Melodia dissociativa

2013/01/16
Eu continuo no sentimento forte de escrever alguma coisa, mas sem saber o que é. Continuo numa vontade insana de expressar o que não tem necessidade, de mostrar as enfermidades que não devem ser expostas, de abraçar algo quando não possuo braços.
Não que eu não saiba o que é, eu posso encontrar. Não também que eu não queira encontrar, eu só não posso encontrar. Mas as permissões são diferentes. Parece contraditório dizer que eu posso, e que eu não posso, mas o que é não é necessariamente o que é. Não que as coisas sejam relativas — sim, que a realidade é formada de fragmentos que não se encaixam mas fazem parte do mesmo corpo rachado.

Sim, eu controlo o tempo.
Aparentemente é delírio.
Eu não nego que a vida seja uma experiência alucinante, em uma expressão pouco ou nada figurativa da palavra, que nada mais é característica do que alucina. O tempo não é poesia, que bate asas e voa, mas nem mesmo sabe que a atmosfera é uma cadeia — o tempo é como um mecanismo de ataque, e de defesa.

Na vida, pouco ou nada se é relativo. Variabilidade pouco está relacionado à relatividade. Variável é constante até que se altere — o relativo é o corpo vazio que mostra sempre o que um miserável escopo d’alma deseja, assim sendo, uma mentira. Suspeito que tudo o que é relativo é mau. Deposito a minha confiança nas variáveis.

O tempo não é relativo — num sentido físico, claramente sim, não é nesse aspecto que estou falando. O que falo é num aspecto perceptivo. O tempo é variável. Ele não é constante, mas não funciona de modo a satisfazer os desejos — ele funciona do jeito que é.
Sinto que o controle sobre o tempo não é uma habilidade do ser, mas sim um fardo. Sinto-me cansado toda vez que percebo a desregulagem dos relógios da minha mente, sinto essa trágica consequência da variação do que chamo de identidade como uma facada em minha garganta, e logo em seguida ouço gritos desesperados clamando ajuda.
Alegam tristeza. Vejo a forma dos lábios mudando seu estado em câmera lenta, consigo ver em escala nanométrica cada letra que forma uma frase triste. Sinto cada palavra sendo escrita em minhas veias.
E quando o tempo não está fluindo, mas está em minhas mãos, aguardando minha ordem, sinto peso. Não consigo segurar o tempo sem que o mesmo perfure meu corpo. Não consigo, também, girar o relógio mais rápido e evitar que meu mundo dê voltas indevidas também. Às vezes, no entanto, acabo usando. Se é pela minha vontade? Duvido muito.

Todas as noites alguém pede ajuda. Todas as noites, alguma parte do meu corpo derrama sangue, literalmente — e sim, no sentido correto de literalmente. Algumas noites, meus olhos resolvem sair, dar uma volta — explodir.
Algumas noites, eu machuco o tempo.
Outras, o tempo me machuca.

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