Aquele elefante azul na sala

Valéria Barros
Nov 24, 2015 · 4 min read

Olha pra mim e diz: que que cê faz quando alguém te conta que tem depressão?

Go, elephant! Font: Unsplash

Disclaimer: imediatamente após escrever comecei uma crise de ansiedade que me deixou sem ar. Louco, né? Acho que a sombra não quer sair daqui.


Já vi um monte de reação. Da minha mãe, a incompreensão. Dos amigos próximos, a negação — Como assim, você é a pessoa mais feliz que conheço. Dos familiares, a resolução — isso é falta de deus no coração. Dos desconhecidos — isso é coisa de gente desocupada.


Dia desses conversando com um amigo, contava sobre meus medos da terapia. E porque até hoje não havia procurado ajuda.

Na minha cabecinha de adolescente, a coisa funciona assim: eu já consegui superar antes, agora vai ser fichinha (spoiler: nunca é). Terapia é pra quem não tem autoconhecimento o suficiente. Vou procurar quando achar que tô colocando minha vida em risco.

O que a gente não percebe é que uma depressão mal tratada, ainda que não te leve ao suicídio, destrói sua vida. Não é exagero.

Eu pensava que colocar a vida em risco era atentar contra minha sobrevivência. Mas não é. Essa solução é só um pouco mais drástica.

Na verdade, ignorar e calar a doença te mata aos pouquinhos — e pra mim isso era ok. Quem nunca. Imagina se vou querer confrontar a Val real aqui dentro. É muito trampo.


Eu tô percebendo aos pouquinhos que tô completamente bagunçada e fodida. E olha, essa constatação acaba com você. Tem uns bons dias que consigo ouvir essa vozinha irritante dizendo isso. Young, Broke, & Fabulous (só que sem o Fabulous, obviamente). É um saco ter que lidar com isso e assumir que é minha realidade.

Não sei se foi todo o positivismo (talvez ele próprio seja um refúgio) que me fez acreditar que ia ficar tudo bem. Que eu ia sempre conseguir superar e ficar feliz no final. E ai eu poderia assumir que sou uma solitária antissocial compulsiva e seria tudo ok. Seria mais um passo ao plano de morar em uma chácara cheia de plantas e cachorros, e sozinha — rostinho feliz compulsivo.


Eu assumo que sempre fui mais forte do que imaginava. De forma geral, sempre transpareci pra mim e pro mundo que eu consigo. Você quer ser um canalha comigo? Ok, eu sei lidar. Você quer me fazer sentir um verme inóspito? Ok baby, fichinha. Você quer me procurar quando estiver carente? Ok, sou madura pra isso. Você quer ignorar toda a carga emocional de qualquer relação e fingir que o lance aqui é só carnal? Vamo lá. Tô pronta.

Só que eu meio que cansei. Cara, dá o maior trabalho. Eu digo sim, já sabendo a merda que isso vai ser. Eu aceito e faço com que tudo aquilo entre pro meu limbo sentimental, fazendo um esforço sobre-humano pra nunca mais pensar nisso — funcionou sempre.

Mas que inocência a minha achar que isso não trás prejuízos! É como quando você enche seu guarda roupa de tranqueiras. O quarto fica arrumadinho, nem você nem quem te visitar vai ver a bagunça. Só que o espaço é limitado, né. Uma hora a bendita porta estoura e sai quebrando tudo pelo caminho.

E eu não quero esperar a porta estourar. Vou arrombar essa porcaria.

Acho que tô escrevendo isso aqui pra mais pessoas saberem, e com isso ter um desafio mais palpável. Sei lá, quando a gente escreve parece que tem um termo de responsabilidade com o leitor. Eu sinto isso quando leio alguma coisa. A obrigação do carinha escrevendo pra mim é fazer sentir — nem que seja ódio. Mas enfim.


Acho que eu meio resolvi fazer isso porque olhei meus olhos no espelho — e nunca os vi tão tristes. E eu gosto muito deles. É minha obrigação deixá-los felizes de novo.

Acho que eu meio resolvi fazer isso porque eu sou a única responsável por mim. Porque tô meio cansada de esperar que alguém me pare na rua pra perguntar se tá tudo bem ou de receber um abraço inesperado e acalentador — porque isso é meio ficcional. E cansei de viver nesse mundo paralelo.

Cansei de esperar uma resolução pragmática pro meu problema. Ou de ter que ligar pra alguém na esperança de ajuda. Ou implorar por atenção — do meu jeito que nem parece implorar mesmo. Maldito ascendente em áries.


Eu cansei desse ciclo vicioso de ficar bem e, BUM, não ficar mais. Cansei de mim assim. De achar que é normal não querer dormir pra não precisar acordar. De sentar no chão do banheiro enquanto toma banho por vários dias seguidos e achar que é ok e tá tudo bem.

Não tá tudo bem.

Eu tô ligada que o processo dói e que pode até matar isso que eu identifico como eu hoje. Mas olha, vamo lá. *suspiro profundo*

Eu inocente achei que toda essa migração que foi esse ano (e que falarei na cartinha pra Val de 2016) não fosse causar prejuízo emocional. Que mudar pra uma cidade até então desconhecida, sozinha, longe de casa, da família e da minha janela ia ser DEBOAS. Porque né — essa Valéria aqui acha que precisa provar à qualquer custo que tá sempre pronta pra qualquer coisa.

Mas, que bom que o prejuízo apareceu. Assim eu penso na autonomia que preciso ter sobre mim pra fazer isso tudo. Pra sobreviver a isso tudo e pra ver que vai ser legal no fim das contas.


Não sei quando vai terminar. Mas esse processo começa agora, com a constatação, com a decisão e com o desejo de que fique tudo bem uma hora ou outra. Mas eu fico tranquila, por incrível que pareça.

Meu santo é forte, dizem.

A Jornada

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