[ chuva no largo ]

Ainda me lembro da primeira vez que os olhos se cruzaram.

Chovia. mas não chovia pouco não. Talvez chover não fosse o verbo mais correto. Caía o céu, sem exageros.

O dia tinha virado noite, assim, de repente. Tudo ficou num escuro estranho e as pessoas tiveram muito medo. Ventos fortes, chuva grossa, pedrinhas caindo.

O homem não pode mesmo com a força da natureza. constrói, aterra, destrói e põe muito concreto no mundo. Vem a água e passa por cima, nem quer saber.

Em poucos minutos de tristeza (ou alegria) celeste, o Largo já encheu.

Quando eu desci do ônibus, ela já estava no meio da roda. Agora, já passa da cintura.

Incrível o desespero das pessoas. Senhoras com crianças no colo chorando mais que as nuvens, moças de roupa branca e homens com pressa.

É só água.

Eu, menino e molhado, não tenho muito o que fazer.
Nunca gostei de guarda-chuva e por essa ninguém esperava mesmo.

O tempo não está afim de brincadeira. É chuva de machucar.

Atravessei o Largo com dificuldade, mas consegui chegar embaixo da entrada das Americanas. Foi lá que te vi.

Encostada na coluna, como um bicho acuado.
Completamente molhada, olhos saltados, tremendo.

Figurinha estranha.

Duas trovoadas, luz de raio aqui do lado. O susto nos aproxima. Continuo te olhando de lado e você pra frente, firme, dura.

Trovão de novo. Segura minha mão e me olha molhada.

Olhamos para o nada, terminando assim. Chuva passar.
Talvez não devesse ter tanta pausa assim.

SP, 27.08.00

©Jean Boechat

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