363 dias — Uma jornada em SP.


7 de novembro de 2015.

Embarco pela primeira vez em um ônibus para uma viagem com mais de 5 horas. Pela primeira vez, pra um lugar completamente desconhecido. No bagageiro, o que couberam nas malas, gentilmente organizadas por um grande amigo. No banco e na mochila, o resto que sobrou de mim depois de meses desastrosos.

Estava indo tudo bem até entar no ônibus, mas minha cadeira no segundo andar estava ocupada. Foi quando precisei descer os degraus e olhar pra trás. Queria nunca ter olhado.

De todos os choros que já tive, aquele foi o mais doído, mais intenso e mais profundo. Aqueles que fazem seu coração querer explodir e acontecem poucas vezes na vida — ainda bem.

Quando eu olhei pra trás, eu sabia que ia ser tudo diferente.


Hit the road, Jack. Font: Unsplash.

8 de novembro de 2015.

A selva de pedra já toma suas formas. As cores vão sumindo do céu, minha bateria acabando e as músicas que me consolaram e me seguraram durante as 14 horas enfim se silenciaram. Era hora de encarar a primeira das serpentes.

Por sorte, já havia aprendido que nada como ter bons especialistas em venenos por perto. Por sorte, já tinha aprendido que sozinha não conseguiria.

Precisei descobrir antes de encarar a nova decisão. Entregar apartamento, vender móveis, despedir de amigos, sofrer, rezar, acreditar, consolar e desabar. Não dava pra ser sozinha. E ainda bem que não foi.

De uma forma terrivelmente amável, vi nos olhares tristes de despedida a solidariedade latente que só almas iluminadas demostram. E ainda bem que eu estava por perto pra ver.

De uma forma terrivelmente estranha, as coisas se encaixaram. O amigo que ficou com os móveis. O anjo que providenciou a passagem. O mestre que fez surgir um cheque. A leoa que me manteve sã. O pequeno gafanhoto que me fez sentir raiva por ir embora — e finalmente sentir como aquilo era real.


Mudar pra São Paulo foi o menor dos problemas. Os 900 quilômetros de distância não eram nada. O problema sempre foi o que esses quilômetros significavam.

Não era sobre escolher participar do crescimento dos meus sobrinhos, nem sobre ficar ao lado da leoa pra sempre.

Os 900 quilômetros sempre foram a separação de uma descoberta que eu não sabia se estava pronta.

O medo latente nunca foi sobre dar conta do trabalho, das mudanças climáticas, dos boletos ou do caríssimo aluguel.

Sempre foi sobre enfrentar o maldito escuro que escondi por tanto tempo.


Nunca foi sobre São Paulo. Sempre foi ele, o dark side.

Eu sabia que ele iria aparecer. Eu só não sabia que ia aprender a sufocá-lo de vez em quando.


Foram precisos 21 anos, 900 quilômetros de mudança, 30 quilômetros de caminhada sem direção em uma noite escura e chuvosa, dores insuportáveis e uma alta dose de desistência de mim pra me encarar.


Mas funcionou. 363 dias — e contando — de uma jornada que não está nem perto de ser finalizada.

363 dias de montanhas russas que me fizeram perder o ar, ao ponto de deixar meu cérebro em baixo funcionamento, para então decidir respirar de novo.

Esse ar poluído, desastroso e completamente alérgico. Mas que foi capaz de re-ativar dois pulmões que já estavam cansados.

Font: Unsplash.

Ainda faltam dois dias. Mas 363 dias foram suficientes pra que eu saiba que muito pode mudar em 48 horas por aqui.

Tá sendo louco, SP. E é só por isso que a gente ainda tá aqui.


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