéias assim ainda podem acabar te custando a vida…

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