Fora!

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Nelson Rodrigues, em 1968, sobre a Passeata dos Cem Mil, a maior manifestação da década contra a ditadura militar. O protesto foi liderado por Chico Buarque e outros intelectuais da época:

“Os Cem Mil eram filhos da alta burguesia. E, com efeito, não havia, entre os manifestantes, um preto, um favelado, um torcedor do Flamengo e sequer um desdentado. Os Cem Mil tinham uma saúde dentária de artista de cinema. Um turista, que por aqui passasse e os visse, havia de perguntar: — Mas a alta burguesia quer tomar o poder que já tem?”. [fonte]

A alta burguesia mudou de nome, ela virou A Nossa Elite. Não estamos falando do 1% de cabeças que comandam o Brasil no andar de cima. Esses, os milionários, não vão pra rua. Estamos falando das pessoas comuns, dos profissionais liberais, dos comerciantes, dos funcionários públicos, do meu tio, da nossa vizinha, dos seus pais. Essa é a Nossa Elite — em um país pobre, ela é uma elite de classe média.

A Nossa Elite não derrubou só os militares do pós-guerra com uma coluna formada por artistas e intelectuais. Ela derrubou mais gente antes deles, e depois deles derrubou Fernando Collor. E quer derrubar Dilma, como também quis derrubar FHC e Sarney. O papel da Nossa Elite é derrubar.

Os governos fazem seu trabalho: rolam a pedra do Estado morro acima, sempre esperando pelos gritos de “fora!”. Um susto maior e lá vai mais um governo morro abaixo. No meio do caminho, escondido em uma moita, alguém deu a rasteira. “Se quisermos que tudo permaneça como é, algo tem que mudar”, diz o mote principal do gattopardismo político siciliano de O Gattopardo, um daqueles livros tristemente atuais.

A Nossa Elite quer derrubar todos, um após outro, e mudar as coisas para que permaneçam exatamente como estão: trabalhos pouco cansativos, financiamentos públicos para filmes, discos, livros — distrações típicas de qualquer burguesia — bolsas para estudar no exterior, educação pública enfraquecida para que nossos filhos saiam dos melhores colégios privados e peguem todas as vagas das universidades federais, jantares em restaurantes do momento, um espumante em Paris — nem que seja em viagem parcelada em 24 vezes. A Nossa Elite não paga à vista.

A disputa pelo Poder, no Brasil, é uma guerra para definir quem irá saquear o Estado, me disse um amigo.

Um carro de som com um telão ecoando o hino militar em meio a uma passeata assusta. O agente do DOPS que declara que gostaria de ter metralhado mais gente durante a ditadura é uma afronta. Mas A Nossa Elite não quer golpe militar como estratégia. Não é uma seita. Em Porto Alegre, em um protesto altamente anti-PT, 12% dos entrevistados disseram que, em caso de queda da Dilma, os militares devem tomar o poder. É muito? É. Mas é menos do que o índice nacional de apoio a governos militares. Nosso histórico é pior do que esses 12%. O militarismo e a aclamação de redentores são tradições nacionais. Não vamos esconder nossas vergonhas.

Há perigo no caminhão que pede intervenção militar. Ele representa uma luz no meio da multidão, mas — e confesso o otimismo — também representa um motivo para o neomilitarismo ser desmascarado. Saberemos nas passeatas que virão. Esses caras serão ridicularizados ou terão mais apoio dos manifestantes?

Como diz outro amigo, “é a primeira vez que vejo as ‘pessoas de bem’ marchando ao lado de milico depois do fim da ditadura”. É verdade. Mas não podemos achar que isso é um sentimento novo. Ele apenas voltou a aflorar. Essas “pessoas de bem” são A Nossa Elite, a mesma que derrubou os militares, a mesma que derrubou Collor, a mesma que vai querer derrubar os novos militares em um futuro distópico, em 2025, quando eles estiverem novamente no poder. “Fora, milico!”. A Nossa Elite vai lutar. Pra que o Brasil siga mudando, pra que tudo permaneça como sempre foi.