Virei estatística.

Alerta de gatilho: Os relatos abaixo contém descrições de violência sexual e doméstica.


Virei estatística. Voltando pra casa, debaixo da garoa, um carro ao invés de continuar, fez o retorno e passou ao meu lado bem devagar. Eu não sei porque. Punhei minha chave de casa no meio dos dedos, só pra me passar uma sensação um pouco melhor. Mas não adiantou. O carro parou e me assustou. Na rua escura, me perguntou se preferiria ser estuprada ou morrer. Escolhi morrer, mas a pergunta era retórica. Três dias depois, acharem meu corpo, morto. Virei estatística.

Virei estatística. Ele prometeu que nunca mais ia me bater. Ele pediu perdão e disse que me amava, e eu acreditei. Ele me bateu e eu fugi. Decidi que nessa estatística não ia mais estar. Ou pelo menos eu tentei. Ele me achou. Ele estava nervoso, e não queria me deixar. Ele veio armado. Ele disse que me amava enquanto coronhava a arma na minha nuca. Enquanto socava meu estômago, enquanto socava meu rim. Eu não consegui fugir. Quando ele se cansou, só resolveu findar a tortura. Um tiro na cabeça. Virei estatística.

Virei estatística. Eu só tinha bebido um copo de cerveja, mas acho que alguém tinha batizado. Fiquei tonta e um rapaz chegou perto de mim e me segurou pelo pescoço. Não me lembro de muita coisa, só do corpo dele em cima do meu. Do cheiro horrível de pecado. Da culpa que senti. Me lembro de acordar confusa em um lugar desconhecido. Das fotos que vazaram nos grupos. Me lembro de decidir que não queria mais viver essa humilhação. E me lembro do gosto, amargo, dos remédios na boca. Me lembro da dor da minha mãe quando achou meu corpo, trucidado de agonia. Virei estatística.

Eu tinha dito não. Eu sei que disse não. Mas ele não me ouviu. Chegou bêbado, trancou as crianças no quarto e disse que era minha obrigação. Eu só acreditei. Meu corpo não era meu. Virei estatística.

Eu ainda era criança. A memória é falha. Os amigos do meu pai estavam em casa, mas eles gostavam de mim. Me tratavam bem e me faziam carinho. Mas era um carinho diferente do que minha mãe me dava. Eles me tocavam de um jeito estranho, eles diziam pra não falar pra ninguém. Eu mal sabia falar. Eu era uma criança e tiraram de mim esse direito. Virei estatística quando nem sabia o que estatística era.

Meu pai matou minha mãe, eu não sei porque. Acho que ele ficou bravo com ela e ficou bravo com a gente. Eu não sei o que aconteceu. Ele disse para mim e pra minha irmã que a vida tinha acabado, acho que a mamãe queria terminar com ele. Ele tirou nossa roupa, e colocou fogo na gente. Os médicos estão cuidando da gente, mas a mamãe não vai voltar. Eu vou cuidar da minha irmã, porque a queimadura dói demais. Mamãe morreu, ele também. Agora é só a gente. Acho que agora a gente virou estatística.

Virei estatística. Eu era adolescente e andava de ônibus. Dois homens sentaram do meu lado, me apontaram uma arma e me mandaram ficar em silêncio. Eu fiquei. Eles me levaram para um lugar sujo. Eles abusaram do meu corpo e da minha dignidade. A polícia não me ouviu. Disse que não havia suspeitos e que era muito tarde para eu estar no ônibus sozinha. E que provavelmente eu queria. Eu não queria. Eu disse não. Eu tentei. Mas foi tarde demais, eu virei estatística.

A cada minuto, oito mulheres são vítimas de violência doméstica no Brasil.

A cada minuto, uma mulher é estuprada no Brasil. A maior incidência de estupros é com crianças e adolescentes.

As histórias contadas não tem nome. Mas elas são reais. Elas existem próximas de nós. Elas acontecem na nossa esquina.


Meu coração dói de saber que as histórias que não aconteceram comigo, aconteceram com a minha família. Aconteceram com minhas vizinhas.

A história não muda muito de roteiro. O medo é real, a desconfiança é real.

O texto é pesado e necessário. Compartilhe.