Dona Rita — Foto do Alcimar Veríssimo

Janela indiscreta

Uma história de coragem

“Copiei o título desse texto de um dos filmes do grande diretor Alfred Hitchcock, exibido em 1954. Existe uma discreta ligação com a história, mas não é o assunto principal. Se você está temporariamente ocupado com outra coisa neste momento, solicito que guarde esta leitura para um momento mais calmo, onde você possa dedicar um pouco mais de sua atenção, pois eu quero te falar sobre coragem. Neste exato momento eu tenho toda a história em mente, mas não conseguirei escrever tão bem quanto falaria pra você, caso estivesse de frente pra mim. Trata-se de uma história que já contei pra algumas pessoas em momentos em que estive bêbado ou quando me perguntavam sobre minha infância. É algo que mexe comigo a cada vez que conto, e dessa vez, através desse texto que eu jamais pensei em escrever, falo sobre coragem”.

Meu pai e eu morávamos sozinhos a alguns quilômetros de distância da casa de minha vó, que era a pessoa de confiança mais "próxima" de mim. Aposentado, ele sofria/sofre de doenças mentais, o que não justifica, mas explica o fato pelo qual ele se tornava agressivo na maioria das vezes. Obviamente, eu era o único ponto de fuga para qualquer problema que ele tivera. Isso inclui as pancadas e xingamentos que absorvi por anos e que foram essenciais para que hoje eu pudesse entender um pouco do significado da palavra coragem.

Eu não contava com outras crianças para brincar e isso me obrigava a forçar minha imaginação. Pra não ser radical, posso dizer que haviam sim dois meninos bem mais novos que eu que moravam na casa ao lado, filhos de um amigo do meu pai. Minha convivência com eles nunca foi verdadeira. Chegavam com caixas de brinquedo e eu fingia gostar daquela visita. Posso estar confessando um crime dos muitos que já cometi, assim como todo ser humano comete quanto é criança, mas certo dia cheguei a molhar a chupeta do mais novo no óleo de manutenção do meu pai e colocar de volta na boca dele. Se estava gostoso, não sei, mas acredito que não.

Fui desenvolvendo esse talento para a maldade graças ao meu pai. Eu adoraria citar todas as mais diversas maneiras que ele tinha de me acordar para a escola usando um pedaço de madeira que ele batia contra meus ossos, mas outro texto desse seria necessário. O importante é que eu não deixei de acreditar que em algum dia na minha vida, eu escreveria sobre isso com tanta naturalidade.

Acredito que toda criança tem pesadelos pelo fato de assistirem a filmes de terror ou vive-los. Eu tinha pouco acesso a TV de casa e não lembro muito bem de ter assistido a nenhum filme de terror entre meus 0 aos 9 anos de idade, aproximadamente, mas as coisas que eu passei foram suficientes para que frequentemente, eu tivesse um sonho que se repetia.

Neste sonho era como se eu estivesse "preso a um looping". Sempre encontrava-me caminhando num lugar conhecido até que algo parecido com um ímã começava a me puxar pra trás. A força de atração era enorme e eu não encontrava uma forma de me soltar. O sonho era desesperador e sempre ocorria da mesma forma. Assim que ele começava, era como se eu já soubesse o que iria acontecer. Como já falei, estava preso num looping e só eu conseguiria sair.

Os anos foram se passando e as coisas foram acontecendo na minha vida monótona até os 10 anos. Isso inclui as coisas que eu fazia no dia a dia e os sonhos que eu tinha durante as noites de sono. Também sonhava com Keyla, personagem principal da melhor história da minha vida, da qual ainda não publiquei, mas já escrevi em folhas de papel para a minha primeira namorada. Resumindo, Keyla foi o primeiro amor da minha vida. Não teria como não sonhar com ela, mas os sonhos destinados a ela só passaram a fazer sentido depois dos 10 anos de idade. Prometo que um dia escreverei essa história novamente.

Meu pai e eu nos mudamos para uma casa que ficava no mesmo quintal da minha vó. Eu finalmente teria algumas pessoas por perto e foi daí que passei a ter acesso a outras crianças com a mesma idade que a minha. Não posso deixar de falar que esse acesso foi o mais limitado possível. A casa mudou e eu não ganhei minha liberdade, mas ganhei uma janela de presente.

Deste ponto da historia em diante, moramos numa casa pequena onde aprendi tudo sobre limpeza, organização e respeito. Sim, meu pai é extremamente organizado e conservador. É claro que hoje eu tenho uma cabeça bem diferente da dele, mas o básico eu ainda trouxe comigo. É fácil pra quem ficou por um bom tempo observando tudo pela janela. Quando digo tudo, me refiro aos vizinhos que passavam, meus amigos que brincavam na rua, minha família que chegava pra visitar minha vó e até mesmo as laranjas que caiam de uma árvore no quintal. A janela era como um ponto de fuga. Se eu não podia sair de casa, ao menos poderia olhar o que acontecia na rua. E isso era o que mais machucava. Permaneci preso e o tal sonho continuava a rodar na minha cabeça durante as noites. Já estava acostumado, apesar de não entender o real motivo dele. Até que certo dia eu descobri.

Dona Rita, minha vó, era casada com um escrivão da Polícia que não era nem um pouco amigável. Como ele tinha duas famílias, passava alguns dias da semana na casa de outra mulher, e ela ficava enfim, livre pra receber visitas das minhas tias. Não preciso nem dizer que ele também não gostava da minha presença na casa dele, mas desde pequeno eu desenvolvi uma habilidade conhecida como “cara de pau”. Alguns dizem que é um forte do meu signo de virgem, mas isso é conversa fiada. Sendo assim, sempre que meu pai falhava eu corria para a casa dela. Era como um abrigo que eu fui descobrindo aos poucos.

Lembro-me da última vez que meu pai tentou me bater. Eu já tinha por volta dos 12 anos de Idade e encontrava-me de pé em cima do sofá da sala que ficava próximo da janela, praticamente encostado. Se tem uma coisa que ele odiava, era me ver usando o sofá como se fosse um trampolim. E isso foi a gota d’água pra que ele viesse da cozinha com uma vassoura na mão e tentasse quebrar na minha cabeça. Me orgulho em dizer que só não conseguiu graças ao salto que dei pra fora da janela. Não me pergunte como eu pulei, apenas acredite que eu me esborrachei todo quando caí do outro lado. A janela tinha 1,30m de altura. Nada mal pra um garoto de 12 anos. Pra minha felicidade eu escapei da “vassourada” e pulei pra fora da casa. Coisa que nunca teria feito com meu pai. Fugir de uma das agressões era como garantir a próxima. Isso foi libertador, me senti capaz.

Depois disso só me restou fazer o que normalmente eu faria. Corri pra casa da minha vó e lá permaneci até anoitecer. Cansado, afirmei pra ela que jamais voltaria a morar com meu pai. Naquela noite ele ameaçou jogar-se na pista na intenção de me fazer voltar pra casa, mas eu não pretendia ficar só até anoitecer, mas também até o dia seguinte, até o terceiro dia e durante as semanas seguintes também. Minha vó caiu em desespero, sabia que não poderia me abrigar, tendo em vista que seu marido não aprovaria a ideia e mesmo assim, me escondeu por um tempo indeterminado, até que a poeira baixasse.

Naquela mesma noite, eu dormi da forma mais tranquila possível. Como de costume, tive o mesmo sonho que me perseguia durante anos, só que desta vez encontrava-me no quintal da casa de minha vó enquanto algo parecido com um ímã me puxava pra trás. A partir daí aconteceu algo inexplicável. Senti como se eu assumisse o controle do sonho. Era como se minha força física agisse diretamente nele, como um personagem vídeo game que nós conseguimos mover através de um controle remoto. Depois disso, ao invés de continuar sendo puxado pela tal força, consegui fazer um impulso pra frente que me livrou daquilo. Alguns falam sobre intervenção divina ou acaso, mas eu prefiro acreditar que isso aconteceu graças ao meu ato de coragem de pular por aquela janela indiscreta, mas o fato curioso é que depois daquela noite, eu nunca mais tive aquele sonho.

Nos anos seguintes as coisas começaram a acontecer na minha vida. Passei a sair de casa e conhecer tudo novo, inclusive as meninas, que até então eram algo desconhecido pra mim. Dona Rita me “escondeu” na casa dela durante 3 anos até que seu marido faleceu ao cair de uma cadeira enquanto trocava uma lâmpada. Durante os outros 3 anos antes de eu completar a maior idade, ela cuidou de mim até que eu entrei no Exército. Meu pai até hoje não sai mais de casa e leva uma vida totalmente solitária. Vive de frente pra TV assistindo algum noticiário e observando os vizinhos pela janela. A mesma janela na mesma casa. Espero que um dia, ele também pule através dela.

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